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Centro do Recife: quando a cidade é a sua casa

Janela de um quarto gentrificado no Ed. Pernambuco.

Janela de um quarto gentrificado no Ed. Pernambuco.

O Centro do Recife é um bom exemplo dos riscos da confusão entre os termos “revitalização” e “gentrificação”, este último referente a um tipo de processo que tende a transformar áreas subutilizadas com um discurso de valorização que somente disfarça um desprezo pela ocupação tradicional dessas áreas. Apesar de hoje em dia o Centro do Recife estar claramente sub-utilizado em todo seu potencial urbano, não é uma área “sem vida”, como sugere o primeiro termo, colaborando com a confusão. Por outro lado, é também um grande problema em aberto o de como atrair novos usos para o centro, incentivar a moradia nele, atraindo também a classe média, sem, com isso, inflacionar demais a área e expulsar moradores e usuários tradicionais. Ficam as questões: todos processos de reocupação de uma área são gentrificação? As gentrificações são todas iguais? Um pouco de gentrificação não é inevitável e desejável? Como diminuir seus estragos? Esse debate é complexo e deveria permear toda a discussão sobre as políticas para melhoras no centro da cidade, mas ainda caminha em fase muito preliminar. O blog Foco da Folha de Pernambuco publicou ontem, 15.12.12, o texto “Inflação no Pernambuco: sinal de gentrificação?” que desatentamente aproxima o potencial de transformação do espaço contido na reocupação de prédios como o Edifício Pernambuco, recentemente ocupado por diversos artistas, e o o Projeto Novo Recife, levando em conta somente a valorização do metro quadrado na área central. Pode ser verdade: “arte é chamariz, e […] o bairro de Santo Antônio (que abriga também o grupo Ser Educacional, em vias de expansão pelos edifícios Santo Albino – colado ao Pernambuco -, Trianon, Art Palácio e cinco pavimentos do JK), pelo visto, está passando por gentrificação  – processo de valorização imobiliária de uma área pouco atrativa para as classes mais abastadas, com a consequente expulsão dos ocupantes antigos, que não têm condições de acompanhar a escalada dos preços”. Uma verdade, porém, que diz muito pouco. Um fênomeno urbano como o da gentrificação não é nunca uma explicação de si mesmo. Há sempre a necessidade de um entendimento mais completo do fênomeno que o antecede, que o perfaz durante seu engendramento (a desculpar o trocadilho), que o contextualiza e dá contorno às especificidades de seus efeitos.

A resposta no Grupo Direitos Urbanos | Recife, vem através do depoimento de Cristina Gouvêa, citada na matéria: o de uma moradora do Centro que escolheu vivenciá-lo e transformar-se com ele e serve para marcar com muita precisão o problema dos vários discursos de revitalização embutidos na apresentação de projetos como o Novo Recife.

O Debate sobre o texto no grupo Direitos Urbanos no Facebook

Leonardo Cisneiros: “Cristina Gouvêa Guarani-Kaiowá citada como agente inflacionária gentrificadora!! Hahaha só não sei se curto misturar formas de gentrificação. A promovida pela ocupação pela “classe criativa” é um modelo clássico do que aconteceu em NY, tem até estudo sociológico sobre isso. E é importante frisar que esse pessoal vai pra lá justo porque é barato, não há exatamente um conflito de classes. Quando Glaeser, do Triumph of the City, tenta defender verticalização dizendo que Paris hoje em dia está cara demais para os artistas que antigamente ocupavam os sótãos está colocando os artistas mais do lado de vítimas da inflação imobiliária do que no de agentes. Agora, eu me preocupo mais com uma forma de gentrificação à paulistana que envolve uma mudança cultural, do padrão de ocupação, e envolve a tomada do lugar pelas cafonices de nossa elite. E também não tenho resposta sobre se um pouco de gentrificação não é inevitável e mesmo desejável, em que termos e em que extensão. O Centro estava muito sub utilizado, não tem como não ter inflação. E acharia massa até que um ou outro prédio desses sofresse retrofit para abrigar residência“.

Cristina Gouvea:

vou comentar no próprio blog depois com calma, por enquanto conto um pouco do que é morar aqui e peço que quem se dispuser a ler, o faça tentando imaginar um paralelo com os moradores das torres gêmeas, isso pra ilustrar em recife a diferença entre essas duas situações que leo precisamente distingue acima:

é sim um vão enorme, um por andar, de forma que a ocupação sempre acaba levando a partilha do espaço, grupos dividem a casa e o local de trabalho, cada um a sua maneira; o prédio não tem garagem, a maior parte dos moradores anda de bicicleta (a pé e também de carro); a feira vem ora do supermercado maior, ora dos mercados, ora da vendinha; a gente reclama do som do grandão lá embaixo na hora de dormir, mas também pode descer lá pra tomar uma cerveja em dias de dormir mais tarde; a padaria é a da esquina; o prédio é um entra e sai, tanto nos andares, quanto nos cursos de costura, cabeleireiro e mecânica que ocupam o mezanino e primeiro andar, quanto nas lojas no térreo, direto na calçada; o centro tem serviços incríveis, que alguns já conheciam e outros vão descobrindo; dá pra comer bem baratinho na esquina no dia a dia e escolher pagar mais caro aqui e ali, também pertinho, nos dias da exceção; dá pra acompanhar o fluxo da cidade, a diferença entre a segunda, a sexta e o domingo, a eletricidade das noites de lua cheia; dá pra acompanhar a programação do cinema são luiz e correr pra varanda a ver passar a marcha dos terreiros; sentir cheiro de galeto nos bares do beco do sebo e resolver assim o almoço; circular livros e discos usados; etc.

digo por mim, sabendo que não é um sentimento só meu: quem está no edifício pernambuco foi pra lá muito por causa do centro e não apesar do centro e isso faz toda a diferença. (Clique no link e tenha uma visão do google como se estivesse no Ed. Pernambuco).

claro que na dinâmica imobiliária a presença de artistas e mesmo de uma forma alternativa de uso da cidade pode ser usada para inflacionar o valor de certas áreas, claro que isso pode aumentar a pressão sobre quem precisa ocupar as brechas da cidade. acontece que em casos como o do edifício pernambuco o corte de classe não é tão claro e nem tão abrupto. empreendimentos como o novo recife e as torres gêmeas prometem transformar trechos da cidade em algo palatável para os grupos mais abastados, para só então vender para eles a idéia de estar na cidade. em situações como as do edifício pernambuco, estar na cidade, descobrir o que ela tem de bom, ajudar a transformar os problemas, fazem parte da proposta.”

 

Contrastes, com trastes

Quais são em última instância os efeitos a longo prazo de cada tipo de mudança que o texto do blog uniformiza como gentrificação? Que instrumentos temos para medir e qualificar a ideia de revitalização por trás das dinâmicas de ocupação e uso do solo que operam as diferentes transformações em um caso e no outro? A gentrificação via tábula rasa e higienização tem sido condição essencial para o modelo real e concreto de ocupação e uso que as empreiteiras tem para oferecer para a cidade no intuito da revitalização do centro, canto da sereia utilizado para a implantação das chamadas Torres Gêmeas, por exemplo. É esse o centro da cidade que queremos? Em contraposição a esse modelo, a ocupação do Ed. Pernambuco, revela no cotidiano dos artistas, relatado no depoimento de Cristina, uma outra forma de interagir com a cidade, de perceber e de transformar o mesmo centro, de forma mais disponível para ele. Mesmo que os resultados econômicos possam ser assemelhados – tendo como limite a expulsão dos moradores antigos por conta da inflação produzida, por exemplo – a escala é outra e a dinâmica que impulsiona e estrutura o uso e a ocupação dos espaços opera de forma distinta nos dois casos, gerando, para além da semelhança formal, dois tipos de reocupação do centro diametralmente opostos.

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