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Direitos Urbanos: a luta em rede

Érico Andrade

Filósofo e ativista dos Direitos Urbanos,

Prof. Dr. da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

ericoandrade@gmail.com

Anos de gestões que convertiam o discurso técnico em verdade política. A palavra técnico parecia homologar qualquer posição sobre a cidade. Não se discute sobre aquilo que tecnicamente está certo, diziam secretários e prefeitos. Construções autorizadas, cidade completamente dilacerada. Cisões que dividem o Recife e que sob o discurso da técnica tentam tornar irreversível a segregação da cidade entre pobre e ricos. Todas essas posturas foram condensadas no projeto Novo Recife. O discurso era claro e está presente no nome do projeto: o novo vem. Será apenas necessário abrir espaço. A cidade se abria para o capital imobiliário e se eclipsava para as pessoas. Com o Novo Recife o Recife era a cidade que fazia do novo a forma requentada de repetir o passado de segregação, exclusão e concentração de poder. A cidade em que só os que estão em cima sobem. A cidade que não quer misturar pessoas, que nega, portanto, a característica própria das cidades e que se transforma numa reunião desordenada de pequenas fortalezas com nomes de príncipes que nunca pisaram aqui ou que quando pisaram aqui foi para nos dominar.

O discurso que fazia da técnica o lugar da legitimação das formas mais segregadoras de urbanismo não poderia sonhar que a destruição das paredes e muros que contam a nossa história nunca terá força para apagar o ímpeto rebelde da cidade dos rios. Recife, não o morto, mas o das revolução libertárias ressurgiu quando nas redes sociais as discussões pontuais, que propunham soluções técnicas para alguns problemas da cidade, reconheciam no Novo Recife a síntese da cidade que não queremos. O Cais Estelita foi o que precisávamos para perceber que uma vez desenhado pelo capital imobiliário, sobre a anuência servil da prefeitura, o nosso Recife poderia nunca mais ser nosso. Reagimos.

Ninguém esperava que essa reação trouxesse como ponto principal a desconstrução do discurso técnico. Escrevemos, denunciamos, pedimos informações, protestamos, sorrimos e, sobretudo, lutamos para dizer, dentre outras coisas, que uma decisão técnica pressupõe uma tomada de posição política. Ninguém esperava que a sociedade pudesse se articular de tal modo que diferentes saberes, técnicos, pudessem se conjugar numa mesma plataforma política em defesa do direito à cidade. Como explicar que a conjunção de forças, pulverizadas, dispersas e materializadas na forma de alto grau de conhecimento técnico, poderia se transformar num grupo político sem burocracia, sem estrutura física, mas com o poder de suspender obras milionárias e mudar os rumos da política de Recife. As redes sociais certamente ajudaram. Elas, aliás, ajudam. Mas o grupo Direitos Urbanos conseguiu transformar as redes sociais numa nova trincheira em defesa da cidade.

Três anos de luta que trouxeram à lume a raiz comum da falta de mobilidade, da falta de saneamento básico, do crescimento desordenado, da violência e dos demais problemas da cidade. Essa raiz responde pelo nome falta de participação popular nas decisões sobre a cidade. Com o grupo Direitos Urbanos o desejo de desejar cidades ganhou corpo nos nossos corpos que ocupam fisicamente a utopia de uma cidade para todas e todos. O grupo Direitos Urbanos é parte do Recife que desejamos porque nele o nosso sonho pode caber dentro de um Cais. Vida longa ao DU, vida longa ao Recife.

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