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Direito à cidade: a geografia do Zika

por Érico Andrade Prof. Dr. Filosofia UFPE / ativista dos Direitos Urbanos ericoandrade@gmail.com

Tudo ainda está muito nublado no horizonte da ciência no que se refere à compreensão do fator causal ou dos fatores causais que ligam o vírus Zika aos casos de microcefalia. Isso é compreensível porque a ciência precisa de tempo, cautela e estabelecer padrões razoáveis de causalidade, ainda que padrões complexos. No entanto, o estudo publicado no New England Journal of Medicine tende a reforçar que há algum tipo de relação entre o vírus Zika o “surto” de microcefalia (entre aspas porque se deve considerar ainda as subnotificações de microcefalia antes da disseminação do Zika que impedem de falar de surto). O vácuo entre o momento em que a ciência ainda tateia respostas e a compreensível ansiedade em saber essas respostas tem sido um terreno fértil para teorias conspiratórias (vacinas vencidas teriam sido a causa do referido surto) e para hipóteses com poucas evidências (substâncias presentes nos larvicidas seriam responsáveis pelo surto).

Mas, onde está o solo comum entre essas teorias (muitas delas comprometidas muito mais com outros fatores do que com evidências científicas) e os dados, ainda primários, que temos do provável surto de microcefalia? A geografia do Zika cujas fronteiras são delimitadas pela pobreza. Sem dúvida, essa é a única resposta que temos e sobre ela repousam as mais variadas teorias. No Brasil, no Nordeste, em Pernambuco, em Recife, mais especificamente nos bairros Ibura, Cohab e Várzea, ou ainda, em certas regiões desses bairros a população carente é a mais atingida pelo referido surto. Com efeito, mais do que dar margem a teorias confusas e, em alguns casos, conspiratórias a geografia do Zika sublinha a fragilidade de nossas cidades e o equívoco de nosso processo de urbanização que relegou o direito à cidade a algumas poucas pessoas em cujas moradias não falta água e a coleta de lixo é feita com mais frequência. E ainda: mais evidente do que a correlação entre o vírus Zika e a microcefalia é a correlação entre as áreas com déficit agudo de saneamento básico e as regiões de maior circulação do mosquito; e também com um maior número de casos de microcefalia. Lembremos que o caso mais estudado e documentado até agora refere-se a uma gestante estrangeira que fazia trabalhos de assistência social numa região carente de Natal.

Embora urbano e próximo do nosso convívio e, por isso, possa picar de modo contingente pessoas em qualquer área de cidade, o aedes aegypti ganha espaço onde o urbanismo inexiste na sua condição de propulsor da vida na cidade. Nesses lugares, como mostra a geografia do Zika, ele não é um acidente ou anomalia, mas uma decorrência quase necessária da falta de esgoto, água (as pessoas com escassez de água precisam armazená-la) e coleta de lixo sobre o qual acumula-se a água. Independente de ser a única causa da microcefalia, o vírus Zika nos ensina dolorosamente que a divisão de classes, traduzidas por nossas cidade pela segregação urbana, nos leva a condições próximas das florestas mais hostis à vida humana e negam o próprio valor da vida urbana.