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Por uma possível genealogia das resistências culturais

Por Beto AzoubelIMG_4854

Uma matéria publicada nesta semana no jornal O Globo gerou uma recepção controversa entre os amigos recifenses. Seu título: “Produção cultural do Movimento Ocupe Estelita ganha fôlego no Recife e já é chamada de ‘novo mangue beat’”. Um enunciado um tanto sensacionalista (nada diferente do que é de costume nos nossos grandes veículos de comunicação – eles sempre precisam vender algo) e um conteúdo que desencadeou leituras variadas. Boa parte delas trataram de se ater a comparações na “exegese” (esclarecimento ou minuciosa interpretação de um texto) das produções culturais de uma ou de outra movimentação. E aí, como não podia deixar de faltar nas discussões estéticas, a questão do valor veio à tona. Cheguei a ler em um comentário de um post de um amigo: “qual a produção artística fruto do Estelita tão relevante quanto qualquer coisa do Manguebeat?”. Entendo a sedução das comparações e a própria matéria pode ter induzido a tais balanças.

No entanto, creio que o texto, escrito pela jornalista Mariana Filgueiras, no leque de suas livres leituras, aponta em direção de um caminho precioso ao se insinuar para uma possível construção genealógica das resistências culturais do Recife. Se esticarmos essa corda no sentido de um passado recente passaremos pelos poetas marginais, pelos coletivos das artes visuais, pelo movimento Super-8 dos anos 70, pelo Vivencial Diverciones, ali no limite das cidades-irmãs…

Retomando os dois exemplos de movimentações culturais em questão (Mangubeat/Ocupeestelita), para além das discussões de mérito/valor da “carne” (conteúdo) de seus “textos” (suas produções culturais), consigo perceber semelhanças bastantes relevantes como a pegada urbana, o olhar cosmopolita, a transformação do espírito da cidade, o grito de pessoas sem vínculos com poder local… Aspectos que são sim essencialmente políticos – e aqui faço coro aos que criticaram o depoimento do músico China na matéria nos comentários do post do grupo Direitos Urbanos que veiculou o texto em questão – e extremamente importantes na construção do espírito de insubordinação e insurreição do velho Recife. No entanto, como colocou o Rud Rafael, citando o filósofo esloveno Slavok Zîzek, num dos comentários da postagem que acabo de mencionar, é preciso que “estejamos atentos: ‘não nos apaixonemos por nós mesmos’”. Há muita água a correr por nossos rios. Ainda que tudo isso (essa genealogia) seja realmente bonito pra danar. (Ocupar e) Resistir é o que nos une.

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