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A falácia do “É melhor do que não fazer nada” e o custo de oportunidade do Novo Recife

Os críticos do #ocupeestelita e de todo o movimento contra o Projeto Novo Recife volta e meia caem na falácia de acusar os opositores do projeto de defenderem que a área fique como está. Dizem, com um certo tom de conformidade, que é melhor esse projeto do que deixar o Cais abandonado. É uma falácia porque, como já dissemos no FAQ, ninguém defende isso no grupo e ficar insistindo nisso é cometer a falácia do “boneco de palha”: atribuir ao adversário uma tese mais tosca do que a que ele realmente defende, só para ficar mais fácil de bater nele. O principal problema, na visão da maioria das pessoas que são contra o Projeto Novo Recife, é que ele representa um enorme desperdício da oportunidade oferecida por um terreno tão estratégico. Já falamos sobre isso antes. As pessoas que se conformam com qualquer coisa no lugar do terreno tal como está (como se Pernambuco, no momento de atratividade econômica que vive devesse se contentar com qualquer esmola), só fazem a comparação com o terreno abandonado, mas esquecem de pensar nas várias possibilidades. O que se chama, em economia, de custo de oportunidade é o quanto você deixa de ganhar ao fazer uma escolha em detrimento de outra mais vantajosa. Geralmente a gente pensa em termos de não fazer uma escolha, no custo de oportunidade do dinheiro parado, por exemplo. Mas não se pensa, muitas vezes, que há um custo de oportunidade quando se protege o dinheiro da inflação aplicando-o na poupança, quando há alternativas que remuneram melhor e são tão seguras quanto. Da mesma forma, as pessoas pensam somente no “custo” do terreno não utilizado sem parar para pensar que determinadas utilizações podem impedir outras muito mais “lucrativas”  em diversos aspectos.

Já escrevemos um bocado sobre como o Projeto Novo Recife é um erro neste sentido, como ele deixa de ser um verdadeiro plano urbanístico para a revitalização da área e se limita a um empreendimento imobiliário como outro qualquer, mas Lucas Alves, membro do grupo Direitos Urbanos|Recife no Facebook, resolveu DESENHAR para quem não entendeu ainda. Abaixo seguem as imagens compartilhadas no grupo por ele, com seus comentários nelas:

Projeto em Washington

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Projeto em Melbourne, Austrália

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Projeto em Toronto, Canadá

Lucas-GooglePaint3
Comentário do arquiteto Cristiano Borba, na discussão sobre uma das imagens acima, mas que é válido para todas:

claro que não dá pra avaliar o projeto só pelas imagens. mas fica evidente a aplicação de um outro modelo urbanístico. as vias existentes são complementadas por novas, preza-se pela densidade de usos, a qualificação de espaços públicos diretamente agregado a tais usos… nota-se a intenção de fazer cidade, não de privilegiar determinado grupo. mas isso é muito mais frequente do que parece. mundo afora, isso é regra, não é exceção. mas o Recife ainda é muito imaturo urbanisticamente. nós, como público consumidor, nos apegamos a tendências e fetiches, montamos um raciocínio maniqueísta de que é “melhor qualquer coisa do que nada” e o mercado – construtores e projetistas – é muito ambicioso em termos de capital, mas muito acomodado no que se refere à qualidade dos produtos. é uma combinação perigosa…”

Por fim, Lucas também fez uma comparação do traçado do loteamento do Projeto Novo Recife com o proposto no Projeto Recife-Olinda, apresentado alguns anos atrás, e que deveria, em tese, servir como plano urbanístico para qualquer empreendimento naquela área. Como mostrado por Alexandre Bahia, o parecer da prefeitura distorceu além do razoável o discurso urbanístico para defender que o Novo Recife segue as recomendações saudáveis do Recife-Olinda. Na imagem abaixo, fica mais fácil entender as diferenças:

Comparação entre o Projeto Novo Recife e o Projeto Recife Olinda

Comparação entre o Projeto Novo Recife e o Projeto Recife Olinda

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Discussão

9 comentários sobre “A falácia do “É melhor do que não fazer nada” e o custo de oportunidade do Novo Recife

  1. Encontrei ontem um texto ótimo de Jan Bitoun em que ele analisa o planejamento estratégico na década de 90 em torno do Recife, mostrando como as recomendações do Banco Mundial para “cidades sustentáveis” permeavam as mudanças na metodologia de planejamento de forma mais ou menos crítica e adaptada para o protagonismo e enfrentamento dos problemas locais, e verificando em cada plano, se as perspectivas eram as da modernização do discurso, da seletivamente ou de um aprimoramento de fato das práticas.

    “A postura assumida no Projeto Capital de adesão entusiasta à integração competitiva, leva os seus responsáveis a definir territórios onde se pretende “estimular a criação de ambientes produtivos propícios à aquisição e à manutenção de níveis elevados de competitividade, mediante apoio à provisão de infraestrutura
    econômica e ao desenvolvimento de externalidades para o setor produtivo, imprescindíveis à revalorização dos investimentos privados.” No âmbito do mesmo objetivo, simplesmente denominado “Recife – cidade competitiva”, deve-se “identificar nichos de especialização e procurar adaptar o ambiente econômico ao pleno desenvolvimento desses nichos, num contexto que deve envolver fortes relações de
    parceria entre os setores público e privado.” ”

    O Projeto Capital é aquele que pavimenta o caminho para essa defesa que vemos agora da inserção do Cais José Estelita na cidade via incorporação imobiliária nos termos propostos pelo Novo Recife. O texto se pergunta se nos planos analisados, “a absorção do modelo de planejamento estratégico encaminha a gestão para enfrentar a “forma contraditória, desigual e predatória ao meio ambiente” como evoluiu a dita aglomeração (RMR), ou se apenas representa uma oportunidade de modernizar o discurso, mantendo-se a implacável seletividade dos investimentos urbanos em favor dos aquinhoados numa das sociedades mais desiguais da Terra”, permitindo concluir que o Projeto Capital está no segundo caso. Deixando claro também que a adoção irrestrita desse modelo era uma das opções políticas que se podia fazer, não a única, mesmo naquele contexto dos anos 90, de inserção das cidades nas redes globais em que era grande objetivo a atração, “através de movimentos de indução, (de) mais investimentos diante da crise fiscal e da competição pela atração de recursos”, bem diferente do cenário que temos hoje, em que o aporte concentrado de investimentos obriga a pensar com urgência, como o texto fazia há dez anos, mas em novos termos, de que maneira eles podem contribuir para as transformações da sociedade de que depende a integridade das nossas cidades.

    Isso pra dizer que, se naquela época de recursos escassos, era preciso pensar criticamente nas estratégias de atração de investimentos para que elas não traíssem o projeto de cidade que justifica o investimento do poder público nesse movimento, hoje, com a disponibilidade de recursos, ao contrário, pressionando as transformações da cidade, há que se ter mais atenção ainda e, mesmo mantendo a postura liberalista em relação a cidade, há que se ter consciência de que o poder de barganha em favor do interesse público está muito maior. É muito conveniente para os interesses privados manter a sensação de que vale todo o custo social e urbano para garantir aportes significativos de investimento, seja ele qual for, com a promessa de que depois, uma vez conquistada a “sustentabilidade econômica”, pode-se começar a pensar em distribuir seus benefícios. Não faz sentido agarrar-se à proposta do Consórcio Novo Recife para o Cais, como se ela fosse uma oportunidade única, muito menos agora. Não só porque há outras possibilidades de desenho urbano, como indica o projeto Recife-Olinda e o exemplo mostrado no texto do d.u., mas porque estamos, não se sabe por quanto tempo, em condição de, mesmo dentro da lógica de barganha, exigir muito mais para aquela área.

    Se os momentos de estagnação e crise são usados como justificativa para maior permeabilidade do poder público aos interesses privados na lógica da atração de investimentos, que os momentos de euforia econômica provoquem a correspondente sujeição dos investimentos privados ao interesse público. Quem vê no Novo Recife uma oportunidade está, justamente num período de abundância, dando-se por muito feliz com uma esmola mal oferecida.

    Publicado por cristina gouvea | 7 07UTC dezembro 07UTC 2012, 08:09
  2. Leonardo,
    Não é esse Discurso que me vem a mente quando penso no DU, afinal vocês sempre se vendem como “Contrários ao Projeto Novo Recife”, porém, para minha positiva surpresa, existe apenas um ruído entre os objetivos do DU e a forma equivocada que vocês propagam estes.
    Sugiro que se faça com máxima urgência uma devida e correta mudança de estratégia de comunicação, para que assim a Sociedade Civil tome ciência de que o DU não é contra o Projeto Novo Recife e sim contrário ao mesmo em sua atual concepção, que parece a mesma coisa, mais nem de longe é…

    Publicado por bsn@oi.com.br | 23 23UTC maio 23UTC 2014, 02:10
    • A imprensa nos vende assim, né? é fácil reduzir a discussão. Desde o começo ninguém foi favorável a deixar a área como está, nem mesmo a só fazer um parque no meio do nada. O que queremos é outro modelo de ocupação e, principalmente, que as diretrizes sejam definidas num plano urbanístico elaborado pelo poder público com a participação da população, como pede a lei!

      Publicado por Leonardo Cisneiros | 27 27UTC maio 27UTC 2014, 11:47
  3. Caríssimo,

    Seria bem melhor, sem dúvida, que Recife tivesse algum desses projetos demonstrados executados naquela área. Mas é fato também que, tanto a sociedade civil quanto a ação pública, negligenciaram Estelita durante anos.
    Agora que algo de fato está sendo feito, aparecem os que gritam? Se a iniciativa privada não estivesse fazendo nada, gritariam pelo local? Quantos outros locais estão sendo negligenciados agora e ninguém está lá para gritar por eles?

    Certamente analisar o custo de oportunidade é fundamental, mas agora é melhor usar esta mesma análise para evitar que outros locais, que precisem de alguma ação urgente, passem pelo mesmo. Esse aí a iniciativa privada nos fez o favor (sim favor!) de dar uma serventia melhor do que ser a Cracolandia pernambucana.

    Adicionaria que espero que as próximas gerações não falem como a nossa: “Eita! Está na moda manifestação, não é? Que tal reclamarmos daquele bando de empresários espertos que estão colocando rios de dinheiro PRIVADO lá naquela Cracolandia que esquecemos que existe há 30 anos? Onde? Naquele local onde torcíamos para nosso pneu nunca furar e agora eles colocarão um bairro inteiro, gerando empregos, renda e impostos! Que tal?”

    O que me parece é que essa manifestação que agora, subtamente, se levanta e começa a reclamar esquece que todo esse processo passou por um intenso caminho de aprovações municipais, estaduais e, inclusive, de partes da sociedade civil. Então agora, depois de anos negligenciando o local e após os empresários gastarem tempo, dinheiro e, utilizando sua própria análise, tendo custos de oportunidade, alguns acordam e dizem:”Opa! Aquele local que não olho por ele há 30 anos, que tal me manifestar contra esses caras que estão gerando emprego, tributos e um bairro inteiro num local que antes só servia para o consumo de drogas?”

    Sinceramente, a sociedade civil deve sim medir o custo de oportunidade que acaba de perder com Estelita, mas ( como você deve saber) dinheiro tem valor no tempo e este é um custo que a sociedade precisa engolir seco e lutar por outros tantos lugares que ainda temos e que precisam de projetos. Agora, após 30 anos que negligenciamos Estelita, ela só servirá como exemplo de custo de oportunidade perdido.

    Publicado por Leonardo Estevam | 23 23UTC maio 23UTC 2014, 13:13
    • O ponto principal é que não foi dada à sociedade a oportunidade dessa discussão no tempo que você julga adequado. Inclusive houve pouca publicidade e transparência no processo, de modo que a própria manifestação antes seria praticamente impossível. Mas, como o processo está prenhe de ilegalidades, sempre é possível reverter o processo e reiniciar a discussão.

      Publicado por Leonardo Cisneiros | 27 27UTC maio 27UTC 2014, 11:44
  4. Boa tarde hoje temos um projeto de parque urbano instalado e consolidado no coração de nossa região e que está entregue as baratas e totalmente subutilizado. O Parque Memorial Arcoverde. Quais são os planos imediatos de atuação dos #direitosurbanos para ocupar e melhor utilizar o espaço que hoje tem apenas o espaço ciência como diferencial e sequer foi mencionado como alternativa de espaço para o FIFA Fun Fest? Não que seja bom ou ruim esta última colocação mas apenas a constatação do total esquecimento das autoridades e da população sobre o espaço.

    Publicado por Alexandre Lacerda | 23 23UTC maio 23UTC 2014, 14:21
    • Os Direitos Urbanos não é um órgão a quem devemos cobrar que alguma ação seja feita em um local abandonado da cidade. O órgão que você deve procurar é a prefeitura. Direitos Urbanos é um grupo de pessoas que faz isso. Se você tem alguma reclamação, mexa-se, igual as pessoas do Direitos Urbanos fazem.

      Publicado por Rodolfo | 29 29UTC maio 29UTC 2014, 13:16

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