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Uns mais iguais que outros

por Érico Andrade (Doutor em Filosofia pela Sorbonne, prof. UFPE e ativista do DU)

ericoandrade@gmail.com

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Duas atitudes antagônicas perpassam a morte de um político de expressão na democracia representativa. Por um lado, a comoção geral materializada em gestos de compaixão e, em alguns casos, de desolação como se a sua morte fosse equivalente à morte de uma pessoa próxima. Mais do que o respeito abata-se o luto sobre essas pessoas, muitas delas perplexas e realmente chocadas. Por outro, atitudes que revelam um esforço de ser indiferente ou mesmo de capitalizar politicamente a morte por meio da denúncia de posições políticas controversas, talvez mesmo autoritárias, que o político sustentara ainda em vida. Uma morte trágica potencializa essas duas posições. Foi o que aconteceu com a morte de Eduardo Campos.

Num lado do processo algumas pessoas ditas politizadas insistem em reafirmar, de diferentes modos, que a morte do político é igual à morte de qualquer outra pessoa. Pergunto-me como, numa democracia representativa, em que uma pessoa que concentra em si a vontade de várias outras, milhares, milhões na forma da representação política, poderíamos dizer que a morte de um político pode ser igual à morte de pessoas com as quais nunca tivemos contato. Se a sua morte fosse igual a qualquer outra, não seria necessário torná-la um fato político. Isso, de algum modo, explicita que o óbito do político, no contexto da democracia, representativa revela alguém mais próximo da gente do que uma pessoa morta num lugar distante, visto que a concentração de poder que o político tem, torna-o inelutavelmente parte de nossas vidas.

A comoção generalizada é o outro lado do processo. A sociedade de espetáculo assimila a democracia representativa como mais um espetáculo em que os políticos quando mortos, especialmente de modo trágico, transformam-se em celebridades. As suas falhas são expurgadas e as suas ideias são minguadas, ainda que retrógradas, em face do seu lado humano que só a morte tem o poder de mostrar. Procura-se famílias, amigos e todas as formas de testemunho que despolitizem o político para que ele possa descansar em paz nos braços da fama potencializada pela onipresença do silêncio, da morte. Nesses casos, o purgatório é feito aqui na terra. Se despolitiza a pessoa para dar vazão ao mito. A morte livra o ser humano das suas contradições. Quando morto o político não representa nada, nem erros, nem acertos, apenas ideias vagas. Muitas delas tão unânimes quanto vazias como o slogan: não vamos desistir do Brasil.

O que é estranho não é que a gente chore por um adversário político em detrimento do padecimento pelas pessoas que ele oprime, que nem conhecemos ou apenas conhecemos na forma de estatística. Chorar por essas pessoas que não conhecemos ou de quem nunca compartilhamos a mesma realidade exigira uma grau de abstração ou mais precisamente uma atitude asceta, como costumava pontuar Nietzsche, que só um cristão fervoroso, que pressupõe o poder messiânico de velar por todos e todas, estejam onde estiverem, poderia ter. Por outro lado, a existência de um choro seletivo revela, ainda que tacitamente, o poder de uma forma de organização política em que a criação de mitos é proporcional à alienação da vontade política que é delegada a algumas pessoas, poucas pessoas. Essas duas atitudes mostram que num sistema de democracia representativa nos afastamos mais uns dos outros, deixamos de frequentar o espaço público e de criarmos espaços de decisões coletivas, em que todos e todas podem participar de modo similar, para nos aproximarmos de mitos, pessoas intangíveis que só se revelam humanas quando a humanidade aflora na forma de nossa condição mais própria: a morte.

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Discussão

5 comentários sobre “Uns mais iguais que outros

  1. Que seja. Mas para algumas “Esquerdas” e tendências a, a morte de Eduardo Campos serviu para repolarizar a disputa presidencial entre o PT apoiado pelas tendências neo esquerdistas da classe média ( famosa e emergente “Esquerda Caviar” ) e o PSDB , a velha direita , da qual o PT copiou o programa de governo com algumas alterações mal feitas. Isso é lamentável e prejudicial a democracia , isso sufoca a alternância de poder e polariza a eleição . Mas equivoca se muito quem pensa que Eduardo foi um ponto final . Acredito , agora tem mais força . A história se repete.

    Publicado por Moishe | 19 19UTC agosto 19UTC 2014, 14:13
  2. Apesar de ser um político autoritário, prepotente, personalista, truculento e, principalmente, ingrato e ambíguo, não merecia isto. Triste fim de Eduardo Campos: no final foi reduzido a um souvenir de campanha.

    Publicado por Antônio | 21 21UTC agosto 21UTC 2014, 23:18
  3. Cada um tem a viagem que se lhe aprovem.

    Publicado por A Tal Mineira | 27 27UTC agosto 27UTC 2014, 11:00
    • Foi necessário que o político, Eduardo Campos, morresse para que pudêssemos conhecer melhor sua personalidade. Ocorre que eu só conhecíamos o político através de suas ações públicas, mas graças as pessoas que, com certeza, compartilhavam de sua intimidade nos revelam uma outra face deste governante que teve a aprovação de 83% de seus governados como sendo, PERSONALISTA, TRUCULENTO, INGRATO, AMBÍGUO, AUTORITÁRIO, PREPOTENTE (deve ter faltado espaço para mais adjetivos ou o repertório esgotou).

      Mas concedemos que só uma pessoa muito íntima pode falar com tanta autoridade sobre outra pessoa, claro, e não temos como não dá crédito .a esta pessoa, mas supondo que se trate de algum desafeto do falecido candidato, devemos, mesmo, levar a sério estas afirmações?

      Mas o que dizer da autoridade do filósofo e das suas tão bem elaboradas reflexões? A minha opinião é que o filósofo é como o crítico, aquele cara que não sabe fazer nada a não ser botar mal gosto em tudo. e parece que a história corrobora este pensamento, vejamos: Platão que achava que quem deveria governar era os filósofos ele teve a oportunidade de provar que sua teoria estava certa. Foi convidado então para implantar em Siracusa o seu “programa de governo o rei-filósofo”. O tirano Dionísio I que havia concedido a carta branca para que Platão implantasse o tal “programa” não só baniu o filosofo como o vendeu como escravo para se ressarcir de parte dos prejuízos causados a nação pelo seu “programa o rei-filósofo”.

      Publicado por Marcos | 5 05UTC setembro 05UTC 2014, 13:33
  4. Parabéns pelo texto Érico! Lúcido, coerente e revelador das disparidades do estar vivo e do morrer.

    Publicado por Liana Lewis | 4 04UTC setembro 04UTC 2014, 07:06

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