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O projeto Novo Recife: a urbanização da província

Texto de Érico Andrade

Doutor em Filosofia pela Sorbonne

Professor Filosofia / UFPE                              

ericoandrade@hotmail.com

 

A oposição entre a província e a cidade é um modo recorrente de classificar duas formas de vida de acordo com as suas respectivas disposições para a abertura a outras culturas. A circulação de pessoas na cidade força o convívio entre diferentes visões de mundo e fomenta dentro do espaço público a ideia de um cosmopolitismo ou como a origem grega da palavra sugere: uma harmonia entre as diferentes visões. Por outro lado, a província é apresentada como uma fronteira que delimita uma cultura uniforme e enclausurada nas suas próprias convicções. Essa oposição entre a província (termo cuja origem guarda uma relação com aqueles que venceram, isto é, ele denota a ideia de uma terra de vencedores ou de um só povo) e a cidade (urbes cuja origem se remete a tratos de convivência) pode ser uma caricatura, não há dúvidas. Contudo, a imagem dessa oposição, ainda que possa ser embotada pelos traços grosseiros de uma caricatura, revela duas formas de se relacionar com os outros. Pode-se estar mais aberto ao convívio, que em geral acarreta mudanças, ou menos aberto, o que em geral torna a vida cultural de um lugar linear. Nesse sentido, é que se pode compreender a prática de associar a província ao tradicional (àquilo que é pouco afeito à mudança), ao passo que a cidade é associada à mobilidade, ao trânsito de ideias que é consequência do trânsito de diversas pessoas que não têm necessariamente um plano cultural em comum. Em resumo: a cidade está associada tanto à novidade quanto à convivência entre culturas diferentes.

A novidade é uma condição própria da cidade, pois nela a circulação de ideias força uma contínua discussão sobre o espaço público. A democracia, como diria Vernant: é filha da cidade (polis grega) porque nela diferentes pessoas com certa equidade econômica são obrigadas a discutir o bem comum. Nesse sentido, a novidade ronda as cidades como uma possibilidade latente de mudanças estruturais – decidida em assembleia – na esfera pública.

O projeto Novo Recife carrega na sua própria forma de identificação a ideia do novo, ou seja, da ruptura com o passado e com as tradições que supostamente dificultavam o desenvolvimento da ideia de cidade. Nesse sentido, alguns afirmam que se opor ao referido projeto é se opor à marcha inexorável do progresso. É ser provinciano. Mas, o que há de novo no projeto Novo Recife?

Quando não realiza estudos sobre o impacto de vizinhança e ambiental nas obras da cidade, como no presente caso, a prefeitura do Recife legitima a construção de loteamentos que reproduzem – privadamente – a ideia de que as ruas são passagens para o trânsito de carros, de que os prédios devem ser fortalezas que evitam o convívio social, de que as vias públicas deveriam ser substituídas por passarelas que ligassem as suas fortalezas ao Shopping Center. Essa prática não é uma novidade, mas se apresenta como a tradição de uma cidade que percebe o futuro apenas como a repetição mais capitalizada do presente e mantém, por conseguinte, as diferenças sociais e econômicas entre as micro regiões do Recife, como mostra o Observatório do Recife.

Nessa perspectiva, as fronteiras da cidade são desenhadas pelo planejamento privado que fabrica construções sem nenhuma relação com os demais patrimônios da cidade. O seu interesse é criar grandes condomínios ou loteamentos que dissolvem a noção de cidade quando isola os diferentes segmentos da sociedade por muros só transpassados na forma da relação entre empregados e patrões. Por isso, o projeto o Novo Recife reedita o provincianismo de subordinar o desenvolvimento à segregação urbana e o progresso à degradação da dimensão pública do espaço urbano.

Se existe alguma novidade no referido projeto, é a reconfiguração do coronelismo. Agora, não confundimos mais a autoridade da lei com a autoridade da pessoa (coronel). Nós simplesmente negligenciamos a lei e os estudos de impacto prescritos por ela para favorecer a pessoa. Essa perversão da política definha a cidade na mesma proporção que fortalece as fronteiras das mesmas províncias.

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