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Controladores de trânsito: a carrocracia nossa de cada dia

EricoAvatarÉrico Andrade

Filósofo e ativista do Direitos Urbanos

Professor da UFPE

Segundo o portal de Olho no Trânsito, a prefeitura do Recife gasta R$ 15,9 milhões por ano, uma média de R$ 1,3 milhão por mês, para manter a estrutura dos “controladores de trânsito”. A função desses controladores consiste basicamente em tentar diminuir o tempo de deslocamento dos carros. Para isso, eles ficam em cruzamentos importantes e tentam evitar que pessoas, aliás, carros, fechem as ruas. Dessa nova política milionária temos como resultado a destruição de uma visão sistêmica do trânsito. Os controladores de trânsito aceleram o trânsito incitando o desrespeito generalizado. Afinal, o trânsito não pode parar. Eles fixam seus olhares nos carros. Permitem que carros acelerem mesmo numa área pela qual circulam pedestres. Seus olhos se desviam dos ônibus para deixarem os carros, vários carros, passarem na frente dos ônibus. Olhos bem fechados quando se trata de usar o apito para educar os motoristas que avançam nas ruas, invariavelmente sem faixa de pedestres, para cima dos transeuntes e dos ciclistas.

Milhões de reais para endossar que o trânsito se reduz à circulação de carros e que o seu grande problema é o engarrafamento. O ponto é que aferir a qualidade do trânsito pela diminuição do engarrafamento é sinal de uma política pública duplamente falha porque, por um lado, esquece-se que carros, como diz Leonardo Cisneiros, funcionam como gás, isto é, quanto maior o espaço que damos para eles mais eles ocupam espaços, espaços públicos. Por outro, é falha porque quando confunde a qualidade do trânsito com o aumento da velocidade dos carros, ela incentiva o elemento mais decisivo para a falta de qualidade no trânsito, qual seja, a alta velocidade dos veículos motorizados; a maior responsável pela quantidade exorbitante de mortes e lesões no trânsito. Nesse contexto, regular o trânsito em função da diminuição do tempo de deslocamento por carro é uma péssima política de disfarçar uma problema sem solução, visto que os carros são o engarrafamento. Eles são o problema. Quanto mais carros, mais engarrafamentos. Políticas como a dos controladores de trânsito apenas dificultam a percepção desse diagnóstico porque alimentam a falsa ideia de que é possível resolver o problema do engarrafamento, quando na verdade o engarrafamento não é um problema, mas é um termômetro que mostra uma das inevitáveis consequências do uso generalizado do transporte individual motorizado, o aumento do tempo de deslocamento.

Nesses termos, a nova política para o trânsito de Geraldo Júlio é uma velha prática de manter o privilégio social da classe dominante, visto que ela distribui os custos sociais com todas as pessoas – poluição sonora,visual, atmosférica, gastos com vítimas e vias – e concentra os recursos públicos em políticas que beneficiam apenas uma pequena parte da população que pode usar carros e que lucra com o aumento da velocidade dos seus deslocamentos. Todavia, mais do que falha a nova política de Geraldo Júlio para o trânsito é duplamente perversa. É perversa porque ao invés de investir na pintura de faixas de pedestres (praticamente inexistentes em cruzamentos), sinalizações adequadas às pessoas com deficiência e campanhas educativas em locais em que ocorrem os acidentes, cujo custo global é muito menor do que o investimento feito nos controladores, ela investe milhões de reais para financiar o privilégio de quem já é privilegiado e é o verdadeiro problema do trânsito, a saber, o transporte motorizado individual. Ela é perversa também porque só destina dinheiro, muito dinheiro (2 milhões de reais em associação com a marca Itaú) para modais, historicamente oprimidos, como a bicicleta quando é para financiar o prazer da classe média que desfila nos feriados nas mesmas ruas onde são assassinadas milhares de pessoas anualmente vítimas do trânsito.

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