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Quanto vale a história de uma cidade?

Engenho e fábrica de Camaragibe à mercê das construtoras

Fábrica de Camaragibe

Fábrica de Camaragibe

Pode não parecer, mas esta é uma fábrica: a antiga fábrica de tecidos no município pernambucano de Camaragibe, onde um grupo de empresas, sob o nome Consórcio “Reserva Camará”, está implantando um grande empreendimento imobiliário. Sobre o terreno de 26 hectares em que está a fábrica do século XIX, planejam fazer um megaprojeto de shopping center, estacionamento e vinte e tantos arranha-céus (22 residenciais, dois empresariais e um hotel) com muitas caixas de garagem. Um centro educacional em forma oval, de uma conhecida rede privada de ensino superior, ocuparia o lugar da fábrica. Como de costume, o projeto é vendido como um grande presente para a cidade, uma promessa de modernidade que esconde sérios problemas.

Camará

Projeto Reserva Camará (divulgação)

A fábrica de tecidos foi construída nas terras do Engenho Camaragibe, que data de 1549. Marco da fundação da cidade, a casa grande do engenho, mais conhecida como Casa de Maria Amazonas, é o seu maior símbolo, reconhecido como patrimônio histórico pela FUNDARPE e em processo de tombamento federal pelo IPHAN. Não mais que 150 metros separam o casarão grande da área onde querem construir os prédios.

Com a implantação da fábrica, Camaragibe transformou-se em cidade e município independente de São Lourenço, deixando de ser apenas parte da economia da cana-de-açúcar. É parte fundamental da história da cidade e uma construção marcante de arquitetura industrial. Seus tijolos foram feitos em olaria própria, construída em 1890, da qual resta apenas a chaminé, destruída em uma das ampliações da fábrica e hoje destinada a enfeitar um estacionamento.

Fábrica de Camaragibe no início do XX

Fábrica de Camaragibe no início do XX

A Companhia Industrial de Pernambuco criou, junto com a fábrica, uma das primeiras vilas operárias da América Latina. A Vila da Fábrica, planejada pela empresa, era um bairro residencial com os serviços urbanos essenciais: saneamento básico, abastecimento, saúde, serviço religioso e educacional. Tinha até um prédio para quem não era casado: a “República dos Solteiros”, que se mantém de pé até hoje. Foi a partir da fábrica que a cidade cresceu, trazendo a fundação de outras vilas, como a Vila Nova, na década de 1940.

A fábrica foi marcante também em sua organização e no legado social que deixou. Carlos Alberto de Menezes, primeiro diretor da fábrica, inscreveu no estatuto da companhia princípios de cunho cristão que conferiam benefícios aos operários, estimulou a vinda de religiosos para preparar trabalhadores para a indústria têxtil (e fundar o Colégio Salesiano no Recife), e promoveu a criação da Corporação Operária de Camaragibe, cujo pioneirismo no Brasil trouxe a visita do presidente Afonso Pena em 1905. Da organização operária iniciada na fábrica de Camaragibe surgiria a primeira legislação sindical urbana do Brasil, o decreto 1.637 de 1907.

Foto antiga da Vila da Fábrica com a República dos Solteiros à direita

Foto antiga da Vila da Fábrica com a República dos Solteiros à direita

Segundo Plano Diretor de Camaragibe, a área do empreendimento está em Zona de Requalificação Urbana,que “compreende o Centro histórico-cultural do Município, e seu entorno, (…) apresentando características de degradação e risco de perda deste patrimônio”. Por isso, quase todas as diretrizes desta zona referem-se à preservação do patrimônio histórico-cultural, a saber: “a conservação integrada do patrimônio histórico-cultural incluindo ações específicas de proteção e preservação que compatibilizem uso e manutenção do acervo do patrimônio cultural municipal”; “o aproveitamento econômico sustentável do patrimônio cultural”; “a integração das ações públicas e privadas destinadas à proteção do patrimônio cultural existente”; “a sensibilização da comunidade local, dos proprietários e possuidores de bens de valor cultural, sobre a importância da conservação da identidade local para o desenvolvimento sustentável do município”; “a integração entre a educação pública municipal e as iniciativas de proteção ao patrimônio cultural“.

Praça_de_Maria_Amazonas

Casa grande do engenho Camaragibe vista da Praça Maria Amazonas

Maquete do projeto que mostra impacto sobre a paisagem

Maquete do projeto que mostra impacto sobre a paisagem

Ao invés de valorizar o patrimônio da cidade, como ordena o Plano Diretor, o Consórcio “Reserva Camará” quer cercar de altos prédios a fábrica, destruir sua planta original e deixar apenas duas fachadas como duas faces de uma caixa de presente, uma bricadeira de mau gosto com as boas práticas de preservação. Achando pouco, ainda inserem arranha-céus na paisagem mais emblemática de Camaragibe, por trás da casa grande do Engenho Camaragibe, uma perspectiva que nunca é mostrada na propaganda do projeto (maquete do projeto ao lado).

Parte da esperança reside na Fundarpe, onde foi protocolado recentemente um pedido de tombamento da planta original da fábrica, com um polígono de preservação em seu entorno. A iniciativa é semelhante ao pedido do grupo Direitos Urbanos e de moradores do bairro da Torre, no Recife, que solicitaram ao órgão o tombamento do Cotonifício da Torre quando construtoras pretendiam ali construir mais de uma dúzia de torres e um shopping center. Nada impede, entretanto, que parta dos empreendedores e projetistas a iniciativa de fazer algo integrado à memória e às particularidades locais.

As cidades brasileiras, e em Pernambuco não é diferente, têm sido reféns de megaprojetos que prometem desenvolvimento atropelando a legislação urbanística e ambiental, esquivando-se da participação popular e da transparência, muitas vezes revelando arranjos público-privados nada impessoais. São projetos que geralmente ampliam a exclusão social, criando redutos de riqueza segregados do tecido urbano preexistente, e que se apoiam em paradigmas arcaicos de urbanismo, como o da mobilidade rodoviarista e carrocêntrica ou dos condomínios apartados do convívio social, cercados de desertos urbanos (ainda que “verdes”). Como no caso do projeto Novo Recife, no Cais José Estelita, grandes empresas se apropriam de espaços de interesse público e vendem privilégios que deveriam ser de usufruto comum, como as vistas para as belas paisagens de corpos d’água, áreas vegetadas e monumentos históricos.

Tombamento

Proposta de tombamento com base na planta original da fábrica, disponível na Fundação Joaquim Nabuco

Exemplos de aproveitamento comercial de instalações industriais preservadas não faltam: da LX Factory, em Lisboa, ao SESC Pompéia, em São Paulo, e à Fábrica Bhering, no Rio de Janeiro. Mesmo do ponto de vista imobiliário, é possível conciliar e até aumentar o lucro preservando o patrimônio histórico e ambiental. Para isso, é preciso que o poder público, a começar pela Prefeitura de Camaragibe, a Fundarpe e o IPHAN, assuma a responsabilidade pela resguardo da memória e pela gestão democrática das cidades.

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