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Democracia na rua: Ocupe Estelita

Por Érico Andrade,
ericoandrade@gmail.com
Filósofo e prof. Dr. UFPE / Ativista dos Direitos Urbanos

O que faltou na votação fraudulenta do projeto Novo Recife na câmara dos vereadores em 5 de maio de 2015 transbordou nas ruas do Recife, a saber, a legitimidade popular. Enquanto na câmara alguns poucos vereadores decidiram rasgar os devidos procedimentos legais e legislaram em função dos seus patrões (os que investem nas suas campanhas eleitorais), nas ruas as pessoas tomavam a cidade para si. Enquanto o prefeito sancionava um projeto irregular distante da cidade, espacializando a distância que guarda cotidianamente da cidade, pessoas tornaram viva a voz de quem é o fim e deveria ser também o meio da política, o povo.

O Recife das revoluções libertárias ganhou corpo heterogêneo que transitava por todas as idades. Gerações se encontram no espaço público para discutir a coletividade dos espaços da cidade. Protesto no Centro Comercial RioMar: tanto inusitado quanto sem completa unidade; próprio de um movimento horizontal, espontâneo e que se unifica no desejo de participar da decisão política sobre a cidade. Fizemos do nosso corpo um território político. Nosso corpo tornou coletivo o que era público: a rua; mesmo a rua que foi sequestrada pelo capital privado, como no caso do RioMar. Ocupar as ruas é uma forma de decentralizar o poder conferido às instituições que ditam o desenho urbano ao sabor do gosto individual e individualizante do mercado imobiliário. Ocupar o RioMar não apenas denuncia um projeto comum de gentrificação e, posteriormente, privatização dos espaços da cidade, que liga o RioMar ao Novo Recife, mas faz ecoar dentro, como diz Lucas Alves, da simulação do espaço público que é o shopping, sempre asséptico, padronizado e homogêneo – o oposto da cidade -, um grito por uma cidade para todas as pessoas e diferentes pessoas.

A indiferença do poder público em relação às manifestações, a tentativa dos vereadores de impedirem a entrada de pessoas e a sonegação de informações por parte da mídia mostram que ocupar as ruas deve ser o primeiro passo para 1) democratizar as instâncias públicas, retirar a concentração de poder dos vereadores e, consequentemente, das empreiteiras que lhes financiam, formando conselhos políticos com a presença de todos os setores sociais e com poder de veto e deliberação; 2) para tirar o poder dos vereadores de barrar a entrada da população naquilo que deveria ser a sua casa, isto é, a câmara dos vereadores; 3) para acabar com a farsa das audiências públicas; estéreis porque nelas somos apenas ouvidos para as atrocidades da prefeitura e não temos poder de rejeitá-las; 4) para democratizar a mídia e veicular outras percepções de mundo e de cidade.

Ocupar é um passo, mas precisamos transformar o ocupe em vigília permanente para que outros passos sejam dados no sentido de mostrar que a legitimidade da democracia se constrói nas ruas. Se os gregos erraram por restringirem a democracia aos homens com posses, nós ainda permanecemos num passo anterior quando achamos que a decisão de alguns vereadores pode representar a vontade da cidade.

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Discussão

Um comentário sobre “Democracia na rua: Ocupe Estelita

  1. Caro Professor Érico Andrade: fico honrado em perceber num homem de tal estatura um defensor sereno e arguto da dinâmica social e, num texto conciso, traçar um diagnóstico exato do movimento popular que ora se propõe, aos trancos e barrancos, a preservar os espaços públicos e seu acesso democrático! Obrigado!

    Publicado por Kleber Ferraz | 8 08UTC maio 08UTC 2015, 11:39

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