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Recife, patrimônio, progresso e retrocesso: pontes, avenidas e túneis.

por Rodrigo Cantarelli, Março de 2013

 

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Benício Dias, 1943

Aspecto do Bairro da Boa Vista com a construção da Ponte Duarte Coelho. Da esquerda para a direita vemos a Igreja dos Ingleses, a Rua Conde da Boa Vista, antiga Rua Formosa, e o edifício sede do jornal A Tribuna.

Arquivo da Superintendência do IPHAN em Pernambuco.

 

O processo urbanização das cidades brasileiras, iniciado ainda no século XIX, foi o responsável por uma reconfiguração espacial de diversos núcleos urbanos, sendo que em muitos deles estavam registradas importantes informações a respeito da memória de ocupação de cada um desses lugares. Essas mudanças iam se sobrepondo ao conjunto existente, formando um grande retalho de tempos na paisagem da cidade. Com o crescimento das cidades, também aumentaram os fluxos e os deslocamentos dentro do espaço urbano, demandando novas conexões, sempre usadas pelos gestores públicos como um sinônimo de progresso e modernização.

Num tempo ainda de consolidação das ações preservacionistas, convém lembrar o caso do edifício A Tribuna, onde funcionou a sede do jornal de mesmo nome. A história do prédio em si começa ainda no século XIX, quando, em 1840, o trecho da Rua da Aurora compreendido entre a Rua Formosa, hoje Conde da Boa Vista e a Rua do Riachuelo foi aterrado. Os primeiros edifícios daquela parte da rua foram construídos por Francisco Antônio de Oliveira, o Barão do Beberibe, e a primeira delas, a casa da esquina, se tornou a sede do jornal que batizou a construção.

O jornal A Tribuna, que começou a circular pelo Recife em agosto de 1906, se transferiu para o edifício em 1909, e, ao longo dos anos, diversos intelectuais de destaque no Recife integraram a sua redação, como Barreto Campelo, Luiz Delgado, Mauro Mota e Luiz Cedro. Cedro, que fazia parte do grupo dos Regionalistas liderados por Gilberto Freyre, quando deputado federal, propôs organizar a proteção do Patrimônio Nacional através da criação da Inspetoria dos Monumentos Históricos dos Estados Unidos do Brasil, a primeira iniciativa legislativa do tipo em todo o país, apresentada ao Congresso Nacional em 1923.

O A Tribuna funcionou na Rua da Aurora até 12 de junho de 1943, quando uma circunstância muito especial impôs a suspensão das suas atividades: a demolição do edifício. O progresso e a modernização do Recife, que já haviam atingido os bairros do Recife e de Santo Antônio, agora se voltaram para o da Boa Vista. As pontes da Boa Vista, Princesa Isabel e Nova não eram mais suficientes para conectar o bairro aos de Santo Antônio e São José, surgiu mais uma ponte no centro do Recife. Partindo do eixo da Rua Conde da Boa Vista e terminando na Rua do Sol, as obras da Ponte Duarte Coelho tiveram início em 1942 e fizeram parte um projeto ainda maior: a construção da Avenida Guararapes no bairro de Santo Antônio. Para isso, foi necessário o alargamento da Conde da Boa Vista, sacrificando diversos edifícios da via, incluindo os dois que se localizavam nas esquinas com a Rua da Aurora: a Igreja dos Ingleses e o edifício A Tribuna.

Naquele momento, as ideias preservacionistas começavam a se consolidar e a demolição foi questionada. Tentou-se, de algum modo, preservar a construção. No entanto, era um período no qual as iniciativas de preservação do patrimônio estavam sob a tutela do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o atual IPHAN. Ayrton Carvalho, chefe do primeiro distrito, que tinha sede no Recife, foi consultado a respeito de um valor nacional na edificação, o que poderia salvá-la do desaparecimento. Ayrton não viu ali valores que justificassem aquela construção ser merecedora do título de Monumento Nacional e decidiu por não tombá-lo. A arquitetura civil, ainda pouco valorizada pelo Serviço, era menos ainda na regional pernambucana, e este, foi mais um exemplar posto abaixo.

Benício Dias, 1943

Fase final da demolição do edifício sede do jornal A Tribuna.

Arquivo da Superintendência do IPHAN em Pernambuco.

 

Esse progresso e modernização da cidade, ao longo do século XX, ainda causaram prejuízos a diversos outros bens patrimoniais da cidade, como o Cemitério dos Ingleses, o Sítio da Cruz e o conjunto arquitetônico do bairro de São José. Em sua maioria, causados por atitudes impetradas pelos gestores da cidade, que não viam sentido em preservar parcelas representativas da história do Recife presentes no espaço urbano. Visão que, ao longo do século XX foi mudando à medida que as noções de preservação foram evoluindo.

No Recife, essa mudança começou em 1979, com a Lei 13.957, que criou trinta e uma Zonas Especiais de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural, englobando diversas manifestações arquitetônicas na cidade, desde o período colonial até o início do século XX. Cada uma dessas Zonas é formada por Setores de Preservação Rigorosa, o SPR, e Setores de Preservação Ambiental, o SPA. Os SPRs sintetizam naquele conjunto específico selecionado os valores patrimoniais de cada parcela específica da cidade que se quis preservar, enquanto os SPAs seriam os responsáveis pela preservação da ambiência desses sítios históricos, resguardado um trecho da cidade que funcione como uma transição saudável entre o que se renovou e o que se preservou.

Umas das mais recentes ameaças ao patrimônio construído do Recife, feitas sob os mesmos argumentos do progresso e da modernização, recai exatamente sobre uma dessas ZEPHs, a de número 27, chamada Sobrado da Madalena. O edifício, que dá nome ao bairro onde está localizado, faz parte de um variado conjunto arquitetônico composto ainda por outras edificações construídas ao longo dos séculos XIX e XX que servem de suporte aos valores identificados no sítio histórico, no entanto, sendo o próprio Sobrado o que mais se destaca. No livro Pernambuco Preservado, o historiador Leonardo Dantas da Silva escreveu sobre a construção:

 

Pela denominação popular de Sobrado Grande é conhecida a versão reformada da primitiva casa-grande do Engenho Madalena. Fundado no final do século XVI, (…) A sua última casa-grande, em azulejos portugueses, conhecida popularmente como o Sobrado Grande da Madalena, já existia em 1831 (…).

 

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Mapa da ZEPH-27, Sobrado da Madalena, com a marcação em cinza do setor de preservação rigorosa e a marcação em amarelo dos imóveis demolidos para a obra do Túnel da Abolição.

Inscrito como Monumento Nacional desde 27 de novembro de 1966, o edifício foi restaurado nos anos 1970 para ser a sede regional do IPHAN, e hoje abriga o Museu da Abolição, museu que dá nome ao túnel que o Governo do Estado de Pernambuco pretende construir na vizinhança imediata do sobrado. Túnel este, parte do chamado Corredor Leste-Oeste, assim chamado o conjunto de intervenções urbanas localizadas no eixo viário entre a cidade de Camaragibe e o centro do Recife.

Em um parecer datado de 11 de março de 2013, o técnico do IPHAN responsável pela análise da proposta recusou o projeto apresentado pela Secretaria de Cidades do Governo do Estado, pois este não se mostra claro no detalhamento das intervenções que serão realizadas, sendo assim impossível julgar se haverá prejuízo ou não a integridade do bem. Cabe destacar que o julgamento do IPHAN se deteve apenas ao Sobrado da Madalena, uma vez que para o órgão, aquele é o objeto de preservação no sítio histórico. No entanto, levando-se em consideração o patrimônio construído da cidade do Recife, o prejuízo causado pelo túnel é certo.

À parte da não aprovação do projeto pelo IPHAN, no dia 20 de março as obras tiveram início e três imóveis que fizeram parte do Setor de Preservação Rigorosa da ZEPH-27 foram demolidos. Conforme determinado pela própria legislação municipal, nos parâmetros de intervenção nessa zona, a demolição de qualquer edifício no SPR da ZEPH-27 só poderia acontecer após um parecer da Comissão de Controle Urbanístico, CCU. A mesma legislação que diz que também não pode haver modificações no parcelamento do solo, inclusive remembramento ou desmembramento. Imagine então varrer este  parcelamento e transformá-lo numa via?

Neste caso específico o progresso que se pensou para a cidade não apenas se sobrepôs, mais uma vez, à salvaguarda da sua memória urbana, como aconteceu com o Edifício A Tribuna, ele voltou uma etapa que, aparentemente, estava consolidada, visto que há 34 anos aquele trecho do bairro da Madalena estava protegido legalmente da destruição. Esse progresso é, na realidade, um retrocesso.

 

Pequena contribuição a uma sociologia mequetrefe do Recife contemporâneo: Sobre playboys de “facu“, o desenvolvimento do fascismo e o fascismo do desenvolvimento.

É bastante interessante a crítica que se dirige hoje, no Recife, justamente, àqueles que são os únicos que cobram planejamento urbano, questionam a destruição do patrimônio, exigem a melhoria dos espaços públicos e se colocam disponíveis para uma discussão aberta e pública acerca do futuro da cidade. Eles se tornaram os playboys intelectualóides antidesenvolvimentistas.

É triste, mas realmente interessante. A crítica pode ser entendida, certamente, como parte de um certo orgulho anti-intelectual muito em moda nos círculos neocons, herança da não saudosa Era George W. Bush. Com os militantes de partidos neofascistas europeus, ou do tea party norte-americano, esse tipo de crítica parece ter em comum certo desprezo à troca sadia de argumentos e o uso repetitivo de uma ou duas palavras para ignorar qualquer discurso contrário ao conjunto monolítico de dogmas em que baseia sua ação política.

O orgulhoso anti-inlectual se vê, assim, como portador legítimo do (e legitimado pelo) senso comum, convicto de que suas opiniões óbvias, por serem compartilhadas por muitos iguais a ele, não podem ser questionadas assim tão facilmente, sobretudo com argumentos de quem, por alguma razão (talvez porque foram para a “facu”?), vê-se legitimado a refletir e criticar aquilo que, para o senso comum orgulhoso, são verdades óbvias. Afinal de contas “homossexualidade é doença”, “pobre é vagabundo”, ou, no caso de alguns orgulhosos de certas cidades sudestinas, “todo nordestino é burro”.

O orgulhoso anti-intelectual se sente extremamente irritado ao ver que o seu senso óbvio comum com outros seus colegas, aquilo sobre o que nunca refletiu, mas que lhe foi de certa forma ensinado na socialização mais primária, pode ser questionado, criticado, refletido.

Para mim, é disso que se trata, quando jornalistas usam palavras de péssimo gosto para criticar o primeiro movimento social espontâneo, na história do Recife, que tem como pauta o tema – também – mais óbvio do mundo contemporâneo: a vida comum na cidade, que todos são obrigados a compartilhar, mesmo contra sua vontade. Embora esse tipo de neofascismo seja um fenômeno mundial, acho que vale a pena refletir um pouco sobre a forma como ele se manifesta entre nós.

Sobre a psicologia do totalitarismo

De fato existe uma certa surpresa assustadora ao se verem questionadas posições que se pensava inquestionáveis. Ao serem colocados em xeque alguns lugares comuns com que contamos para seguir em frente todos os dias ao sairmos da cama, somos colocados numa posição bastante delicada. Não somos capazes de desprezá-los imediatamente, substituindo-os por outros lugares comuns quaisquer.

Algumas pessoas, diante de um desafio a suas convicções até então não problematizadas, passam a cercar essas idéias bem conhecidas suas e que as deixam confortáveis consigo mesmas com olhares curiosos e questionadores. Num primeiro momento, dão-se conta mesmo de que elas estão ali, pois até então isso não era preciso; elas eram simples e intuitivamente utilizadas para julgar o mundo ao redor, para interpretar um argumento ou desprezar um outro.

Em alguns casos, confrontados com a crítica diuturna, com a resistência de um argumento alternativo contundente, essas pessoas podem começar, aos poucos, a problematizá-las. Alguns começam então a refletir sobre o papel que esses lugares comuns tem em suas vidas. E, gradativamente, podem substituí-los por outras ideias e opiniões, que vão passar a ser, por sua vez, um pouco óbvias, até que venham novamente a ser colocadas em xeque.

Em alguns indivíduos, a surpresa e a ansiedade gerada pelo questionamento de lugares comuns são ainda mais cruéis e arrebatadoras. Diante de uma crônica dificuldade em refletir um pouco sobre suas próprias opiniões, e muitas vezes por medo de ser incapaz de colocar alguma outra coisa no lugar, caso as percam, alguns se vêem impelidos à militância intolerante, que despreza críticas alheias com um vigor fundamentalista destrutivo e totalitário que muitas vezes toma formas agressivas. Essa poderia ser uma explicação psicológica (útil no nível individual, mas não no nível social) para fenômenos totalitários os mais diversos, desde os novos fundamentalismos religiosos (de cristãos, judeus e islâmicos), à xenofobia.

Nesse ponto, confesso que esse orgulho anti-intelectual e anti-crítica me parece interessante, contudo, não só em sua dimensão psicológica. Bem mais interessante, nesse movimento que podemos chamar, com atenção ao significado mais literal da palavra, “reacionário” a tudo aquilo que tem se organizado ao redor do grupo Direitos Urbanos, parece ser a forma como ele estrutura sua reação. Em especial, chama a atenção o uso frequente de uma semântica bem particular para praticar o que pode, sem dúvida, ser identificado como uma forma bem própria e contemporânea de “fascismo cultural”, que toma cada vez mais a forma de um totalitarismo político.

A mágia da modernização e o milagre do desenvolvimento: não são só palavras! “It’s politics, stupid.”

Se a Europa convive, hoje, com os problemas crescentes de certo facismo xenófobo; se alguns países do oriente médio viram, nos últimos 20 anos, o florescimento de certo chauvinismo islâmico; e se os EUA testemunharam a radicalização do fundamentalismo cristão extremamente intolerante, o Brasil parece padecer de um mal coletivo particular.

Entre nós, tem se manifestado uma nova forma de totalitarismo, político, cultural e econômico, que se apóia nas velhas estruturas coloniais de estratificação e diferenciação social, para reproduzir desigualdades e assimetrias de um modo novo.

Basta ouvir as críticas dirigidas a movimentos como o Direitos Urbanos, para se perceber os elementos que, tendo seus pontos comuns interligados teoricamente, revelam-nos as teias de uma poderosa ideologia fundamentalista, capaz de calar críticos, de impedir a reflexão e destruir qualquer tipo de alternativa política a um projeto que é defendido e difundido com traços totalitários. Uma ideologia que, como é característica de fascismos e totalitarismos é totalmente incapaz de refletir sobre os seus próprios pressupostos, e de ser responsiva ao mundo ao redor, tornando-se crítica acerca de suas possíveis conseqüências e preocupada com as repercussões de suas ações para as atuais e futuras gerações.

Refiro-me a algo que me chama especialmente a atenção no discurso de reação às reflexões que foram levantadas nos últimos dois anos no Recife. Trato do uso dado a palavras como “modernização” e “desenvolvimento”, tornadas capazes de justificar tudo e qualquer coisa, como instrumentos de mistificação do debate público, por meio dos quais o diálogo ou mesmo a discussão acalorada é substituída por ironias, grosserias e puras expressões de força, poder e do simbolismo do dinheiro.

As palavras modernização e desenvolvimento são expressões que, no sentido como as utilizamos hoje, tem, como é de se esperar, origem moderna. Elas se confundem, do ponto de vista semântico, com as mudanças estruturais mais relevantes que aconteceram no mundo graças ao fim de uma estrutura social baseada em hierarquias fixas em que toda a vida de um indivíduo era decidida no momento do seu nascimento, a depender da família de que proviesse.

Essas palavras indicam, exatamente, que, dado o fato de que não existem mais hierarquias rígidas e inquestionáveis, as sociedades, assim como os indivíduos, devem se abrir para o futuro. Eles devem se entender como agentes prontos a enfrentar os desafios colocados ao acaso em seu caminho mediante decisões que podem ser atribuídas a eles mesmos.

Em outras palavras, não é o local ou a família em que se nasce, que determinam toda a vida individual posterior. Nem é um caminho determinado por Deus, ou por alguma outra esfera de um mundo não terreno, que decide os caminhos que uma sociedade deve tomar.

Em lugar disso, são declarados, por um lado, direitos de liberdade individuais, determinados, claro socialmente, a partir dos quais todo indivíduo tem garantido um espaço em que pode decidir o que fazer com seu próprio corpo. E, por outro lado, surge uma política democrática em que decisões são tomadas em conjunto, a partir de uma construção livre e pluralista numa esfera pública em que todos, a priori, devem ser considerados iguais e capazes de defender seus posicionamentos.

De fato, a palavra modernização tem, a rigor, um significado muito vago, sociologicamente. Mas se há algo que ela quer significar é a consciência difundida de que o futuro de indivíduos (nós todos) e grupos (sociedades, coletividades, grupos identitários) depende apenas das decisões que estes tomarem. Como palavra vaga, ela se deixa sempre politizar no debate público, em que atores políticos diversos podem, com direitos iguais, disputar opiniões. Nesse sentido mais amplo, e politizável, o termo diz respeito, normalmente, àquilo que é novo. Àquilo a que cabe uma decisão ainda por ser tomada e que pode mudar o futuro. Os partidos podem usar essa palavra para se referir ao próprio programa e disputar assim a imaginação do público.

“Modernizar” passou, assim, a ser associada politicamente a algo bom, a uma idéia de progresso que quer dizer mudança para melhor. A um futuro em que a sociedade vai se tornar aquilo que deve ser, mas ainda não é; à novidade que traz benefícios. Entretanto, como é muito difícil determinar exatamente o que são esses benefícios, deixando claro para todos a medida que lhes caberá no “progresso” futuro, sem que isso venha a criar mais problemas e discussões, a palavra modernização parece responder de modo razoavelmente vago e impreciso essa difícil questão. Ela serve para evitar questionamentos, para criar um véu que deixa intocados possíveis pontos de discórdia. Ainda assim, numa sociedade democrática, nada deve impedir sua contínua repolitização, e, portanto, sua rediscussão e ressignificação. E isso faz com que, na política contemporânea ela seja exatamente um sinal dessa inderterminação: dessa proibição que apenas um projeto se imponha sem que posa ser criticado, a qualquer tempo, por alguém ou algum grupo que discorde.

Algo semelhante acontece com a palavra desenvolvimento. Aqui, trata-se mais precisamente da constatação de que nem todos os indivíduos ou grupos sociais tem as mesmas condições de tomar decisões sobre seu futuro. Alguns indivíduos, sobretudo os mais jovens, tem mais dificuldades que outros para decidir sobre algumas questões relevantes para a sua vida. A palavra desenvolvimento é usada, assim, na psicologia, para descrever uma problemática cadeia de fases em que um indivíduo alcança capacidades maiores de decidir por si só, o que fazer de sua própria vida.

No caso de sociedades, ou regiões do mundo, esse problema se revela bem mais complicado. Embora desde os princípios da modernização todos os continentes tenham estado extremamente interconectados, houve diversas assimetrias entre eles no acesso aos produtos da modernidade.

Há, assim, claras diferenças de acesso aos bens da economia, da ciência, ao direito e ao poder mundiais entre os diversos Estados e continentes do mundo. Mas custa acreditar que, num planeta em que existem 193 Estados associados à ONU, e no qual todos eles, sem exceção, assinaram a Declaração dos direitos do homem de 1948, dispondo igualmente de uma constituição jurídica em vigor, exista alguma sociedade exatamente “pré-moderna”.

Em todos os países do mundo existem universidades, polícia, hospitais, escolas, corpo de bombeiros, empresas, e repartições públicas. Por certo, existem diferenças entre um hospital em Mogadishu e um hospital em Copenhagen. Mas essas diferenças não tem a ver com a modernidade e pré-modernidade de Dinamarca e Somália, senão com a ausência de recursos em um determinado lugar e com as diferentes formas de integração dos indivíduos nesses diferentes locais nas estruturas da ciência, da medicina e da economia mundiais.

De fato, nada mais moderno, desde o seu princípio, do que o Brasil: um país que foi criado, na América, como um espaço de produção de bens econômicos sob um regime de trabalho escravo trazido da África, voltado para o mercado europeu. Sem a modernidade, o capitalismo, a economia monetária e a livre circulação de mercadorias no mundo, o Brasil nunca teria existido. E ele foi, desde o seu princípio, não só moderno, como também resultado de uma dinâmica mundial.

Ainda assim, alguns insistem em usar a palavra modernização para explicar aquilo que devemos fazer para nos tornar mais parecidos com os primos ricos, europeus e norte-americanos, os quais, do ponto de vista estritamente sociológico, não são nem mais, nem menos modernos que nós, senão apenas mais ricos e com mais acesso a certos bens.

Desenvolvimento torna-se então, sobretudo no século XX, uma receita, um programa de ação. Tanto comunistas, como liberais, propõem-se a cumprir um certo conjunto de etapas, para atingir a maturidade como sociedade, assim como os adolescentes se tornam adultos e passam a poder decidir por si próprios. O Brasil, o Paraguai, o Vietnam e Cuba devem se desenvolver para se tornar a Europa ou os Estados Unidos, como se houvesse um caminho que todos devessem seguir para, no final, tornarem-se todos iguais.

Desse modo, ignora-se, mais uma vez, que não existem sociedades propriamente pré-modernas, mas sim sociedades mais pobres e sociedades mais ricas, algumas que tem acesso à tecnologia, ao poder mundial, à economia e suas formas de produção e outras que não tem. Em lugar de politizar a palavra desenvolvimento como algo que está aberto a um futuro desconhecido, a ser construído a partir de decisões políticas – também mundiais – tomadas no presente, compreende-se o futuro como um projeto pronto e acabado: que não está em aberto, por ser construído e, portanto, não deve ser objeto de politização livre e democrática, senão deve ser a realização do caminho já dado, talvez, por alguma outra sociedade, raça superior, ou plano científico (ou divino).

A consequencia desse tipo de compreensão é especialmente trágica em alguns contextos particulares da sociedade mundial. Em regiões mais pobres do mundo, ao invés de se perceber que muito mais importante é incluir populações excluídas, fazendo-as parte da economia, da política, do direito e da ciência (da modernidade, enfim), e portanto donas de seu futuro, parte-se do pressuposto de que, no fundo, a democracia ou a modernidade, aí, ainda estão por fazer. É exatamente nesse contexto que creio podermos falar de um “fascismo do desenvolvimento”.

 

“Do totalitarismo dos altos coqueiros”

Em algumas realidades sociais, portanto, palavras como “modernização” e “desenvolvimento” ganham um significado bastante particular. Em lugar de servir como pontos de estímulo ao debate e embate públicos, ocasiões em que a sociedade se mobiliza para discutir o que quer fazer do seu futuro, elas podem servir para evitar qualquer tipo de crítica e reflexão coletivas. Desse modo, ao invés de serem politizadoras, elas são despolitizantes, servindo para justificar a ação desmedida e unilateral de alguns grupos ou indivíduos particularmente poderosos ou ricos.

Num contexto como o do Nordeste brasileiro, em que a exclusão social é extrema e difundida e a participação de amplos setores da população nos benefícios da chamada modernidade (na economia, ciência, educação, política e mesmo direito) é bastante limitado, surge uma oportunidade única para o exercício de um tipo bem particular de totalitarismo político e cultural.

Aí pode prosperar em terra livre um totalitarismo capaz de usar palavras modernas para reproduzir exatamente a lógica das assimetrias e hierarquias pré-modernas, calando a crítica, impedindo a reflexão, evitando a mobilização social e tratando qualquer tipo de resistência com desrespeito.

Em contextos como esse, é comum que algumas elites políticas e econômicas reivindiquem para si o papel de grandes modernizadoras-redentoras, aquelas que detém a fórmula final para a superação da condição de “subdesenvolvimento”, que vai finalmente transformar toda a realidade num passe de mágica. Elas se vêem assim como as portadoras das soluções divinas de realização fatal do futuro.

“Modernizar” se torna, então, uma paradoxal tarefa histórica pré-moderna a ser realizada. Não se trata de uma decisão diuturna, a ser construída coletivamente, por afetar coletivamente a vida de indivíduos que não tem outra alternativa ao ser levar uma vida em muitos pontos comum. Em lugar de atribuir essas decisões à sociedade ela mesma, “o modernizador” ou a “elite modernizadora” se vêem como substitutos, como pais, padrinhos, cuidadores, redentores, como aquele ou aquela de que todos precisam para, finalmente, se “desenvolver”.

São claras as semelhanças dessa narrativa com as várias e conhecidas formas de totalitarismo moderno. Ao longo dos últimos 2 séculos, totalitarismos diversos conseguiram difundir a idéia de que seria possível reduzir todo o futuro a poucas regras conhecidas por alguns poucos iluminados. Alguns, por exemplo, acreditaram piamente que a história era uma ciência redutível a certas regras imanentes, em que uma classe sucederia a outra. Outros acreditaram na superioridade nacional de uma raça, de um povo, de uma cultura, e se deixaram levar pela semântica da expressão de superioridade de uma língua ou uma cultura particular. Curiosamente, os mais diversos tipos de totalitarismo usavam a expressão desenvolvimento e modernização, exatamente, para expressar sua noção particular de progresso.

No caso do Recife contemporâneo, creio se manifestar, agora mesmo, um caso bem especial de totalitarismo, que parece ter tomado conta do imaginário político e cultural local. Ele passou a justificar as decisões mais absurdas, tomadas por pouquíssimos empresários e políticos, sob o argumento de que tais decisões são uma expressão de certa vocação inevitável e fatal para o desenvolvimento e para a modernização.

Modernizar tornou-se a palavra mágica que justifica um pouco mais do mesmo. A exclusão de setores importantes das decisões se dá sem nenhum tipo de cuidado ou vergonha. Tomam-se decisões unilaterais, sem ouvir possíveis implicados. Ignora-se o respeito a regras jurídicas sem as quais nenhuma democracia funciona. Tudo em nome da redenção desenvolvimentista.

Faz-se pilhéria generalizada da crítica esclarecida daqueles que estudam um tema com profundidade, como por exemplo o planejamento urbano. Eles não são bem vindos ao debate público; em seu lugar são preferíveis os jornalistas cujos patrões são parte da elite modernizadora ou mesmo os iluminados gestores modernizantes e seus amigos financiadores empresários, os motores do desenvolvimento.

A sociedade ela mesma não pode se organizar espontaneamente e debater crítica e reflexivamente decisões tomadas de modo juridicamente questionável. Pois aqueles que se dispõem a criticar e refletir, publicamente, são logo pilheriados como agentes do passado, como oposição política boba e atrasada, como obstáculo à modernização e ao desenvolvimento.

Se a crítica reprimida incomoda. E se o debate coletivo repelido e visto como expressão anti-modernizadora de “playboys de facu” parece ser um sinal claro de decadência cultural e perda de vitalidade da sociedade civil e de sua capacidade criativa. Algo muito pior se revela, quando o fascismo do desenvolvimento expressa seu caráter autoritário em um poder de exceção.

Nada é pior para a sociedade moderna, e para a modernidade ela mesma, do que o momento no qual alguém ou um grupo de pessoas se vê no direito de, em nome de uma idéia, substituir explicitamente os procedimentos públicos, juridificados e estabelecidos formalmente com suposta igualdade de acesso para todos, e em seu lugar coloca seu próprio poder de decisão, legitimado no mais das vezes por algum dogma metafísico como, no nosso caso, a idéia de “desenvolvimento” ou “modernização”.

Quando um ou outro usa frases de pilhéria para tratar um movimento espontâneo da sociedade civil, que procura refletir sobre aqueles problemas que lhe dizem respeito, isso pode sempre ser visto como o resultado de alguma idiossincrasia psicológica individual. Sem dúvida a personalidade autoritária é um fenômeno social. No entanto, ela tem suas raízes mais concretas, normalmente, na socialização familiar, acerca da qual não se pode fazer muito depois de uma certa idade.

Tudo é diferente, quando toda a sociedade é substituída, em seus mecanismos de decisão, pelo uso e abuso do poder de poucos. Quando toda uma cidade é ameaçada pela manipulação de processos judiciais, pela utilização instrumental e casuística de instituições independentes como o Ministério Público. Quando uma ideologia qualquer é utilizada para impedir o debate público crítico e reflexivo. Quando jornais ignoram solenemente uma discussão tão importante quanto a que é travada agora mesmo em Recife. Quando tudo isso se torna uma forma particular de se apossar do futuro de uma cidade e de uma região inteiras, estamos, sim, diante de uma forma particular e própria de totalitarismo: talvez um “totalitarismo dos altos coqueiros.

Pablo Holmes (Doutor em sociologia pela Universidade de Flensburg/Alemanha; Professor de Teoria Política da Universidade de Brasília/UnB)

O projeto Novo Recife: a urbanização da província

Texto de Érico Andrade

Doutor em Filosofia pela Sorbonne

Professor Filosofia / UFPE                              

ericoandrade@hotmail.com

 

A oposição entre a província e a cidade é um modo recorrente de classificar duas formas de vida de acordo com as suas respectivas disposições para a abertura a outras culturas. A circulação de pessoas na cidade força o convívio entre diferentes visões de mundo e fomenta dentro do espaço público a ideia de um cosmopolitismo ou como a origem grega da palavra sugere: uma harmonia entre as diferentes visões. Por outro lado, a província é apresentada como uma fronteira que delimita uma cultura uniforme e enclausurada nas suas próprias convicções. Essa oposição entre a província (termo cuja origem guarda uma relação com aqueles que venceram, isto é, ele denota a ideia de uma terra de vencedores ou de um só povo) e a cidade (urbes cuja origem se remete a tratos de convivência) pode ser uma caricatura, não há dúvidas. Contudo, a imagem dessa oposição, ainda que possa ser embotada pelos traços grosseiros de uma caricatura, revela duas formas de se relacionar com os outros. Pode-se estar mais aberto ao convívio, que em geral acarreta mudanças, ou menos aberto, o que em geral torna a vida cultural de um lugar linear. Nesse sentido, é que se pode compreender a prática de associar a província ao tradicional (àquilo que é pouco afeito à mudança), ao passo que a cidade é associada à mobilidade, ao trânsito de ideias que é consequência do trânsito de diversas pessoas que não têm necessariamente um plano cultural em comum. Em resumo: a cidade está associada tanto à novidade quanto à convivência entre culturas diferentes.

A novidade é uma condição própria da cidade, pois nela a circulação de ideias força uma contínua discussão sobre o espaço público. A democracia, como diria Vernant: é filha da cidade (polis grega) porque nela diferentes pessoas com certa equidade econômica são obrigadas a discutir o bem comum. Nesse sentido, a novidade ronda as cidades como uma possibilidade latente de mudanças estruturais – decidida em assembleia – na esfera pública.

O projeto Novo Recife carrega na sua própria forma de identificação a ideia do novo, ou seja, da ruptura com o passado e com as tradições que supostamente dificultavam o desenvolvimento da ideia de cidade. Nesse sentido, alguns afirmam que se opor ao referido projeto é se opor à marcha inexorável do progresso. É ser provinciano. Mas, o que há de novo no projeto Novo Recife?

Quando não realiza estudos sobre o impacto de vizinhança e ambiental nas obras da cidade, como no presente caso, a prefeitura do Recife legitima a construção de loteamentos que reproduzem – privadamente – a ideia de que as ruas são passagens para o trânsito de carros, de que os prédios devem ser fortalezas que evitam o convívio social, de que as vias públicas deveriam ser substituídas por passarelas que ligassem as suas fortalezas ao Shopping Center. Essa prática não é uma novidade, mas se apresenta como a tradição de uma cidade que percebe o futuro apenas como a repetição mais capitalizada do presente e mantém, por conseguinte, as diferenças sociais e econômicas entre as micro regiões do Recife, como mostra o Observatório do Recife.

Nessa perspectiva, as fronteiras da cidade são desenhadas pelo planejamento privado que fabrica construções sem nenhuma relação com os demais patrimônios da cidade. O seu interesse é criar grandes condomínios ou loteamentos que dissolvem a noção de cidade quando isola os diferentes segmentos da sociedade por muros só transpassados na forma da relação entre empregados e patrões. Por isso, o projeto o Novo Recife reedita o provincianismo de subordinar o desenvolvimento à segregação urbana e o progresso à degradação da dimensão pública do espaço urbano.

Se existe alguma novidade no referido projeto, é a reconfiguração do coronelismo. Agora, não confundimos mais a autoridade da lei com a autoridade da pessoa (coronel). Nós simplesmente negligenciamos a lei e os estudos de impacto prescritos por ela para favorecer a pessoa. Essa perversão da política definha a cidade na mesma proporção que fortalece as fronteiras das mesmas províncias.

Carta aberta ao povo do Recife em apoio e solidariedade às famílias da comunidade Vila Oliveira

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra. Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça. (Graciliano Ramos)

Carta aberta ao povo do Recife em apoio e solidariedade às famílias da comunidade Vila Oliveira

A epigrafe é um trecho de um capítulo do livro Infância, de Graciliano Ramos. Nela, o escritor adulto lembrava de um cinturão com o qual seu pai, por alguma razão e do seu lugar de autoridade absoluta da casa, bateu violentamente nele quando criança, acreditando que o menino havia escondido o maldito objeto. O pai, depois da surra, logo em seguida, encontrara a correia dentro da rede. Ele mesmo a havia perdido. Questão crucial: como tirar a dor do menino e as marcas da violência deixadas no corpo? Como falar de justiça, de ressarcimento, quando a autoridade máxima foi a responsável pelo ato assimétrico de aplicação da violência? O silêncio do pai, incapaz de autocrítica, era o sentido da sentença mórbida sentida no corpo a chicotadas.

Na noite do dia 6 para o dia 7 de novembro de 2012, vinte famílias da comunidade Vila Oliveira foram expulsas de suas casas. Assistiram em seguida a destruição das suas habitações, construídas com suor e trabalhos próprios há mais de 30 anos. O nome do cinturão: imissão de posse.O pai, sem rosto, é a autoridade invisível da justiça.

A área havia sido desapropriada em 1988, ano da Constituição Federal, pelo governo Arraes, que deu posse aos moradores. De 1993 a 2009 se arrasta o processo de contestação aberto pelos pretensos proprietários, com ganho de causa dos moradores em primeira instância. No entendimento do juiz, apesar de o terreno em questão tenha ficado de fora do alcance do decreto de desapropriação por ter sido previamente vendido pela Santa Casa, a boa fé dos moradores ao ocupar uma área fisicamente indistinguível do terreno desapropriado, seu uso familiar e o lapso temporal transcorrido entre a ocupação e a resistência dos proprietários, de pelo menos oito anos segundo a perícia ordenada pela Justiça, eram elementos suficientes para caracterizar um caso de usucapião especial urbano, previsto pela Constituição. Entretanto, o Tribunal de Justiça de Pernambuco, em 2011, reverteu a decisão do primeiro grau, com base em uma interpretação profundamente equivocada dos requisitos para o usucapião especial: o acórdão, relatado pelo desembargador Adalberto de Oliveira Melo, considerou que a área do terreno, de 1008m², excedia o limite de 250m² previsto para o usucapião urbano, fechando os olhos ao fato de que a posse desse terreno estava dividida por cerca de vinte famílias. O acórdão também fez questão de ressaltar o inciso XXII do artigo 5º da Constituição, o que garante do direito de propriedade, sem levar em conta que o inciso seguinte afirma: “a propriedade cumprirá sua função social”. Sem assistência jurídica adequada, as famílias perderam o prazo para recurso e a decisão transitou em julgado em agosto de 2011, sem que nem mesmo o Ministério Público se pronunciasse a favor do interesse social, do direito à moradia e à dignidade daquelas pessoas. Presente em todas as fases do processo, o MP limitou-se a endossar as pretensões dos proprietários. Por fim, o governo do estado, através da Perpart, sucessora das obrigações da Cohab, tentou anular o processo, alegando não ter sido chamado como parte, porém não conseguiu sustar a ação de despejo. O mérito da ação da Perpart continua em aberto, mas os efeitos de um processo que pode vir a se mostrar nulo já aconteceram.

Uma vez tomada a decisão judicial, sua execução pelo Estado, aconteceu da pior forma possível: de maneira truculenta, com presença do batalhão de choque, sem ao menos garantia de moradia, abrigo ou ajuda financeira para as pessoas, sem controle público, a ponto de a um dos advogados da parte ganhadora do processo ter sido permitido dar uma marretada na casa de uma senhora antes do início da desocupação. Diante dessa violência, não durou muito a resistência dos moradores. A assistência do Governo do Estado chegou tardiamente, após o despejo e a destruição das casas, após noite e dia de completo e concreto abandono, com a promessa de relocação para conjuntos habitacionais próximos e cadastramento para auxílio aluguel de ínfimos R$150,00. É uma cena que, a despeito dos seus efeitos drásticos para a vida daquelas famílias, para o resto da cidade é uma cena que somente se repete, se torna comum, e que muitas vezes só vira notícia quando atrapalha o trânsito. Com mais ou menos pesar, todo mundo acaba pensando: “é assim que acontece”. É de dentro dessa naturalização que nos acostumamos com a idéia de que imissão ou reintegração de posse vêm sempre junto com remoção forçada e desrespeitosa, com abandono, com desamparo e com humilhação. É desse mesmo lugar que tendemos a não perceber a hierarquização que há nesse tipo de remoção em relação ao próprio direito à propriedade: do dono da terra, conforme reconhecido oficialmente, e do dono dos pequenos bens sobre a terra, dentro da casa: roupas, brinquedos, memórias, máquinas, ferramentas, etc.

No limite, o que determinou a expulsão das pessoas e destruição das casas foi uma interpretação equivocada e excessivamente estrita das condições para a aplicação do usucapião, além de formalidades processuais, que, no conjunto, nada têm a ver com princípios fundamentais, garantidos pela Constituição Brasileira e pelos principais acordos internacionais em favor da Pessoa, como o direito à moradia, a dignidade da pessoa humana, e a função social da propriedade. E menos ainda têm a ver com a relação concreta dos moradores com o espaço que construíram e onde viveram até esta semana, espaço que era seu suporte para estar conosco na cidade. Essas pessoas têm direito não só às casas que construíram, como à terra que, na verdade, criaram: como boa parte da maré do Recife, o aterro foi feito a braço sobre o alagado pelos moradores hoje expulsos, numa época em que não havia a perspectiva de valorização que se verifica hoje no Pina (e que coincide com o novo acirramento da disputa pelo terreno). Nesse período, seu valor era reconhecido exclusivamente pelos próprios moradores, através do uso e do vínculo. Por um certo tempo, os moradores da Vila Oliveira foram tolerados no Pina enquanto estavam ocupando um resto de cidade. Mas, com o aporte de investimentos públicos e privados na área, tais como o Shopping Rio-Mar, a Via-Mangue e o Projeto Novo Recife, associados à saturação da exploração imobiliária de Boa Viagem, o Pina se tornou um novo foco de atenção e comunidades pobres que levantaram o lugar e construíram suas histórias misturadas à dele repentinamente deixaram, aos olhos desse “progresso”, de caber ali. Por isso, o caso da Vila Oliveira não pode ser visto como um fato isolado: soma-se a outros na região, como o da Comunidade do Bom Jesus, destruída pela Prefeitura em maio deste ano.

Há que se encontrar o caminho dentro do Direito para corrigir a situação no que ela ainda tiver de reversível ou compensável. Principalmente quando o histórico do lado frágil, confirmado pelo episódio de ontem, é quase sempre o do desespero diante do Direito. Não poucas as vezes, é mesmo o Direito que vem esmagando e tirando os pingos de esperança das populações mais vulneráveis (como não seria se o lado fraco é sempre tão miúdo e insiginificante?) revelando que a justiça, pretensamente neutra, tem tido lado definido ao longo de nosssa história. Não se trata de uma somatória de escolhas pontuais pelo lado mais forte, mas de uma escolha estrutural, historicamente construída. Essa escolha se dá com contornos particulares no Brasil, na maneira como a Justiça (as políticas públicas e as relações sociais) permite(m) manejos e acomodações ao longo de um tempo mais estendido de forma que, vencida(s) pela força ou pelo cansaço, sempre cede(m) à pressão do mais forte em detrimento do mais fraco que deveria proteger.

Esperamos do Estado a devida assistência social, econômica e jurídica às famílias, para a garantia de sua dignidade e a continuação da sua vida construída junto com a Vila Oliveira, bem como esperamos da mídia que ela exerça seu papel fiscalizador do Estado na defesa dos direitos básicos da população. Mas, além disso, é urgente a revisão por todas as partes – o Estado, a mídia e a sociedade civil – das falhas que permitiram esse desfecho, visando a máxima diminuição e compensação dos danos, e a atenção redobrada para que essa situação não se repita em outras áreas submetidas a condições semelhantes, que não são poucas. Não adianta a política de oferecer assistência e parecer comprometido somente depois que uma longa história de desatenção, abandono e seletividade no acesso à justiça e aos direitos produzem efeitos irreversíveis nas vidas das pessoas. O Estado tem a obrigação de se antecipar e agir sistematica e estruturalmente para proteger as pessoas no seu direito à dignidade, à moradia e à cidade, sem precisar ser obrigado a isso pela comoção e a vergonha diante de uma tragédia.

É em solidariedade aos moradores da Vila Oliveira, em atenção aos demais residentes em áreas do mesmo tipo e em apelo aos responsáveis nomeados acima que esta carta foi elaborada, construída coletivamente a partir do debate travado através do Grupo Direitos Urbanos | Recife no Facebook. Aqueles que compartilharem a mesma indignação e as mesmas opiniões, podem somar suas assinaturas nos comentários eletrônicos ao texto publicado no blog Direitos Urbanos | Recife.

Recife, 9 de novembro de 2012.

Direitos Urbanos | Recife

Relato sobre a reunião de domingo, 22 de abril de 2012

No domingo, dia 22 de abril de 2012, aconteceu uma reunião em que integrantes do direitos urbanos e professores do curso de arquitetura e urbanismo da UFPE apresentaram sua avaliação sobre o projeto Novo Recife para a promotora Belize Câmara e estudaram as possibilidades de ação daqui pra frente.

Esta não foi uma reunião oficial do Ministério Público. Foi um encontro entre pessoas interessadas nos rumos da cidade num momento importante como este.
Dentre os participantes será destacada uma comissão para acompanhamento do projeto e para encaminhamento das ações previstas. Esta comissão é independente do Grupo Direitos Urbanos, age em paralelo, embora conte com integrantes do grupo: Clara Moreira, Cristina Gouvêa, Leonardo Cisneiros, Ney Dantas e Rebeca Vieira de Melo.

Promotora Belize Câmara, arquitetos Ney Dantas, Paulo e Amélia Reynaldo.

Foi importante a abordagem de Norma Lacerda, que reforça o olhar não só em direção ao Novo Recife, mas às transformações profundas que precisam acontecer no processo de feitura da cidade e nos papéis dos interesses do grande capital privado, do estado e da coletividade nesse processo. As distorções hoje são muitas e são elas que permitem que um projeto como esse aconteça nos termos em que temos visto, com o poder público atuando como agência viabilizadora da movimentação do capital privado na cidade.

Em relação ao projeto, primeira questão foi definir se esta comissão agiria pela anulação do Projeto Novo Recife ou pelo seu ajuste a diretrizes urbanísticas mais adequadas. Decidiu-se pela segunda opção, levando em conta o estágio do processo, e concentrando esforços onde há chances mais efetivas de sucesso. Isso não exclui o estudo das possibilidades de indeferimento completo do projeto, mas este não será o foco desta comissão.

– O desenho urbano do Novo Recife foi analisado segundo as informações que estão disponíveis (serão tomadas as providências para acesso ao processo completo em tramitação na prefeitura). Com o que se sabe até agora, o projeto foi considerado totalmente inadequado, com os argumentos principais da falta de integração, corte significativo na paisagem histórica, cultural e social do centro da cidade e pela falta de cotrapartidas sociais, ambientais e urbanas;

– Levantou-se a lista de instâncias pelas quais o projeto deve passar até ser aprovado para verificar se o processo está sendo conduzido corretamente;

– Levantou-se a argumentação que sustenta a necessidade de tratar aquela área como projeto especial (diante do potencial de impacto urbano), submetido ao planejamento urbano da cidade e não como um empreendimento comum, o que invalidaria a análise que hoje está sendo conduzida pela prefeitura;

– Estudaram-se as questões legais relativas à proteção do patrimônio histórico e do meio ambiente;

– Apontou-se a desatualização da lei de uso do solo e outras regulamentações que estão orientando a análise do projeto pela prefeitura em relação ao plano diretor de 2008 e ao estatudo da cidade. Estudaram-se as maneiras de ajustar esta desatualização ainda na análise deste projeto. Mas é muito importante que entre na pauta das mobilizações em favor da cidade a exigência da regulamentação urgente do Plano Diretor, que já deveria estar cumprida desde 2010.

– Projeto alternativo: uma das principais frentes de ação da comissão que se formou nesta reunião será a de exigir do poder público a proposta de um projeto especial para a área, que preveja sua integração ao centro da cidade nos dois cenários possíveis (manutenção do funcionamento da linha férrea ou não). Este plano urbanístico tem raio de ação mais amplo do que o terrreno comprado pelas construtoras e deve condicionar a atuação do consórcio na implantação do empreendimento. A comissão não desenvolverá este plano, pois esta é uma atribuição dos órgãos públicos, mas estabelecerá com base no Estatuto das Cidades, no Plano Diretor e na análise dos projetos já desenvolvidos para o Cais, algumas diretrizes principais que devem ser adotadas, tais como: controle de gabarito em função da proteção da paisagem, da memória e da identidade do bairro, controle de densidade em função da redução de impacto ambiental (principalmente sobre os recursos hídricos) e de vizinhança (principalmente sobre a mobilidade), integração do sistema viário e do sistema de transporte público ao sistema existente, continuidade do comércio popular do bairro de São José, contrapartidas sociais em favor das zonas especiais de interesse social e das áreas pobres do entorno (como brasília teimosa, coque e coelhos) , integração da frente d’água à cidade e tratamento das áreas públicas para uso coletivo e democrático, etc.

– Mitigação e compensação x contrapartida: da forma como está sendo conduzida a análise do processo, a prefeitura trabalha na base de mitigações e compensações aos danos causados pelo projeto. A conta nunca fecha, ou, na melhor das hipóteses, zera. O empreendimento causa um dano e o poder público exige que ele seja minimizado, para garantir que a cidade perca pouco com isso. Quando o que deveria estar sendo feito é a definição de diretrizes urbanas para aquela área, de objetivos, e em função do impacto do empreendimento e do ganho privado que a exploração de área urbana desta categoria representa, exigência de contrapartidas urbanas, de ações que atendam estes objetivos e diretrizes, que estimulem a cidade a ser mais ela mesma, mais inteira, mais democrática e não de mitigações que permitam que uma intervenção violenta, alheia e definitiva se instale na cidade mediante amenizações, remendos pontuais.

Cristina Gouvêa,
25 de abril de 2012.

Carta em defesa do Cais José Estelita. Nossa paisagem, nosso patrimônio.

Cais José Estelita (foto: Marcelo Soares)

Recife, 23 de abril de 2012.

Ilmo. Senhor,
Luiz Fernando de Almeida.
Presidente do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

Ilmo. Senhor,
Frederico Farias Neves Almeida
Superintendente do IPHAN – PE – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Pernambuco

Ilmo. Senhor,
Severino Pessoa
Presidente da FUNDARPE – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco

Ilma. Senhora,
Célia Campos
Diretora de Preservação Cultural da FUNDARPE – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco

Ilmo. Senhor,
Fernando Duarte
Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco 

Ilmo. Senhor,
Eduardo Campos
Governador do Estado de Pernambuco

CARTA EM DEFESA DO CAIS JOSÉ ESTELITA. NOSSA PAISAGEM, NOSSO PATRIMÔNIO.

Prezados,

Cidadãos e cidadãs do Recife reafirmam ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN e à Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE posição definitivamente contrária ao Projeto Novo Recife. O referido Projeto foi apresentado em Audiência Pública na Câmara dos Vereadores, realizada no dia 22 de março de 2012.

Nós, Grupo Direitos Urbanos, presentes na audiência, e aqueles que a assistiram via transmissão ao vivo pela internet, sentimo-nos agredidos pelo projeto apresentado. Agride-nos e viola as características urbanas e históricas do Bairro de São José. Discordamos do projeto de cidade contido na proposta apresentada porque representa um corte contra a nossa paisagem urbana, esta, que conta a nossa história, na qual nos vemos refletidos, e é nosso patrimônio cultural e afetivo. E tudo isso para servir a um mercado imobiliário restrito ao qual apenas uma pequenina minoria tem acesso, no contexto do Recife.

A repercussão da Audiência Pública ecoou o lamento sobre o Projeto Novo Recife nas redes sociais (Twitter, Facebook, Youtube) e nos meios de comunicação locais, estaduais e nacional. Mais pessoas vêm se somando em defesa da paisagem do Bairro de São José, do nosso patrimônio histórico que ali se encontra. Os grupos, de caráter não partidário, “Direitos Urbanos – Recife” (com 5.205 membros), “Salve o Cais José Estelita” (com 1.352 membros) e “Contra o Projeto Novo Recife (com 1.269 membros)” reúnem arquitetos, filósofos, jornalistas, historiadores, cineastas, artistas plásticos, estudantes, professores universitários, pesquisadores, cidadãos e cidadãs. Estes grupos, expressão do encontro espontâneo de pessoas, realizam atividades, promovem e participam de debates, propagando: “Viva o Cais José Estelita! Viva o Bairro de São José! Viva o Recife!”

Neste último domingo, dia 15 de abril de 2012, foi realizado o #OcupeEstelita, com presença de mais de mil pessoas no Cais contra o projeto Novo Recife, a favor de uma integração responsável dos antigos terrenos da RFFSA à cidade e exigindo maior compromisso do poder público com a cidade e sua memória.

O gabarito violentamente desproporcional à massa edificada do Bairro de São José e incompatível com a paisagem de um Recife horizontal, que se deu avançando metro a metro sobre as águas; o excessivo adensamento e suas consequências; o exclusivismo em relação ao setor social a que se destina o programa do empreendimento e o abrupto corte social que ele provoca no bairro, assim como a eleição de uma frente para o projeto na direção do Pina e de Boa Viagem, tratando o Bairro de São José como os fundos, são alguns elementos concretos que apontamos, dentro da indignação que o Novo Recife nos provoca de uma forma mais ampla, porque agride profundamente nossa idéia de cidade.

A área toda tem grande valor histórico por permitir, ainda hoje, uma percepção de qual foi o padrão de ocupação da cidade que se consolidou ao longo do tempo. O enfileiramento de espigões na frente d’água coloca todo o skyline tradicional como mero pano de fundo para os novos empreendimentos, ou seja, permitir essa ocupação é assumir que qualquer obra nova é mais importante do que o tecido antigo e preservado – abre-se com isso uma premissa muito arriscada para a própria razão de ser dos órgãos que deveriam ser responsáveis pela preservação do patrimônio histórico (Iphan e Fundarpe).

Não nos colocamos contra o desenvolvimento, contra as transformações. Entendemos que a cidade é viva! Cada habitante dá vida a sua cidade, por isso exigimos que as transformações urbanas ocorram na perspectiva do desenvolvimento humano, voltadas para a qualidade de vida das cidadãs e dos cidadãos que habitam, vivem e constroem a cidade no seu dia a dia. A área em questão não só precisa ser preservada pela memória que representa, como precisa ser responsavelmente transformada e utilizada como ferramenta de ativação do Bairro de São José, a partir de suas próprias características históricas e culturais. Há um grande potencial sendo desperdiçado com a intervenção proposta. A cidade do Recife é de todos e todas, de toda população recifense. A cidade do Recife não é e nunca poderá ser do capital imobiliário; não é e nunca poderá ser destinada ao lucro de poucos.

Contamos que os órgãos públicos estejam comprometidos com o desenvolvimento humano das cidades. Nossos direitos urbanos – habitação, transporte, mobilidade, saneamento, lazer, meio ambiente, memória, cultura, paisagem, segurança, dentre outros – não podem ser reduzidos a “mitigações”, concedidas pelas autoridades e poder público para autorizar a construção de obras de tão negativo impacto ambiental e patrimonial. Não é somente questão de diminuir consequências negativas, mas de direcionar a intervenção em função de sua capacidade de gerar impactos positivos visando um projeto de cidade conectado com sua própria identidade e corajoso em relação aos seus problemas. Não aceitamos que nossos direitos humanos a uma cidade e vida sustentáveis e dignas sejam utilizados como “produtos” de mercado e alvo de barganha para que o Projeto Novo Recife obtenha as licenças destes órgãos.

Esta carta será entregue em ato público no dia 23 de abril de 2012 ao IPHAN-PE, com cópia para ser encaminhada ao IPHAN Nacional, à presidência e à diretoria de patrimônio da FUNDARPE, à Secretaria de Cultura de Pernambuco e ao Governo do Estado de Pernambuco. Através dela,

REAFIRMAMOS nosso compromisso com o desenvolvimento urbano sustentável da cidade do Recife e com a defesa do patrimônio histórico e cultural – material e imaterial;

DEFENDEMOS a continuidade da paisagem no Cais José Estelita. Qualquer projeto para área deve obedecer à relação de reciprocidade com o patrimônio existente. Sua reabilitação deverá ser contemplada com um plano urbanístico estruturado a partir de traçado viário integrado à malha existente, da diversidade de usos, dos marcos da paisagem, dos espaços livres, coletivos e abertos, da imagem, metáforas e memória coletiva do lugar. Deve promover usos democráticos, com acesso irrestrito da população, recuperando o poder econômico local sem criar impactos tão negativos, com uma idéia de falso progresso. Progresso de quem?

EXIGIMOS dos poderes públicos a conservação e defesa da paisagem do Cais José Estelita como nosso patrimônio. O Cais, assim como seu entorno representa um forte elemento da identidade local. Destacamos como marcos da paisagem o Forte das Cinco Pontas, os antigos galpões da Rede Ferroviária, a Igreja Matriz de São José e principalmente a Bacia do Pina, patrimônio natural da paisagem local. Entendemos que estes elementos devam sem preservados e valorizados, devendo ser estabelecida uma relação de conjunto. É forçoso ressaltar que o próprio Cais, como condição altamente representativa da ocupação urbana holandesa, tão cara aos recifenses, é uma faixa de terreno tão importante quanto, ou mais que os edifícios nela erguidos.

SOLICITAMOS que esta carta, a Petição Pública “Abaixo-assinado Contra o Projeto Novo Recife!” com 3898 (três mil oitocentas e noventa e oito) assinaturas, documentos estes protocolados na data de hoje, 23/04/2012. Pedimos ainda que o material do processo sobre o projeto no IPHAN incluindo os laudos dos técnicos locais seja enviado ao Ministério Público conforme solicitação declarada na audiência, e que o posicionamento destes técnicos seja considerado nos encaminhamentos tomados com relação a qualquer decisão, posicionamento e intervenção na área do Cais José Estelita.

Atenciosamente,

Grupo Direitos Urbanos | Recife
https://www.facebook.com/groups/233491833415070/

NOVO RECIFE, VELHA MENTALIDADE

Freqüentei o Cais José Estelita na década de 70, quando meu pai me levava para acompanhar as regatas de remo da cidade. Na torcida pelo Sport, andávamos de um canto a outro, debaixo de uma lua solar de rachar. Era, assim como hoje, um lugar ermo, uma passagem de automóveis, do centro para Boa Viagem. Capitão Temudo ainda era o lendário comandante de defesa de 1630, o primeiro a atirar contra os holandeses invasores, nos limites do Rio Doce, antes de devotar sua vida heroicamente no alto da ladeira da Misericórdia.Não quero ser nostálgico, mas nos primeiros anos da década de noventa, já na faculdade de arquitetura e urbanismo, sonhava com a renovação daquela área, contemplando moradia, centros comerciais e culturais, além de espaços públicos de ocupação popular, principalmente para os menos favorecidos que viviam na região, compreendendo principalmente o bairro do Coque (pude vislumbrar projetos nunca executados apresentados pelo Pro-Morar do BNH para o bairro em tela.)

Vejo claramente a oportunidade de consertar algumas coisas no combalido cenário urbano do centro do Recife através do projeto ora apresentado, cuja alcunha Novo Recife deveria, caso ambicioso fosse, mudar os paradigmas da ocupação do solo na cidade. Pelo menos levando em consideração uma contrapartida social que transcenda os parcos quilômetros de ciclovias que serão oferecidos.Resolver os problemas do Coque é essencial, revitalizar a Rua Imperial, a Avenida Sul e suas adjacentes, oferecendo espaços para novos empreendimentos residenciais e comerciais, assim como possibilitar uma nova irrigação do centro da cidade, conformando uma vertente original da Av. Dantas Barreto. Por que construir apenas no cais, na beira rio, no melhor pedaço? Mesmo que o cais seja o mote da revitalização deveria ser parte de um PLANO MAIOR de renovação desta parte sul do Território Central.

O centro do Recife perdeu uma oportunidade de ouro, na década passada, quando houve o “boom” das universidades. Poderíamos ter concentrado todas as instituições que surgiram nos bairros históricos. Teríamos provocado uma revolução urbana. Moradias, vida noturna, renovação da população e do comércio nos bairros de Santo Antônio e São José. Perdemos o bonde…

Outro detalhe importante é o gabarito e o modelo construtivo que se defende com tal projeto. Lembro de ter assistido um debate organizado no Pavilhão do Arsenal, local de exposições e reuniões gerenciado pela Prefeitura de Paris, sobre a verticalização nesta capital. Na ocasião, Jean Nouvel, Dominique Perrault e Christian de Portzamparc, três dos principais nomes da arquitetura francesa, defendiam, cada um a sua maneira, a possibilidade de se construir torres na Velha Lutèce (nome dado a Paris galo-romana). Uns defendiam o adensamento onde já existiam torres, outros torres isoladas como “acupuntura urbana” de revitalização e renovação. Num dado momento, um senhor muito distinto, levantou-se e pediu a palavra. Era o presidente da Associação de Moradores de Paris. Depois de alguns argumentos pertinentes ele disparou: vocês podem sonhar, mas em Paris vocês não vão construir torres… a Lei Malraux que o diga…

Isso evidencia algo que ainda está muito longe de nós. Uma associação de moradores respaldada pela legislação, tranqüila do cumprimento da mesma, ciente de que nada poderá mudar isso. Aliás, se tem uma coisa que funciona em Paris é o patrimônio histórico, com seus arquitetos (os respeitados ABFs), controlando as construções da cidade. Bem diferente de nossa miserável realidade, onde o poder econômico manda e desmanda.

No “ocupeestelita”, vimos uma demonstração clara de mobilização de uma classe que não costumava protestar. Ainda somos sobremaneira pacíficos. Fossemos gregos, atearíamos fogo por aí. Melhor ser pacífico. Mas vale a reflexão momentânea e a esperança de uma posição mais humana e construtiva do poder econômico, mesmo que o prefeito da cidade seja o primeiro a querer passar a página, achando que já está tudo muito bom (se o dinheiro de sua campanha estiver garantido).

Apelo seria a reconsideração do projeto pelos próprios empreendedores, desde que a prefeitura e o governo se unissem para encontrar uma solução que sirva melhor ao coletivo urbano da cidade. Os transtornos serão muito grandes, o sofrimento cotidiano será inevitável. Na intervenção de Hausmann, foram 17 anos de obras, 20.000 imóveis insalubres destruídos para 30.000 novos imóveis construídos, 300 km de vias criadas, 600 km de esgotos criados, dois grandes parques criados (Bois de Boulogne, Bois de Vincennes), além de iluminar toda Paris (com fiação embutida, claro), que até então vivia na escuridão. Voilà a razão pela qual Paris, depois de mais de 150 anos, suporta ainda todo tipo de evolução.

RECIFE, para ser verdadeiramente NOVO, precisa, antes, renovar a mentalidade de todas as suas classes sociais.

Texto publicado no perfil do Facebook de Aluízio Câmara

Recife é a cidade cosmopolita mais provinciana em linha reta do mundo

Por André Raboni, em Geek Café.

Recife sempre foi considerada a “capital do Nordeste” – desde quando o nordeste foi inventado, em meados do século 20. Antes disso, era considerada uma das cidades portuárias mais importantes do Brasil – desde quando o Brasil foi inventado, ao longo do século 19. No período colonial, a província de Pernambuco era uma das principais forças econômicas da colônia portuguesa e, claro, Recife era o principal centro da província.

Durante muito tempo, os filhos do Recife partiam para conviver durante alguns anos com as altas culturas europeias e voltavam para a província a esbanjar com mais vigor o seu nariz de senhorzinho de província. Uma viagem à Europa era um investimento familiar que rendia grandes dividendos no trato público: era a diplomação da respeitabilidade social e a garantia de um bom nome na praça.

No entanto, os ~bons~ filhos das castas recifenses, se iam a Paris com a ignorância pendurada no chapéu, regressavam de Paris igualmente ignorantes mas com uma novidade na lapela: a arrogância.

Essa mistura exótica da ignorância com a arrogância foi o que nos deu este doce presente: nos tornamos a cidade cosmopolita mais provinciana em linha reta do mundo.

Há quem acredite com fervor que a verticalização da cidade é sinônimo de progresso. Aliás, para muita gente o maior sonho de consumo é morar num espigão de trocentos andares com azulejos de banheiro.

Novo Recife e #OcupeEstelita

O Cais José Estelita é, talvez, a área mais nobre do Recife. A afirmação pode ser absurda aos olhos da província, porque o argumento (?) de quem defende o projeto Novo Recife é de que o lugar está abandonado e abarrotado de construções velhas e inúteis, além de cercada de pobres e pobreza. Com isso se forma a frase: “o que vier será bom“, e acabou-se o debate.

Um consórcio entre a Moura Dubeux, Queiroz Galvão e Ara Empreendimentos comprou o terreno da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), que você vê na foto abaixo:

15/09/2010. Credito: Ines Campelo/DP/D.A Press. Editoria Vida Urbana. Na foto o Cais Jose Estelita que sera revitalizado.

O terreno está abandonado. Todo lascado, diria em boa linguagem Pernambucana. Mas a área é nobre porque, embora esteja completamente abandonada, se situa numa orla belíssima na melhor paisagem do Recife. Vivemos um completo abandono da prefeitura ao longo de várias gestões. Esse abandono do poder público criou o buraco perfeito para a indústria imobiliária tomar conta e decidir o futuro do Recife.

O avanço da indústria imobiliária sobre o destino da cidade ficou muito fácil, porque se de um lado temos uma parcela da população que jura de pés juntos que “bairro nobre é o bairro das Graças, Jaqueira e Boa Viagem“, por outro temos uma parcela extremamente ausente do debate sobre a cidade. Com um poder público completamente inerte, fica tudo ainda mais fácil.

Ontem uma multidão passou o dia no Cais José Estelita. Estive lá e vi professores, estudantes, artistas, médicos, advogados, arquitetos e urbanistas, filósofos, historiadores, sociólogos, enfim, um monte de gente que está bem longe de ser o que a jornalista Téta Barbosa chamou em seu blog de “hippie de butique com iPhone na mão“. Não sei se a moça, que mora em Aldeia e já fez trabalhos para a Moura Dubeux, estava lá na manifestação, ou se fala por mero recurso retórico.

Subtraindo toda a retórica apressada e sem graça da moça, dois substratos do texto valem ser citados. Primeiro quando ela afirma que não entende como pessoas que moram em prédios façam protestos contra a construção de prédios. Em seguida ela atira sem direção e diz que “é fácil ser hippie de butique e protestar tirando foto com iphone” (talvez só seja legítima nestes casos a participação via Twitpic).

Faço nem ideia de quais interesses movem a publicitária que fez propagandas dos prédios da Moura Dubeux (empresa que fraudou o leilão do terreno onde estão as duas torres no Cais de Santa Rita), mas a depreender do texto, eles parecem maior que seu interesse pela cidade do Recife – que, a se medir pela sua fuga pra Aldeia (legítima, diga-se de passagem), percebe-se que não seja dos maiores. 

Bem. Pessoas que moram em prédios têm toda a legitimidade de serem contra a construção de, de, de… prédios – ou a moça acha que as pessoas que moram em prédios devem se sentir as mais felizes e realizadas Pollyanas Moças da face da terra? Morar em prédio não é o sonho de consumo de muita gente, pois muitas famílias moram neles por total necessidade financeira, pois não têm condições de morar num refúgio no meio do mato em Aldeia, ou numa casa no Parnamirim. Além disso, morar em prédio está bem longe de significar que se quer que toda a cidade seja uma imensa floresta de espigões com azulejos de banheiro. 

Descontando o desconhecimento aparente da história da cidade ao afirmar que o Cais José Estelita está abandonado há 300 anos, achei interessante quando perguntou “porque (sic) só agora que resolveram fazer alguma coisa nele, é que decidiram protestar?”

É um fato que nossa sociedade vive uma desmobilização impressionante. Embora nos ensinem nas escolas que Recife é uma cidade de tradição libertária e revolucionária, sentamos nossas bundas nos sofás e nos sentimos bem com esse ensinamento. Esse bem-estar comodista nos fez a população mais apática em linha curva da América Latina, e que descobriu no “slaktivismo” (a militância de sofá) uma forma de se sentir melhor por não fazer patavina pelo bem comum.

Mas a manifestação que levou mais de mil pessoas neste domingo ao Cais José Estelita foi um momento importante pra cidade na busca de tentar reverter tanta apatia e comodismo na cidade. E se havia pessoas na manifestação que desconhecem o projeto Novo Recife, talvez seja não só pela desmobilização, mas porque ele foi MUITO mal divulgado. E nada melhor para sair do desconhecimento do que se encontrar com outras pessoas que conhecem o projeto.

Analiso a manifestação de ontem como uma massificação inicial do debate, que já vem acontecendo. Uma discussão muito bem fundamentada está sendo desenvolvida noblog Direitos Urbanos, desde a audiência pública que lotou a Câmara de Vereadores do Recife para discutir o ainda pouquíssimo divulgado projeto Novo Recife.

Se há pessoas que não conhecem o projeto, essa é a hora de entrar na discussão e conhecer as pessoas e as ideias que estão circulando, seja para apoiar ou para contrariar. Ao longo de décadas o que vemos são manifestações estritamente estudantis nas ruas, ou no máximo protestos do MST (que as manchetes de jornais logo se horrorizam anunciando “Baderneiros do MST atrapalham o trânsito”). 

Aliás, eis aqui mais um retrato do nosso provincianismo pujante:

Quando há um protesto na Grécia ou na Espanha, quem participa do protesto é tratado como “manifestante”. Mas quando há um protesto aqui no Brasil, não passam de vagabundos, baderneiros ou hippies de boutique a ocupar as ruas com seus iPhones para postar no seu Instagram.

Carta Aberta do #OcupeEstelita para a Reunião Preparatória da Rio/Clima (Rio+20)

Banner do #OcupeEstelita dia 15/05/2012

Recife, 12 de abril de 2012

Carta Convite Aberta

Às senhoras e aos senhores participantes da Reunião Preparatória para o encontro Rio/Clima que será realizado em junho de 2012, no Rio de Janeiro, como evento paralelo à realização da Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20. 

Prezadas e prezados,

Vimos, através desta carta, convidar as senhoras e os senhores para participarem conosco do #ocupeEstelita, no Recife, neste próximo domingo, 15 de abril, das 9h às 16h.

O #ocupeEstelitaserá um grande ato da sociedade civil em defesa do direito às cidades sustentáveis, pelo meio ambiente e em protesto por um uso do solo responsável, ambientalmente equilibrado e socialmente justo na Região Metropolitana do Recife.

Nosso encontro acontecerá no terreno emblemático do Cais José Estelita, em que se planeja a construção de um restrito complexo imobiliário empresarial e habitacional de alto luxo, que prevê a construção de uma dezena de torres, sem consideração ao desenvolvimento sustentável da cidade, alimentando a lógica de mobilidade centrada no uso do transporte individual privado, desconsiderando a história do lugar e o significado da paisagem para as pessoas. O Cais José Estelita desenha uma paisagem histórica e afetiva na memória do Recife e isto está sendo desconsiderada pelos planos da iniciativa privada, com omissão do poder público.

Causa-nos indignação profunda que o poder público local esteja fascinado com uma idéia de desenvolvimento e progresso há muito vencida, comprometido com um modelo de cidade que é excludente, predatório e violento, permanecendo ao lado dos grandes empreendimentos imobiliários de luxo; viabilizando com dinheiro público, empreendimentos viários extremamente caros e baseados numa lógica de mobilidade poluente e insustentável (como por exemplo, o projeto para construção de quatro viadutos que o Governo do Estado de Pernambuco não consegue justificar tecnicamente, ambientalmente e socialmente); financiando a expulsão da população pobre, através de valorização imobiliária sem contrapartida de desenvolvimento social.

Por isso a sociedade civil se organiza. Erguemo-nos contra esta política urbana que vem sendo consolidada pelos gestores públicos locais que privilegia o privado ao público, o individual ao coletivo, alimentando uma dinâmica de segregação social e depredação ambiental sistêmica. Erguemo-nos em defesa do Recife, da gente do lugar, da memória afetiva urbana, pelo direito à participação social, às cidades sustentáveis e ao meio ambiente! Por um outro paradigma de desenvolvimento, que seja humano, que seja sustentável!
Nós somos mais de 3.800 pessoas engajadas através da internet nas redes sociais e mais aqueles que não tem acesso a estas redes. E estamos nos multiplicando. A adesão rápida e volumosa de centenas de nós indica a urgência do que está posto.

Entendemos que a nossa pauta é comum ao tema que trazem as senhoras e os senhores para esta reunião no Recife, e que temos em comum a missão de sensibilizar os gestores públicos para o desenvolvimento sustentável das cidades. E temos a missão de unir as nossas vozes.

A defesa do Cais é o grande símbolo deste momento no Recife, e o #ocupeEstelita é o nosso grande encontro. Aguardamos a presença de todas e todos,

Atenciosamente,

Grupo Direitos Urbanos | Recife

https://www.facebook.com/groups/233491833415070/

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Recife, April 12th, 2012

Invitation

To the participants of the RIO CLIMATE CHALLENGE preparatory meeting, an event that will be held in parallel to the United Nations Conference on Sustainable Development – Rio+20 in Rio de Janeiro, June 2012.

Dear participants,

We cordially invite you to join us at the #OcupeEstelita event that will take place at the José Estelita docks, in the centre of Recife on Sunday, April 15th from 9am to 4pm.

#OcupeEstelita is a gathering of civil society organizations, groups and individuals uniting in the defense of the environment, the right to sustainable cities, and the right to a responsible, environmentally balanced and socially just use of the land in the metropolitan area of Recife.

The gathering will take place at the emblematic José Estelita Docks. This area, in the heart of Recife, was auctioned off to a conglomerate of construction companies who plan to build a luxurious business and residential complex, which will include a dozen high rise towers of up to 40 floors each. The plans disregard the sustainable development needs of the city, nurturing individual centered transportation models and social segregation, whilst ignoring the history of the surroundings and the meaning of a landscape to the Recife population. The symbolic importance of  the area has been ignored by businesses involved in the development and the local public authorities, in favor of promoting private interests.

It causes us deep indignation that the local public authorities are backing a dated idea of development and progress that is exclusionary, predatory and violent. They are standing by luxury real estate companies and using public resources for road construction projects that are extremely expensive, will drastically increase pollution and do nothing to reduce car use or promote collective public transportation. (for example, the project to build four elevated by-passes that the State Government of Pernambuco cannot justify technically, environmentally or socially). The authorities are also promoting the removal of local populations through allowing real estate speculation in socially complex areas, without any consideration of the social development needs of the people.

For these reasons, civil society in Recife is organizing itself, rising-up against the current trends in urban development that have been supported by the local public authorities and which have focused on private over public and individual over collective, fueling a dynamic of social segregation and systemic environmental degradation. Civil society in Recife is rising in defense of Recife, the people of this city, urban memory, the right to social participation, sustainable urban development and the environment.

More than 3,900 people are engaged in our struggle through social networks, in addition to those that do not have access to the internet. And we are multiplying. The rapid and widespread responses by hundreds of people in support of our cause demonstrate the urgency felt by the population in relation to what is happening in Recife.

We believe that our struggle is inline with the cause that brings you all to the Rio Climate Challenge meeting in Recife, and we share the mission to make public administrators aware of the urgent need to ensure the sustainable development of our cities. It is our mission to make our voice heard.

The defense of the docks has become a symbol of the desire for a new type of urban development in Recife, and the # OcupeEstelita is our great gathering.

We count on your presence.

Grupo Direitos Urbanos | Recife  |    https://www.facebook.com/groups/233491833415070/

[projetotorresgemeas]

*FILME RECOMENDADO PARA MAIORES DE 16 ANOS.

O [projetotorresgemeas] é fruto de várias discussões que vêm sendo realizadas sistematicamente há aproximadamente 2 anos. Ele nasce da vontade de algumas pessoas ligadas ao meio audiovisual pernambucano de falar do Recife e de suas relações de poder a partir do projeto urbano que vem sendo desenvolvido na cidade.

A ideia consistiu da realização de um filme coletivo, feito a partir de vários olhares sobre a cidade, aberto a qualquer pessoa que desejasse participar, independentemente de experiências prévias com o audiovisual ou outros meios artísticos.

Participaram Allan Christian, Ana Lira, André Antônio, André George Medeiros, Auxiliadora Martins, Caio Zatti, Camilo Soares, Chico Lacerda, Chico Mulatinho, Cristina Gouvêa, Diana Gebrim, Eduarda Ribeiro, Eli Maria, Felipe Araújo, Felipe Peres Calheiros, Fernando Chiapetta, Geraldo Filho, Grilo, Guga S. Rocha, Guma Farias, Iomana Rocha, Isabela Stampanoni, João Maria, João Vigo, Jonathas de Andrade, Larissa Brainer, Leo Falcão, Leo Leite, Leonardo Lacca, Lúcia Veras, Luciana Rabelo, Luís Fernando Moura, Luís Henrique Leal, Luiz Joaquim, Marcele Lima, Marcelo Lordello, Marcelo Pedroso, Mariana Porto, Matheus Veras Batista, Mayra Meira, Michelle Rodrigues, Milene Migliano, Nara Normande, Nara Oliveira, Nicolau Domingues, Paulo Sado, Pedro Ernesto Barreira, Priscilla Andrade, Profiterolis, Rafael Cabral, Rafael Travassos, Rodrigo Almeida, Tamires Cruz, Tião, Tomaz Alves Souza, Ubirajara Machado e Wilson Freire.

Site do projeto: projetotorresgemeas.wordpress.com/

O FALSO PROGRESSO

Texto de Leon Victor de Queiroz, em resposta ao editorial do JC do dia 6 de abril.

A Prefeitura da Cidade do Recife – PCR juntamente com grupos empresários, mais especificamente a Moura Dubeux pretendem construir no Cais José Estelita um conjunto com 12 a 13 torres de quarenta pavimentos cada. Os prédios todos em vidro, com magnífica arborização e de uma beleza só vista no Autocad virou um produto, uma IDEIA vendida e difundida à população Recifense com o nome de PROGRESSO.

Juntamente com a Moura Dubeux está o grupo João Carlos Paes Mendonça – JCPM, dono de vários empreendimentos comerciais como o Plaza Casa Forte, Shopping Recife, Shopping Tacaruna e o futuro Rio Mar. O empreendimento da Moura Dubeux com aprovação da PCR terá interligação viária com o Shopping Rio Mar e com a futura Via Mangue. Pelo projeto, isso é vendido como uma coisa excelente, maravilhosa.

O debate está acirrado. Arquitetos e Urbanistas estão dando sua opinião, muitas vezes alcunhadas de “técnicas”. Mas arquitetura e urbanismo não é uma coisa meramente técnica. A Arquitetura e o Urbanismo requer o PENSAR o espaço público não apenas como um conjunto de equações estruturais e concreto mas os IMPACTOS que as obras trarão para a cidade e, mais importante, para a SOCIEDADE.

O Rio de Janeiro quando desapropriou os cortiços para revitalizar o centro da cidade, não levou em conta a realocação da população. Desalojada, procurou o espaço de terra livre mais próximo de onde moravam: O Morro, que virou FAVELA.

Uma sociedade calcada no culto ao belo, à moda e ao dinheiro esquece de cuidar de TODOS os que utilizam o espaço urbano. Não basta apenas comprar Brasília Teimosa e jogar a população em Camaragibe, ou em “Tejipior”. É preciso saber COABITAR com a população mais pobre. É preciso entender que o Recife é de TODOS. O progresso não é um conjunto de concreto e vidro. O progresso é termos uma cidade em que se possa andar por suas ruas, onde os pobres e os ricos se vejam e não se agridam, onde os espaços públicos sejam pensados e discutidos para que seu planejamento leve em consideração a HARMONIA SOCIAL.

É difícil de entender. Mas a população do Recife precisa acordar. Muita gente vai a Nova York e Buenos Aires, voltam tecendo verdadeiras declarações de amor por essas cidades mas não sabem que suas atitudes individuais e mesquinhas impossibilitam um Recife mais harmônico, mais aprazível, mais moderno.

Eu ainda me escandalizo quando os moradores dos edifícios de quarenta pavimentos assumem postura de vítimas e reclamam do péssimo trânsito em volta dos bairros. Mas foram eles que desequilibraram a região.

O progresso não está na suntuosidade ou embelezamento do espaço construído. O progresso está em viver sem medo da violência, em transitar pela cidade a bordo do transporte público. O recifense precisa acordar. Não são os políticos que farão isso. SOMOS NÓS! Acordem meus amigos. A cidade que queremos só depende de nós. Progresso não é beleza, progresso é HARMONIA.