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Qual o problema da verticalização?

O grupo Direitos Urbanos surgiu a partir de um movimento de oposição ao Projeto Novo Recife, cuja mais alarmante característica é o enorme impacto na paisagem que pode ser causado pelas quinze torres de até quarenta andares. Por isso, muitas vezes as questões levantadas pelo grupo são reduzidas, na parte descuidada da imprensa ou pelos detratores, como uma simples oposição à verticalização e ao crescimento da cidade. Volta e meia o debate público cai na falácia de um falso dilema entre o modo obviamente insustentável e caótico como Recife vem se desenvolvendo e uma oposição radical à civilização e ao progresso e um retorno à natureza intocada. Essa simplificação proposital já foi rebatida já no FAQ sobre o Novo Recife e em outros textos, mas a questão “qual o problema da verticalização?” muitas vezes provoca um bom debate, que lança luz sobre a maneira como as cidades brasileiras vêm crescendo e o mais importante: aponta onde estão os verdadeiros problemas, para que possamos discutir as soluções. O problema não é a verticalização em si, mas como ela é feita em Recife. Explico a seguir.

Imagem de prédios em Hong Kong, onde não há limites para o adensamento construtivo

Imagem de prédios em Hong Kong, onde não há limites para o adensamento construtivo

  1. Premissa: O professor Luiz Amorim, da UFPE, costuma dizer uma frase que tomo como o princípio mais básico do qual provavelmente todas as pautas do DU decorrem: a cidade é um misturador de gente, é pra isso que ela existe, é assim que ela tem sua máxima força. Um aglomerado urbano que segrega e isola seus habitantes, como ele diz, pode ser tudo menos Cidade. A aproximação e o aumento da interação entre as pessoas é tanto o que permite a divisão do trabalho e as economias de escala que são normalmente citadas nos textos de economia urbana, mas também é o que está na base da força cultural das cidades como centros de inovação e trocas de idéias. A filosofia surgiu em cidades portuárias da Jônia, na antiga Grécia (hoje parte da Turquia), locais em que existia grande mistura de culturas e troca de idéias, mas mesmo num mundo com tanta tecnologia de informação e comunicação, a aproximação de pessoas para uma interação cara a cara nas cidades é um importante motor de inovação.

  2. Adensamento é bom e necessário. Uma primeira conclusão dessa premissa é que as cidades podem funcionar melhor nesse seu objetivo de misturar gente se for possível colocar mais pessoas por hectare e também aproximar as diversas funções urbanas.

    1. Uma cidade menos espalhada facilita não só ir de casa ao trabalho e ir de casa à padaria, mas também facilita encontrar os amigos pra uma conversa ou o pessoal do DU para uma reunião no parque. O adensamento permite mais interações planejadas ou espontâneas, embora não seja o único fator necessário para que isso aconteça.

    2. Além disso, o adensamento, ao permitir agrupar mais pessoas em menos solo, permite, em tese, consumir menos terra e, por consequência, deixar mais parte do meio ambiente natural intocado.

      Tabela mostrando a diminuição do custo de infra-estrutura por habitante com o adensamento

      Tabela mostrando a diminuição do custo de infra-estrutura por habitante com o adensamento (clique para ampliar) – da dissertação de Raphaela Moreira – “A questão do gabarito na orla de João Pessoa” –

    3. Também é preciso apontar as economias com infra-estrutura proporcionadas pelo adensamento: em uma cidade menos espalhada, por exemplo, a rede viária é menor e atende mais pessoas. Se as pessoas começam a morar fora do centro urbano, em condomínios de casa em Aldeia, p.ex., as necessidades de deslocamento serão maiores e os custos para prover essa infra-estrutura serão maiores. Na verdade, o espraiamento pode até inviabilizar alguns serviços públicos como o de transporte público, pois o espraiamento cria longos trajetos com baixa demanda. O comércio e a ofertas de serviços privados também se prejudica pela baixa densidade, principalmente numa escala local:  em uma área densa, o dono de um pequeno mercado consegue ter um número suficiente de potenciais consumidores num pequeno raio de deslocamento, que pode ser feito a pé ou de bicicleta. No meio de uma área residencial de condomínios na Zona Rural, é possível que não existam mais de dez casas num raio de 500m, os pequenos mercados se tornem inviáveis e os moradores acabem se deslocando por carro para fazer compras semanais em hipermercados.

      O adensamento traz vantagens até um certo ponto, a partir do qual começa a gerar mais problemas do que benefícios. (clique para ampliar)

      O adensamento traz vantagens até um certo ponto, a partir do qual começa a gerar mais problemas do que benefícios. (clique para ampliar) – da dissertação de Raphaela Moreira – “A questão do gabarito na orla de João Pessoa”

    4. Por fim, densidade baixa demais prejudica a vitalidade urbana, o movimento de pessoas nas ruas, tornando-as mais desertas e perigosas. Mesmo em áreas urbanas, como notou Jane Jacobs, a densidade nas áreas vizinhas é uma das condições mais importantes para que parques sejam intensamente frequentados se tornem um sucesso. Por isso mesmo que, por exemplo, não seria uma boa idéia transformar toda a área do Cais José Estelita em grande parque, sem que houvesse algum adensamento nas áreas vizinhas para trazer movimento para ele.

  3. Mas não existe almoço grátis e de forma geral o aumento da densidade vem com custos que devem ser contrapostos aos ganhos previstos

    1. o argumento da economia em infra-estrutura só vale até o ponto em que a capacidade da infra-estrutura não está esgotada e se torna necessário investir em sua ampliação. É o caso da rede de esgotamento sanitário que está estourando em várias áreas bastante verticalizadas da Zona Norte de Recife, com esgoto fluindo pelas ruas. Outro exemplo bastante claro do limite desse argumento é a infra-estrutura viária: baixa densidade e espraiamento geram custos com a ampliação da rede viária, mas densidade alta demais (e um modelo de mobilidade baseado no carro) também gera esgotamento da infra-estrutura, com o agravante de que nem sempre é possível (e desejável) investir na ampliação de sua capacidade.

    2. Aumento da degradação da qualidade ambiental, com mais poluição do ar, mais poluição sonora. Perda da tranquilidade de forma geral.
    3. O argumento da preservação do meio ambiente natural também tem uma validade restrita, pois adianta muito pouco em termos práticos, em ganho de qualidade de vida no dia a dia do citadino, se pensarmos só na preservação do meio ambiente no meio rural, numa reserva distante do centro urbano. Isso pode fazer algum sentido numa visão global, em termos de balanço das emissões de carbono e de limitação do efeito estufa, mas a perda de cobertura vegetal dentro das cidades cria ilhas de calor, degrada a paisagem urbana e diminui ou torna pouco convidativas as áreas públicas de convívio. Se o adensamento for feito por intensa verticalização e/ou sem respeitar recuos e sem utilizar estratégias arquitetônicas como o pilotis, o impacto sobre o micro-clima piora com o obstáculo à ventilação.  Além disso, perda de cobertura vegetal também leva  a uma maior impermeabilização do solo, impactando a drenagem da água da chuva e levando aos costumeiros alagamentos que Recife sofre em certas épocas.

    Diferenças de calor em Boa Viagem, entre áreas adensadas e áreas verdes preservadas

    Diferenças de calor em Boa Viagem, entre áreas adensadas e áreas verdes preservadas

  4. Mas também existem várias maneiras de adensar (e até de entender e medir a densidade) e, em Recife, só temos investido em uma delas, a verticalização, e uma verticalização com certas características que acabam por diminuir os ganhos do adensamento e aumentar suas desvantagens:

    1. Adensamento e verticalização não são sinônimos. Esse texto explica a diferença com exemplos de Recife e esse site, comparando várias cidades do mundo com base em indicadores diferentes, traz uma ótima discussão sobre a variedade de caras da densidade construtiva. Paris e Barcelona têm densidades, seja em proporção de área construída, seja em número de habitantes por hectares, às vezes maiores do que a das áreas mais verticalizadas do Recife.

    2. Nem sempre o adensamento estimula a vitalidade urbana e a segurança pela presença de pessoas na rua. Ele é uma pré-condição, mas não condição suficiente. Em Recife o adensamento tem sido realizado por meio de edifícios isolados da rua por grandes muros (contra a receita destes textos) e com a destruição da diversidade local de usos que permite com que as pessoas possam resolver grande parte das necessidades da vida a pé ou de bicicleta. Gradativamente, com a falta de controle do poder público, o comércio tem se agrupado em shoppings e hipermercados e a cidade, com seu desenvolvimento urbano planejado pelas construtoras, tem repetido um dos erros de Brasília: a aglomeração de certos tipos de atividade em “pólos”, como o pólo médico na Ilha do Leite. Tudo isso estimula ainda mais o deslocamento motorizado, degradando a qualidade ambiental das ruas, tornando-as perigosas e criando um círculo vicioso a favor do carro. Como cereja do bolo, as leis urbanísticas, ao invés de levarem em consideração o esgotamento das ruas antes de permitir novos prédios, estimulam a construção de mais vagas de garagem e o uso do automóvel.

    3. O adensamento, como forma de multiplicar em área construída a área inicial do terreno, também é um fator de forte valorização do solo e, por consequência, de pressão especulativa sobre lotes ainda não explorados ao seu máximo potencial econômico. Costuma-se argumentar a favor de pouca regulação do mercado imobiliário a partir da idéia de que o livre atendimento das demandas e um forte adensamento permitirá garantir uma oferta alta o suficiente para empurrar os preços para baixo. Mas essa valorização do solo com o aumento do adensamento acaba por encarecer as unidades produzidas e diminuir o efeito do aumento da oferta. Além diso, cria pressão especulativa sobre as casas que ainda resistem numa determinada área e tornam áreas ocupadas por comunidades de baixa renda um alvo do capital imobiliário. O efeito colateral disso é a gradual expulsão, violenta ou pela força do encarecimento do custo de vida, da população de baixa renda de áreas centrais e próximas aos bairros mais “nobres”. Isso cria um adensamento só dos ricos e um espraiamento da pobreza, o que, além da óbvia segregação entre classes, cria problemas de mobilidade maiores justo para a parcela menos privilegiada da população e a distancia

  5. Tudo isso sabota a ligação entre o adensamento e a premissa inicial – “a cidade é um misturador de gente”. O adensamento das áreas de intensa atividade do mercado imobiliário recifense tem produzido um aglomerado urbano que tem sido tudo menos a cidade-misturador referida pelo prof. Luiz Amorim. A verticalização do Recife, ao invés de aproximar e misturar os seus citadinos, tem produzido uma cidade cada vez mais segregada, setorizada, dependente do carro, sem pessoas na rua e somente para uma parcela mais privilegiada da população. Não adianta aglomerar pessoas com a desculpa de que isso diminui distâncias se, do outro lado, se estimula a predação pelas redes de hipermercados e pelos shoppings do comércio local acessável a pé.
    A imagem clara de um subúrbio de luxo verticalizado: o Evolution Shopping Park, com acesso direto ao Shopping Recife

    A imagem clara de um subúrbio de luxo verticalizado: o Evolution Shopping Park, com acesso direto ao Shopping Recife

    Se é verdade que o crescimento espraiado, para os subúrbios, cria diversos problemas de mobilidade e comunidades isoladas e demasiado uniformes,  pouco adianta defender mais densidade por meio de arranha-céus se isso resultar em subúrbios verticais. Como diz o escrito Richard Florida, em um texto sobre limites da verticalização para o Wall Street Journal (que não é a típica publicação comunista, como tacham quem critica o modelo de desenvolvimento do Recife): “prédios gigantes funcionam com frequência como subúrbios verticais, emudecendo os encontros espontâneos que fornecem às cidades tanto de sua energia social, intelectual e comercial. Pessoas vivem suas vidas da porta pra dentro em tais lugares, usando até gastar caminhos entre seus escritórios e as praças de alimentação, vendo sempre as mesmas pessoas”. Alguma diferença para os grandes condomínios com múltiplas torres e área de lazer privada que estão pipocando em Recife? Como alerta esse bom texto sobre a importância da densidade para criar cidades vivas, o discurso a favor do adensamento foi capturado pelo mercado imobiliário a seu favor, mas isolado de outros fatores, tem-se “o

    Rua Santa Clara em Copacabana, Rio de Janeiro, mostrando como é possível adensar e garantir vitalidade urbana

    O contraponto dos feudos da Moura Dubeux: Rua Santa Clara em Copacabana, Rio de Janeiro, mostrando como é possível adensar e garantir vitalidade urbana

    pior de dois mundos: por um lado, temos pontos específicos da cidade (determinados pelo mercado imobiliário, não pela coletividade) com altíssima densidade (muito acima do que seria razoável prever para um horizonte de 20, 30 ou mesmo 50 anos), com sobrecarga de infraestrutura e graves problemas de acessibilidade. Por outro, temos frequentes ampliações desnecessárias (e por isso prejudiciais) do limite urbano, e alta porcentagem de imóveis sem uso, subutilizados e/ou não edificados, que resultam em densidades globais baixíssimas, oneram a infraestrutura e aumentam as distâncias a serem percorridas.

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Discussão

9 comentários sobre “Qual o problema da verticalização?

  1. Excelente texto. Compartilharei para que mais pessoas possam refletir sobre a forma como a cidade vem sendo ocupada, prejudicando nossa qualidade de vida.

    Publicado por Havana Alves | 24 24UTC março 24UTC 2014, 08:33
  2. Muito bom o texto. Só não concordo em taxar as empresas como culpadas por todos os males. As empresas buscam construir onde as pessoas desejam morar na cidade e seguem os limites estabelecidos pela lei municipal, sejam elas boas ou ruins, como empesas precisam fazer negócios igual a qualquer outro comerciante, se é legal e existe demanda, elas vão oferecer o serviço ou produto. Estas ilhas, que são os edifícios, são realmente ruins para o convívio das pessoas, mas foram criadas pela demanda da classe média por segurança, devido a crescente violência e criminalidade existentes, que são enormes, e buscaram morar em edifícios que oferecem mais segurança que as casas, e nos locais onde tem mais infraestrutura, como comércio, colégios, etc. As casas onde a classe média vivia no passado, na sua maioria, foram ao longo dos anos sendo abandonadas pelos proprietários que não queriam mais morar nelas por falta de segurança, e mudaram para apartamentos, o que gerou uma oferta de terrenos para construção de prédios, ou escritórios e comércio. Outro fator importante é a falta de investimento do poder público, que aumenta a arrecadação com estas obras e não faz a infraestrutura necessária ao crescimento, também a falta de planejamento urbano da cidade, se o Governo não faz, a iniciativa privada não vai ficar parada esperando, é preciso o poder público faça sua parte. Mas temos que repensar o modelo de cidade que queremos e com certeza estas empresas vão se adaptar ao mercado e a legislação. Mas é preciso que a regra seja clara para que haja investimentos, pois sem negócios não há trabalho e desenvolvimento.

    Publicado por Fernando | 29 29UTC maio 29UTC 2014, 11:33
  3. Excelente enfoque. Cabe a cada um de nós, cidadãos, a tarefa de mergulharmos nestas e noutras questões de civilidade e convivência urbana. Já passa da hora de intensificarmos as discussões sobre que tipo de cidade que queremos deixar como herança para as próximas gerações.
    Em frente! Vida longa ao grupo e às discussões.

    Publicado por Fernando Félix | 3 03UTC outubro 03UTC 2014, 16:00
  4. Muito boa reflexão Leonardo. Para se pronunciar defendendo verticalização é preciso conteúdo. Comecei a estudar o assunto e tenho ficado entusiasmado com a riqueza que esta reflexão pode trazer à nossa cidade.
    Precisamos quebrar este esteriótipo de que a Verticalização é sinônimo de degradação. O que desejamos é cidade com vitalidade, “junta e misturada”.

    Publicado por Paulo Cunha | 5 05UTC dezembro 05UTC 2014, 15:26

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