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Prefeitura restringe usos nos parques do Recife

por Leonardo Cisneiros, professor da UFRPE e integrante do grupo DIREITOS URBANOS.

Saiu no noticiário ontem e hoje que a EMLURB publicou uma portaria de disciplinamento do uso dos parques da cidade, em que a palavra “proibido” ou “proibida” é repetida dezessete vezes, e que inclui regras como a proibição do slackline nas árvores, a proibição de jogar bola (mesmo aquelas leves de plástico fino que não machucam nem uma criança!), a proibição de entrar com patins e skates nas ciclovias (coisa que não é proibida pelo Código de Trânsito sequer nas ciclovias “oficiais” fora dos parques), demarcação das áreas onde pode ocorrer um piquenique e limitação do número de pessoas que podem participar deles, proibição de estender faixas (e a liberdade de expressão? e as faixas do OcupeEstelita ou da Bicicletada na Praça do Derby?), proibição de práticas esportivas em geral fora dos espaços das “academias da cidade” e sem a orientação de um instrutor (ou seja, você não pode fazer flexões de braço na grama ou se alongar usando uma árvore como apoio), proibição de entrar com animais, dentre outras proibições. Parte significativa da portaria destina-se a tolher a atividade do comércio informal e ambulante nos parques, exigindo um cadastramento dos comerciantes que não está claro se é estendido aos ambulantes ou se limita ao comércio formalizado em quiosques concedidos pelo poder público. Não estão claros critérios para esse cadastramento e as restrições chegam aos extremos de proibir especificamente o comércio de bolas de qualquer tamanho ou tipo e proibir o uso de objetos cortantes no preparo de alimentos, o que impedirá as pessoas de beberem água de coco no coco ou até de prepararem no local uma salada de frutas. Dentre as partes simplesmente ridículas da portaria, está a proibição não só da entrada de animais domésticos, como também a de animais selvagens (art. 29). Resta saber como a EMLURB vai combinar isso com as aves, as lagartixas e os timbus… 

Se as regras da EMLURB valessem para o Central Park, essa cena não seria possível...

Se as regras da EMLURB valessem para o Central Park, essa cena não seria possível…

Independentemente de qualquer possível boa intenção que possa haver na medida ou da necessidade de coibir algum excesso eventual, ela peca por uma questão mais básica, um erro de forma: são regras impostas de cima para baixo pela burocracia municipal sem que tenha havido qualquer consulta ou diálogo com a população ao mesmo tempo usuária do parque e afetada pelas regras.

A imposição de regras absolutas, inflexíveis, de cima para baixo, sem uma construção participativa com a comunidade interessada no parque, em primeiro lugar mascara a incapacidade da Prefeitura de lidar com a questão da acomodação das diversas pessoas nos parques e com eventuais excessos de forma educativa e dialogada. Era para os guardas municipais que tomam conta dos parques terem uma formação diferenciada e serem capazes de discernir, por exemplo, a diferença entre um ciclista adulto em alta velocidade criando risco para as pessoas e uma criança aprendendo a pedalar, a diferença entre alguém chutando uma bola oficial de futebol e crianças brincando com bolas de plástico que não machucam nem um bebê. Mas a Prefeitura, pretendendo responder a uma minoria de excessos, acaba optando por proibir tudo, disciplinar tudo, e restringir a liberdade de todos usuários no espaço que é de toda a cidade.

Mas, além disso, há outro risco. Um adolescente branco de classe média andando de skate ou jogando bola será abordado pela Guarda Municipal da mesma forma que um negro vindo de alguma comunidade? Uma política de uso do espaço público baseada na repressão, na proibição, autoriza a Guarda a agir repressivamente e sabemos que nessa hora os preconceitos aparecem e a razoabilidade de que falei acima vai acabar sendo bem seletiva. Além disso, há outros usos importantes que podem acabar sendo reprimidos por essas regras. Se um piquenique tem limitação do número de pessoas, ainda será possível juntar pessoas para uma reunião aberta? para uma aula pública? para uma assembléia? para um protesto? ou até para discutir literatura ou jogar RPG? As pessoas que são proibidas de se reunir nos shoppings da cidade, agora também serão proibidas de se encontrar, para qualquer fim que seja, nas praças e parques? Além disso: os trabalhadores do comércio informal poderão exercer seu ofício nestas áreas públicas da cidade ou só haverá espaço para os food truck gourmetizados? Teremos até os tradicionais pipoqueiros banidos dos parques da cidade como foram do Marco Zero? Quanto demorará para proporem a revista das pessoas que quiserem entrar nos parques ou até mesmo a “triagem de frequentadores” (sic) como tentaram propor para o Bairro do Recife?

 

Reuniões abertas e assembléias, como esta que fizemos no 13 de maio, ainda serão permitidas?

Reuniões abertas e assembléias, como esta que fizemos no 13 de maio, ainda serão permitidas?

Esse modelo de cidade higienizada e segregadora decorre em grande parte da maneira com a cidade é gerida. Para que a cidade seja realmente PARA as pessoas, é preciso que ela seja feita PELAS pessoas e por TODAS as pessoas. Nós, do DIREITOS URBANOS, defendemos o máximo de participação da população na gestão da cidade e dos equipamentos públicos que, na verdade, são nossos, dos cidadãos, e não de um grupo de burocratas. Por isso achamos que a melhor saída para a gestão de praças, parques e outros espaços e equipamentos públicos é a gestão participativa, compartilhada, com a comunidade e com os usuários em geral. Regras como estas precisam ser um pacto de convivência da comunidade, construído coletivamente. Dentre as tantas vantagens, isso faz com que a comunidade se aproprie melhor do espaço, cuide dele, e veja as regras como algo que ela legitimou e não que foi imposto a ela pela repressão da Guarda Municipal. É isso o que o Município de São Paulo vem experimentando já há algum tempo, com conselhos gestores participativos, consultas públicas e outras formas de gestão compartilhada.

Já aqui em Recife, ao invés disso, o que tem acontecido paralelamente a essas imposições da EMLURB é uma tendência preocupante: a privatização da gestão de parques municipais para organizações sociais. A administração do Parque de Santana e o da Macaxeira foi passada pela Secretaria de Turismo e Lazer para uma parceria público-privada com uma organização social, o Instituto de Desenvolvimento e Gestão, em um contrato que envolve o pagamento de R$ 5.463.234,00 para o Instituto ao final de quatro anos. A proposta propagandeada é modernizar a gestão, torná-la mais eficiente, trazer para ela a experiência e a metodologia da iniciativa privada. No caso do Parque da Macaxeira até agora essa intenção de tanta eficiência tem ficando bem distante da realidade.
Mas a questão não é essa entidade específica ou este contrato. É uma questão de princípio. Passamos de uma gestão pública burocratizada e isolada da população, para uma gestão empresarial por organizações privadas de natureza ambígua, geridas por um conselho que deveria ter participação da sociedade civil, mas, na prática, é formado por notáveis indicados. Num modelo ou no outro, a população, os usuários, os trabalhadores, todos os interessados na gestão dos parques e todos o que poderiam contribuir para fazer do patrimônio público uma obra coletiva continuam colocados fora desse processo. A cidade só vai ser nossa quando todos esses espaços e os equipamentos públicos, como as bibliotecas públicas, forem espaços de liberdade da população, de autonomia, espaços criados e moldados pela população, quando as regras forem cumpridas porque as pessoas se reconheceram nelas e não porque a guarda municipal está de olho. Os espaços públicos estão na origem da democracia e é essa natureza democrática deles que precisamos resgatar agora.

(post feito com a colaboração coletiva do post no grupo Direitos Urbanos sobre a notícia)

LIBERDADE PARA O RECIFE ANTIGO! Corra que a polícia vem ai!

>Por Igor Alves (Frente Independente Popular) e Diego Martiniano

O Recife Antigo constitui hoje um ambiente de disputas entre cachorros bem grandes – Porto Digital, Porto Novo Recife e Prefeitura – e a sociedade civil. A noção de espaço público que ainda se tinha do bairro como um bem de uso coletivo vem sendo “tratorada” pelos principais atores desta disputa. De uma hora para outra, o espaço democrático de convivência deu lugar a um inusitado quadro de contrastes urbanos: Com sofisticados empreendimentos que parecem não dialogar com o lugar e as gentis que o frequentam.

Projeção feita pela FIP nos armazéns do Porto Novo

Projeção feita pela FIP nos armazéns do Porto Novo

Nos últimos anos o bairro do Recife Antigo foi marcado pelo abandono quase completo pelo poder público, o que levou a decadência da vida cultural e a falência de diversos pequenos empreendimentos como boates, bares e restaurantes. Esse abandono motivou a criação de um movimento espontâneo dos jovens que passaram a ocupar este espaço e que chegaram a promover alguns atos exigindo que o poder público retomasse a vida cultural do bairro. A resposta do poder público veio através da criação de atividades culturais, de lazer e esportivas, principalmente aos fins de semana, voltados a classe média. Como se fora sincronizada, a ação do poder público antecedeu a atual reinauguração dos antigos galpões com bares e restaurantes da mais fina gastronomia, e a ocupação do bairro por um forte efetivo militar : a Guarda Municipal, o GATI, a PM, o GOE e até a tropa de choque, transformando o Recife Antigo numa verdadeira UPP. Ironicamente, a sensação de insegurança e a violência parecem ter aumentado na mesma proporção da presença policial (da suposta “segurança” promovida pelo Estado).

Sob a alegação de tentar resolver essa celeuma da insegurança no Recife Antigo, o prefeito Geraldo Julio anunciou na última semana uma série de medidas a serem implementadas no bairro histórico da cidade após o carnaval. Dentre elas, estão a proibição da venda de bebidas em garrafas de vidro, a proibição de jovens menores de dezoito de terem acesso ao bairro sem a presença dos pais ou responsáveis, revistas com direito a detector de metais nas pontes que dão acesso ao bairro etc. Desde dezembro, a prefeitura do Recife já vinha distribuindo panfletos na região em que adverte a não ocupação do Marco Zero por skatistas, ciclistas e patinadores. A justificativa para tal restrição é motivo de divergências dentro da própria prefeitura – uns dizem que o intuito é preservar o piso da praça, enquanto outros afirmam que é para evitar acidentes. Ademais, comerciantes ambulantes também foram “advertidos” a deixarem o local.

Polícia no Marco Zero

Polícia no Marco Zero

As medidas apontadas por Geraldo Julio para garantir a segurança, no entanto, tornaram-se alvo de inúmeros questionamentos por parte da população assim que foram anunciadas. Tais questionamentos revelam a urgente necessidade de discussão junto a sociedade antes de qualquer implementação.

Na noite do último dia 11, integrantes da Frente Independente Popular de Pernambuco (FIP PRAIEIRA) estiveram na Praça do Arsenal e no Marco Zero fazendo panfletagens e projeções, denunciando o aumento da tarifa de ônibus na RMR e a ocupação militar daquele espaço. Durante as atividades, presenciaram dois momentos de correria: O primeiro motivado por um boato de arrastão que foi seguido pela inserção de um forte contingente policial que revistou e levou vários jovens detidos, sob o aplauso da multidão ali presente. Cerca de uma hora depois foram estas mesmas pessoas que aplaudiram a abordagem seletiva e a ação truculenta, que se tornaram vítimas da ação da PM. Além dos ativistas da FIP, dezenas de relatos na intenet dão conta que uma viatura da polícia militar, saindo de uma das ruas do entorno do Marco Zero, adentrou a praça dando ao menos cinco tiros para o alto, esvaziando quase por completo o local.

O lamentável episódio ocorrido naquela noite é de deixar qualquer um intrigado. Não se sabe se em algum momento houve arrastão ou tudo não passou de conflitos entre grupos rivais, também é certo que no momento dos tiros nada de anormal fora notado naquela praça. Ainda que houvesse, nada justificaria descarregar uma arma, mesmo que para o alto em uma praça lotada de pessoas. É de se questionar como é possível que, com tantos efetivos policiais em ação, a ação de criminosos possa ser possível, deliberada e generalizada como os veículos de comunicação tem retratado. E sendo, se este é o modus operandi que a população deve esperar da polícia militar de Pernambuco. O que mais chamou a atenção neste caso é que a responsabilidade do caos instalado naquele espaço repleto de famílias, crianças, amigos e comerciantes foi da própria polícia.

Batalhão de Choque na rua Tomazina

Batalhão de Choque na rua Tomazina

A presença policial é sempre mostrada como sinônimo de segurança ao cidadão, entretanto, essa lógica, tida como uma verdade pela classe média, parece ser posta em xeque na cidade do Recife. Desde que essa verdadeira UPP foi montada nos deparamos com relatos de abordagens de caráter preconceituoso dirigidas a determinados grupos de frequentadores do local. Um dos exemplos mais conhecidos é o do estudante de ciências sociais da UFPE, Siilas Veloso, que denunciou nas redes sociais que, no último dia 6, em menos de trinta minutos foi alvo de duas abordagens policiais promovidas, primeiro pelo GATI em seguida pela Guarda Municipal. Em comum o caráter vexatório, preconceituoso e intimidador das abordagens. A verdade é que existe um claro recorte de cor e de classe na escolha e na forma de abordagem feita pela polícia. É no mínimo curioso que com toda essa ostensividade o clima de medo e a violência cresçam com esse aumento da “segurança” promovida pelo Estado.

Parece de fato existir uma articulação para criar um clima de medo que justifique as medidas de segurança adotadas pela prefeitura e a ação violenta da polícia contra uma parcela da população que frequenta aquele local. Medidas higienistas, ilegítimas, continuidade do processo iniciado por Eduardo Campos para intimidar, expulsar e esconder a parcela da população que é indesejada naquele espaço pela clientela elitista dos empreendimentos recém-chegados. Uma juventude pobre, muitas vezes preta, que ocupou aquele espaço quando o poder público o tinha abandonado e que agora é alvo do mesmo.

CIDADE PRA QUEM?

+ INCLUSÃO

– SEGREGAÇÃO

A AUDIÊNCIA PÚBLICA SOBRE MARACATUS EM NAZARÉ DA MATA

Relato de Liana Cirne Lins, que foi representando o DU para a audiência pública promovida pelo Ministério Público em Nazaré da Mata com a intenção inicial de definir limites de horário para as sambadas de Maracatu

Logo no início da audiência, a fala do Coronel Hélio deixou claro que a ação da Polícia Militar de Pernambuco tem se pautado nas metas do Pacto pela Vida.

A imposição do limite de horário das duas da madrugada para término das sambadas teria como fundamento “o desejo de preservar a vida” e que o “divertimento” não seria superior à vida.

Em primeiro lugar, essa fala ignora que o Maracatu é a vida dos maracatuzeiros.
Em segundo lugar – muito mais grave -, PRESSUPÕE uma violência que NÃO é real. Tanto assim que, indagado por mim, o Coronel não soube informar nenhuma morte que tenha ocorrido nas sambadas.

É importante que se diga, para os que não conhecem a realidade do Maracatu, que os Maracatus funcionam como centros de pacificação de suas comunidades e que afastam os jovens das drogas e da violência, mantendo-os ligados à sua cultura.

Também ficou perceptível que nem todos os representantes do poder público tinham clareza do valor cultural do Maracatu. E que inclusive ignoravam encontrar-se em estágio avançado o processo de registro do Maracatu como patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN. O Maracatu não é, portanto, um mero divertimento, mas é a manifestação cultural e artística tutelada pela ordem constitucional e é preservação da história e da cultura daquelas populações.

O presidente da Fundarpe leu Nota Oficial do Governo do Estado, assinada pela Secretaria de Defesa Social e pela Secretaria de Cultura, em que afirma não haver nenhuma diretriz governamental no sentido de restringir os horários de ensaios e apresentações dos Maracatus.

Entretanto, se a própria Secretaria de Defesa Social se manifesta publicamente nesse sentido, como explicar a atuação da Polícia Militar de Pernambuco ao longo dos últimos dois anos, que vem sistematicamente cerceando as sambadas e lhes impondo o chamado “toque de recolher”?

Especialmente quando a lei utilizada para fundamentar a atuação da polícia, a Lei Estadual n. 14.133/2010, NÃO SE APLICA ÀS SAMBADAS, pois nos termos do seu art. 1º, destina-se a eventos “com estimativa de público superior a 1.000 (um mil) expectadores”.

Segundo os maracatuzeiros e pesquisadores do Maracatu, as principais violações que tem sido por eles sofridas são:

  • Limitação de horário – quando historicamente essas manifestações brincam até de manhã;
  • Proibição de presença de crianças nos espaços da brincadeira;
  • Perseguição religiosa;
  • Estabelecimento de local oficial para a brincadeira – quando para a sua preservação é essencial a territoralização da manifestação que crie identidade com o local;
  • Tentativa do poder público de rotular a brincadeira de forma pejorativa (drogas, brigas, morte…), ao contrário do que elas realmente são: centros de valorização da auto-estima das comunidades.

Chamou-se atenção para a situação crítica dos Maracatus de Gloria e Buenos Aires, que têm sofrido uma repressão ainda mais contundente.

Inclusive, o dossiê que serve de base ao registro dos Maracatus como patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN reporta essas violações como ameaça de sua extinção ou descaracterização.

Por tudo isso, preocupa a atuação censora da Polícia Militar e consequentemente da Secretaria de Defesa Social pela sua natureza arbitrária e inclusive discriminatória, já que sabemos que o Maracatu é uma tradição de comunidades pobres e não temos notícias de imposição de tais limites a “festas de ricos”.

Diante disso, como integrante do grupo Direitos Urbanos, sugeri que os maracatus passassem da condição de suspeitos de potenciais violências pressupostas a de denunciantes de violências reais e concretas à sua cultura e à sua liberdade de expressão artística.

Ao fim da audiência, houve uma reunião com os maracatuzeiros. Siba pediu para que eu falasse do Direitos Urbanos a todos os presentes. Nossa leitura é de que aquela restrição fazia parte de uma política maior de desvalorização da cultura voltada à ocupação democrática dos espaços públicos.

Uma equipe de trabalho composta pelos Mestres Manoel Salustiano, Maciel Salu, Siba, Maria Alice, Alexandra de Lima, Rute Pajeú e por mim deverá finalizar a denúncia que será protocolada junto às Promotorias de Justiça competentes, a fim de que o Maracatu e todas as manifestações culturais populares do Estado possam acontecer de forma tranquila e sem ameaças não só aos seus membros, mas à sua continuidade e preservação.

A audiência de hoje foi uma vitória parcial. Agora é ir em frente para que tenhamos uma vitória da democracia contra o processo de gentrificação que nos tem sido imposto até nas nossas brincadeiras.

Sobre o Carnaval da lei e ordem

 Texto de Pedro Brandão1520645_10151948670727968_447119663_n, sobre as medidas de ordenamento do Carnaval de Recife que levaram ao fim de um pólo de desfiles numa das áreas tradicionais da cidade e à regra de que os shows e desfiles deverão se encerrar às 2h da manhã.

 

Sobre o Carnaval da lei e ordem

No dia 13 de fevereiro de 2013, na manhã da quarta-feira de cinzas, fiz o seguinte post no meu facebook:

Às 06:10 da manhã, saiu o arrastão do Marco Zero. Sem dúvidas, o melhor momento do carnaval. Orquestra gigante, gente que parecia que nem tinha brincado 4 dias e, claro, todos bêbados e felizes. Incrivelmente, os gritos de “ah, é Pernambuco”, não paravam. Às 7:30, chegou a hora de partir. O homem da corneta já não aguentava mais. Uns resistentes permaneceram. 

Foi-se mais um carnaval.

Hoje, as vésperas do carnaval de 2014, boêmios de todo mundo recebem a notícia que a Prefeitura e órgãos de segurança pública, seguindo recomendação do MPPE, decidiram que a folia momesca terá horário para terminar: às 2 horas da madruga.

Jaguar, que ultimamente confessou que foi corneado pelo seu fígado, no livro “Confesso que bebi”, reclamava sobre a possibilidade da prefeitura retirar as mesas das calçadas (ops, qualquer semelhança com certa vereadora é mera coincidência…) e proibir a abertura dos bares até determinado horário, como diz ele, “apaulistar o Rio”: “Dá pra entender? Faz lembrar aquela marchinha de carnaval: “nós é que bebemos e eles que ficam tontos”. Por que não aproveitam esse frenessi persecutório e proíbem celulares e televisão – invasiva poluição sonora – em bares e restaurantes?

O Frenessi persecutório de Jaguar chegou a capital pernambucana. Parafraseando Jaguar, estou me sentindo corneado pelo carnaval recifense. Nosso orgulho sempre foi ter o carnaval mais livre, democrático e plural do Brasil.

Essa medida pode ser um primeiro passo para o inicio de medidas drásticas para a nossa festa. O Recife, aos poucos, vai deixando de ser Recife.

Se é para falar de ordem, Ministério Público, bem que poderia começar por recomendações mais importantes para o espaço (e o cofre) público: i) o alto gasto do poder público na manutenção de camarotes, como se fosse dever dos cofres públicos proporcionar uma folia gorda aos políticos e aos seus amigos; ii) a instalação de “front stage” gigante para a casta política e cultural de plantão nos palcos da cidade, iii) alternativas dignas para crianças que acompanham os pais trabalhadores, normalmente catadores de latinha, durante o carnaval; iv) preparo da polícia militar para lidar com eventos de massa e, para quem lembra dos carnaval retrasado, com todas as formas de amor.

Queiram ou não queiram os juízes

É claro que esse debate pode partir para outra perspectiva: o impacto sobre o Direito à cidade. Pode não parecer, mas o limite imposto pela Prefeitura gera discussão muito séria sobre os rumos da nossa cidade. O que está em jogo na verdade, é a lógica da lei e ordem em detrimento das manifestações culturais. É um conflito entra a lógica de cidade confinada, que se fecha em si mesmo, e uma cidade que permite a sua reinvenção.

Vivemos numa cidade agressiva, em todos os sentidos. Dos prédios da Moura Dubeux, rodeando nossa cidade, aos carros enfurecidos, acelerando nas nossas ruas; das calçadas cheias de buraco para pedestres e cadeirantes às pontes constantemente ameaçadas pelo medo do assalto; dos shoppings – cheios de artificialidade – lotados; as praças – cheias de árvores – vazias. Em todos esses locais, “o elemento humano é achatado”, como dizem num desses filmes cabeça da capital pernambucana.

O carnaval é um dos poucos espaços – embora existam os cordões de isolamento simbólicos – que a cidade se encontra consigo mesmo. O morador de Casa Forte esbarra no morador de Peixinhos no meio do Marco Zero. Um Carnaval livre e democrático permite a liberação das tensões sociais. Não à toa, dizem que o carnaval de Salvador, cheio de cordões de isolamento – e que projetamos como o oposto do nosso – é um dos mais violentos do país.

O horário de limite imposto pela prefeitura do Recife, aliado a proibição de blocos tradicionais nos mercados públicos, impacta na dinâmica da cidade, principalmente, de uma cidade como Recife, marcada, ao menos no carnaval, por espaços de socialização abertos. Pode gerar como resultado rebote da medida – intencionalmente ou não – um efeito potencializador dos espaços privados: as famosas festas particulares, que não terão limites de horário.

Nesse aspecto, o tema merece um pequeno aparte. Essas festas privadas, ou boa parte delas, refletem uma lógica de cidade marcada por profundas desigualdades. A busca incessante por espaços exclusivos, no fundo, é a busca por espaços de diferenciação, de não mistura, de elitização. É a lógica das cidades privadas, dos castelos neofeudais, dos condomínios fechados, reverberando na dinâmica dos espaços de diversão, lazer e cultura. Essa lógica talvez simbolize a segregação e fragmentação, típicas de uma concepção excludente de cidade.

Esse é o modelo que parece que está desenhado para a nossa cidade: o poder econômico, aliado as diversas esferas do Estado, ditam as regras de ocupação da cidade, criam espaços de exclusão e expulsam as comunidades do centro – do poder e da cidade.

No entanto, o desenho pode ser reformulado. Recife vive um momento fértil de
discussões sobre o espaço urbano. Assim, um efeito contrário pode surgir: incremento das lutas, em nossa cidade, pela reinvenção do espaço urbano também no carnaval. Essas limitações impostas pelo poder publico, as vésperas da folia, podem dinamizar novas e criativas formas de reinvenção do carnaval. Tal como no Rio, onde os blocos estão saindo à revelia da da prefeitura, independente de autorização, mas com aviso prévio (aliás, exatamente único requisito exigido pela Constituição), as festas podem surgir espontaneamente nas ruas, com tambores, sons e qualquer outra ideia que surja das cabeças dos brincantes.

Não podemos deixar que o nosso carnaval fique como os nossos governantes: sem graça, vestidos com ternos escuros, tomando whisky em algum bar de Boa Viagem. É esperar que a criatividade do nosso povo, esta sim nunca mostrou limites, inunde as ruas do umbigo do mundo e mostre que Carnaval é assim: anárquico, que não será arbitrariamente domado ou domesticado pelo poder público. Resgatar a beleza e a leveza do carnaval, para muito além do Poder público, é principal papel da sociedade civil.

Enquanto isso, Seu Prefeito, Governador, membros do MPPE, secretário de Defesa Social, Eduardo Galeano tem um recado para vocês:

“Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.”