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Comunidade Pilar: quando o esquecimento fere

Érico Andrade. Ativista do DU, filósofo e professor da UFPE
ericoandrade@gmail.com

foto, pilar, 15

Resignadas a poucos metros cercados de papel, madeira, quando possível, alvenaria as famílias da comunidade do Pilar, também conhecida como Favela do Rato, resistem há década ao processo de gentrificação que mutila a cidade do Recife. Assim, a demolição de seis quadras pelo Porto do Recife em 1975, em que parte da população residente no Pilar foi desalojada, parece ter sido o prenúncio do constante martírio ao qual aquela comunidade, coberta pela invisibilidade, está submetida. Mais de 30 anos depois, em 2010, 468 famílias foram desalojadas na esperança de que o espaço onde moravam passasse, pela primeira vez, por um processo de requalificação. O que era para ser um curto e oneroso processo de espera pela realização do projeto transformou-se numa forma velada de desalojamento de centenas de famílias que estão há cinco anos sobrevivendo com um pífio auxílio moradia e longe do lugar onde garantiam a sua renda. Longe do Pilar. O sonho da casa própria virou um pesadelo longo e cortante; inimaginável para quem nunca teve como vizinhos ratos e lama; muita lama. No entanto, não apenas o sonho da casa própria está em jogo para a comunidade do Pilar. Há algo que fere a cidade como um todo.

O projeto de requalificação urbanística destinado à área do Pilar tinha a pretensão de ir além da superação da lógica de expulsão, remoção da comunidade, para um lugar distante. Ele tencionava instituir a valorização do patrimônio e a inclusão social, visando reconstruir o tecido urbano por meio do que lhe torna diverso, dinâmico e vivo, a saber, por meio da presença de diferentes atividades que congregam diferentes pessoas. A ideia do projeto era integrar comércio ao patrimônio (transformar ruínas num mercado público), construir escola de bairro (integrada ao cotidiano da comunidade), construir duas praças, construir um posto de saúde da família, valorizar o patrimônio (dando visibilidade para a Igreja, restaurada pelo Iphan, de Nossa Senhora do Pilar de 1660), e, o mais importante, repito, fazer circular pessoas por aquela área, por séculos, abandonada. O projeto foi traçado para tornar o Pilar um exemplo de regeneração do tecido urbano com toda a sua complexidade.

No entanto, o que era esperança não apenas para a comunidade, mas para o Recife esbarra numa construção lenta promovida pela prefeitura (de 2010 para cá apenas 88 unidades, de um total de 588, foram construídas) e, o mais grave, fragmentada. Essa fragmentação repousa no fato de que o posto de saúde, a escola e o mercado não ganharam nem seus primeiros alicerces. Com isso, a prefeitura não apenas impede a população de se apropriar do espaço que é seu de direito, uma vez que centenas de famílias ainda estão a espera de sua unidade, como embota completamente a possibilidade do Pilar passar a ser o lugar da esperança onde o urbanismo responsável – capaz de integrar as diversas funções da cidade num bairro – poderia ter conseguido desenhar seus primeiros traços.Comunidade Pilar: quando o esquecimento fere

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Discussão

Um comentário sobre “Comunidade Pilar: quando o esquecimento fere

  1. este projeto eh um equivoco nao tem sustentabilidade .
    e so um arranjo elitoreiro como outros junto a centros historico e ou com patrimonio tutelado .
    a tutela admistrativa pelo estado eh um controle errado do pratrimonio privado
    vide lei 10.257,e autores tais como silvia zuanela de prietro
    celso antunes bandeira de melo ,jose pessoa etc etc

    Publicado por paulo tadeu albuquerque | 29 29UTC julho 29UTC 2015, 19:53

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