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A delicadeza da força

Érico Andrade / Doutor em Filosofia pela Sorbonne / Prof. UFPE. Membro dos DUs e da AmecicloEricoAvatar

Entre os escombros da violência e as correntes da prisão – dor – as mulheres atravessam, fartas de esperança, o caminho tortuoso do cotidiano. Repetições, tarefas, exigências. A assimetria das tarefas marca a diferença de gênero cuja balança pende para o elo que não se elegeu mais fraco. Filhos que ficam quando se confunde o fim da relação com o fim da família. Confusão convenientemente frequente para os que conferem para si mesmo o direito de não ser pai e oneram a mãe com a carga de ser apenas mãe ou de ter que ser a sacerdotisa do sacrifício; da vida que só é múltipla porque se desdobra em infinitas e infinitamente cansativas tarefas.

O Corpo e a mente devem estar padronizados: estampam as etiquetas. Programadas para o consumo. Fetichizadas para serem consumidas. Consumidas para serem propagandas. Esquálidas para serem contemporâneas. Todos os cartazes não deixam dúvidas: as mulheres devem ter a medida certa da submissão. Por isso, o corpo da mulher é tomado, pelo sexismo, como a extensão frágil e delicada do homem. Frágil porque se poderia quebrar com um só golpe. Delicada porque concentra todas as tarefas de cuidar, zelar pelos filhos. O corpo da mulher é ainda a extensão do homem porque ele não transita pelo corpo feminino a não ser para ter prazer para si mesmo. O corpo feminino é um apêndice do homem cuja função é de estender a masturbação para outros membros. O sexismo tenciona dominar o indomável: escraviza o sexo.

Devoradas por olhares indigestos e por gestos que invadem, ferem, desrespeitam a mulheres desafiam o sexismo a cada passo quando vadias decidem como se vestir, gemer, amar ou simplesmente gozar. Ser mulher é caminhar na contracultura. Transgredir é o verbo que se conjuga com a mulher porque não há outra forma de ser mulher senão como rebeldia.

Contra o cotidiano as flores não são vermelhas, amarelas, ou rosas, mas coloridas com um único tom. O tom quem dá é a vida que se reinventa no cotidiano opressor. No caminho rosa da delicadeza que não é fragilidade, mas cuidado. No caminho vermelho que não é sangue da vida alterada pela violência, mas é cor de esperança, luta. No caminho amarelo que é de sol que não oprime, mas ilumina. Na mulher a flor deve ser a vida que se manifesta nas cores que conjugam num só verbo luta e cuidado.

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Pacto Seletivo pela Vida: desvio de conduta é a fala do Secretário

Damazio

Durante toda a semana, uma série de matérias da jornalista Fabiana Moraes, do Jornal do Commercio, mostrou, a partir do mote dos 80 anos de Casa Grande e Senzala, o horror do abuso sexual de jovens negras e pobres no Recife, reproduzindo até hoje a cultura do domínio sexual do homem branco sobre as negras. Dentre os diversos casos denunciados os mais chocantes foram os de estupros cometidos por policiais militares, que deveriam proteger essas meninas, mas usam covardemente da força e da autoridade para agravar ainda mais a situação delas. Por si só, são dolorosos os relatos das meninas e de uma travesti adolescente e chamam atenção para o quadro alarmante de violência patriarcal em Pernambuco.

Para responder sobre a violência policial, o JC entrou em contato com Wilson Damázio, Secretario de Defesa Social do Governo de Pernambuco. Damázio, que recentemente ordenou prisões políticas, legitimou e coordenou a truculência policial contra a população que foi às ruas exigir melhores condições de vida, nessa entrevista nos brindou com a inaceitável frase “NÃO SEI POR QUE MULHER GOSTA TANTO DE FARDA”, reafirmando valores machistas e homofóbicos e defendendo, sem nenhum pudor e de forma debochada, o discurso violento de que a culpa é da vítima.

Desvio de conduta a gente tem em todo lugar. Tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu? Lógico que homossexualidade não quer dizer bandidagem, mas foge ao comportamento da família tradicional. Então, todo lugar tem alguma coisa errada…

aqui tem muitos problemas, com mulheres, principalmente… Elas às vezes até se acham porque estão com policial. O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil.. Eu não sei por que é que mulher gosta tanto de farda. Todo policial militar mais antigo tem duas famílias, tem uma amante, duas. É um negocio. Eu sou policial federal, feio pra c**.. a gente ia pra Floresta (Sertão), para esses lugares. Quando chegávamos lá, colocávamos o colete, as meninas ficavam tudo sassaricadas. Às vezes tinham namorado, às vezes eram mulheres casadas. Pra ela é o máximo tá dando pra um policial. Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em cima, é coisa de doido.”

O que está por trás das declarações repugnantes de Damázio?

Ora, além de provocar indignação e revolta, as declarações tornam nítida a forma de gestão da segurança pública em Pernambuco e o descompromisso do governo Eduardo Campos com a luta contra a violência patriarcal – que só é tratada na sua vertente doméstica, deixando de lado toda a gama de situações violentíssimas e de violação de direitos humanos de meninas e mulheres, como as abordadas na matéria do JC. O machismo institucional impregnado nas palavras do secretário é o mesmo que está presente na atuação da polícia. Assim, é conivente e legitima estupros, espancamentos e abusos cometidos por policiais nas noites do Recife. Além disso, o carro chefe do modelo de segurança, que é o “Pacto pela Vida”, terminou por incorporar em suas práticas, como a Patrulha dos Bairros, a violência policial contra meninas e mulheres negras. As palavras do secretário condensam a (não) política do governo de Pernambuco para as mulheres e, em última instância, reforçam a lógica de que a culpa da violência que sofrem é sempre das meninas e mulheres.

Do mesmo modo, estas declarações deixam indignados aqueles que acreditam numa sociedade mais justa, sem discriminação ou preconceitos baseados na orientação sexual ou identidade de gênero das pessoas. Um governo que instituiu uma Assessoria de promoção da diversidade sexual jamais poderia produzir afirmações de tamanha homofobia. Homossexualidade é um assunto bastante familiar, caro Secretário, e não deveria ser tratado como “coisa errada”, “Desvio de conduta” nem como desvio do “comportamento da família tradicional”. Tradicional deveria ser aquela família que cuida e respeita e não a que discrimina e exclui. Precisamos mudar muita coisa na forma como as instituições pernambucanas lidam com essa questão e, certamente, essa mudança começa no modo como entendemos o problema. Homofobia sim é “desvio”, “coisa errada”. Homossexualidade é tão somente experiência de prazer, afeto e vínculo.

Esta postura do Secretário não pode permanecer impune. Por outro modelo de segurança pública! Chega de violência policial! FORA DAMÁZIO! Damázios: Não passarão!


Assinam a carta até o momento:
ABONG
Articulação AIDS de PE
Assembleia Nacional de Estudantes- Livre
CENDHEC
Centro de Cultura Luiz Freire
Coletivo Toda Forma de Amar
Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas
CONLUTAS
CSP
Direitos Urbanos | Recife
Forum de Mulheres de Pernambuco
Forum LGBT de Pernambuco
Forum Pernambucano de Comunicação
Frente de Luta pelo Transporte Público de PE
Gajop
GEMA/UFPE
Instituto Papai
Juntos!
Marcha Mundial de Mulheres
Movimento Mulheres em Luta
Movimento Nacional de Direitos Humanos
Najup/UFPE
Partido Pirata – PE
PSOL/PE
RENAJU (Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária)

Recomendação do MPPE contra a proibição de máscaras em protestos

Saiu no Diário Oficial do Estado, do dia 12.09.13, recomendação conjunta das Promotorias de Direitos Humanos contra a proibição do uso de máscaras nas manifestações e contra o anonimato dos policiais. 

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RECOMENDAÇÃO No 003/2013 8a PJD-HC

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, com fundamento nas disposições contidas no art. 129, II, da Constituição Federal; na Lei no 8.625/93, art. 26, I e IV, e art. 27, I e II, parágrafo único, IV, combinados, ainda, com o disposto no art. 5o, I, II e IV, e art. 6o, I e IV, da Lei Complementar Estadual no 12/94, atualizada pela Lei Complementar no 21/98; nos autos do Procedimento Preparatório n.o 12006-1/8, apresente a seguinte RECOMENDAÇÃO, na forma que se segue:

CONSIDERANDO que o Ministério Público é defensor do Estado Democrático de Direito e da Constituição Federal Brasileira, a qual o defende a livre reunião dos indivíduos para manifestar-se em locais públicos, conforme disposto no artigo 5o, inciso XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”; Continuar lendo