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O horizonte vertical ob-scenus: A ameaça de destruição de uma Paisagem-postal no coração do Recife

Por Lúcia Maria de S. Cavalcanti Veras

Arquiteta e urbanista, doutora em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco

Mais do que um Cartão-postal, a borda de São José, no centro histórico do Recife, é uma Paisagem-postal. Paisagens-postais são aquelas que identificam cidades. Esta identificação não está expressa na paisagem em si, mas na relação de apreensão entre o sujeito que a observa e a paisagem que se deixa observar, entre o sujeito que a transforma e a paisagem que se deixa transformar, no sujeito capaz de pensá-la ao reunir a dispersão dos dados sensíveis e manter em si a conexão das coisas que a revelam como paisagem. Quando as paisagens afiançam as nossas intenções, é porque nos tocam profundamente e descobrimos em nós o complemento daquilo que percebemos, como parte do fio das coisas que as tecem. Se este sentimento é partilhado coletivamente, não estamos mais diante de um Cartão-postal, mas diante de uma Paisagem-postal. Assim, se o cartão-postal congela no segundo da fotografia aquilo que foi capturado pelo olhar sensível, a paisagem que foi registrada revela, para além da imagem do segundo fotografado, a apropriação dos lugares em camadas de tempo sobrepostas, próprias da cultura.

Esta compreensão de paisagem foi trabalhada em minha pesquisa de doutorado desenvolvida na Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE e defendida em fevereiro de 2014, intitulada Paisagem-postal: a imagem e a palavra na compreensão de um Recife urbano. Fruto de inquietações sobre a transformação brutal da paisagem do centro histórico do Recife me questionava sobre o porquê da não existência de uma legislação urbana que protegesse, de fato, estas paisagens singulares, ainda que no Código Municipal do Equilíbrio Ecológico da Cidade do Recife (Lei 16.243/96), dois dos seus artigos considerassem de proteção imediata “áreas de excepcional beleza, interesse paisagístico, histórico e estético-cultural”, devendo por isso ter seu descortino assegurado.

Muitas são as paisagens-postais recifenses que merecem ser protegidas, mas apenas São José e Santo Antônio revelam a origem mais pretérita da cidade do Recife, que pelas lonjuras do olhar, se apreciava no perfil renascentista mantido nas bordas de São José. Sob este ponto de vista, independentemente de uma classificação histórico-temporal, a transformação porque passam estes bairros foi definida em três recortes de paisagem nesta pesquisa: o Horizonte nostálgico, que ressalta um Recife saudosista e sentimental destacado pelos memorialistas que encontraram na arquitetura, na relação da cidade com as águas e no burburinho do cotidiano o recorte que se estendeu até o início do século XXI; a Verticalização deslocada, que revela, a partir de 2005, o início da transformação de uma paisagem predominantemente horizontal com a construção dos Píers Duarte Coelho e Maurício de Nassau contrastando a verticalidade na horizontalidade da paisagem e por fim, o Horizonte vertical ob-scenus, aquele que há por vir com a aprovação em 2012 do Projeto Novo Recife, quando o conceito adotado no Projeto deixa de se referir ao histórico São José e surge fora do lugar, deslocado para outros territórios ao compor uma paisagem fora-de-cena e, portanto, ob-scena.

Tomando a Imagem e a Palavra como categorias de extração da noção de paisagem, foram entrevistadas 78 pessoas, entre arquitetos, legisladores, empreendedores, fotógrafos, cineastas, pintores, geógrafos, historiadores, produtores culturais e moradores do bairro de São José e da cidade de Olinda. Compreendendo a importância e responsabilidade dos arquitetos na construção da cidade, estes foram maioria entre os entrevistados, em um total de 42, que corresponde a 54%. Os exercícios de Paisagem pela Imagem desencadearam a captura na noção de Paisagem pela Palavra e as Fotopinturas (pinturas produzidas sobre uma fotografia dada do Cais José Estelita, para que o entrevistado expressasse sua compreensão e desejo de paisagem), em especial, revelaram, de forma inusitada, paisagens desejadas, compreendidas e defendidas pelos entrevistados. Para cada Fotopintura um slogan sintetizava em palavras, o que o entrevistado criava pelas imagens. Com a possibilidade de eliminar, inserir, conservar e ressaltar a natureza sobre uma fotografia de borda de São José foram eliminados edifícios ou parte deles, inseridos outros edifícios, apontadas a criação de parques lineares, praças, mirantes e ancoradouros, com ênfase à presença da água. O Recife anfíbio apontado nas Fotopinturas revelou a natureza encharcada do recifense, comprovada no desejo de cerca de 60% dos entrevistados pela criação de uma Linha de Borda acessível e pública, que permita a chegada da cidade às suas águas e o encontro de pessoas. Neste caso, foi reforçada a importância do burburinho do comércio popular de São José, que se manifesta na linha de chão, reconhecido como um de seus patrimônios que deveria ser conectado à chegada às águas, trazendo esta efervescência às bordas do estuário. A Figura 1 a seguir ilustra esta intenção.

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 Figura 1- Fotopintura: “Renovar a história, compartilhando o Cais”

Em relação à arquitetura, três tempos de paisagem foram definidos: o Tempo 1 – a Paisagem do Retorno ao Século XIX com a eliminação de todos os edifícios modernos, inclusive o conjunto da Guararapes e edifícios da Avenida Dantas Barreto, o que correspondeu a 10% dos entrevistados; o Tempo 2 – a Paisagem do Diálogo, que correspondeu predominantemente ao que se manteve até o Século XX, equivalente a 70% dos entrevistados e o Tempo 3 – a Paisagem da Imposição Vertical, que correspondeu aos que desejam uma borda verticalizada a exemplo dos edifícios já construídos, equivalente a 20% dos entrevistados. As imagens a seguir ilustram estes três Tempos.
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Figura 2 – Fotopintura:“Por um Recife horizontal” (Tempo 1 – 10%)

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Figura 3 – Fotopintura: “A cidade é a construção de uma temporalidade onde está futuro,
passado e presente (Tempo 2 – 70%)

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Figura 4 – Fotopintura: “O moderno e o antigo em sintonia” (Tempo 3 – 20%))

Foram então dois desejos explicitamente consolidados: manter a paisagem de borda com o gabarito que se consolidou até o início do século XXI (Tempo 2) e permitir, com a criação de espaços lineares de borda, o acesso público de um São José que possa chegar às águas. Para um entrevistado, pintor, o Recife precisa voltar a “ter delicadeza” e respeitar as pessoas e para um historiador, só a contemplação que um lugar público generoso que permita o encontro e o lazer poderá “multiplicar a beleza”. Estas Fotopinturas possibilitaram que fosse analisada a Arquitetura, a Linha de Borda, a Intervenção mais Relevante e a Natureza na Paisagem. Os resultados estão expressos na Tabela da Figura 5.

 

Arquitetura

(skyline)

 

Linha de Borda

(landline)

 

Intervenção mais Relevante

(skyline e landline)

 

 

Natureza na Paisagem

(skyline e landline)

               
 

Paisagem do retorno (XIX)

 

 

10,3%

 

Sem passeio

 

36,0%

 

Arquitetura

(skyline)

 

33,5%

 

Céu e água

 

74,5%

 

Paisagem do diálogo (XX)

 

 

70,5%

 

Com passeio público

 

59,0%

 

Linha de Borda

(landline)

 

56,5%

 

Céu

 

5,0%

 

Paisagem da imposição vertical (XXI)

 

19,2%

 

Com passeio restrito

 

5,0%

 

Sem inserir novos elementos (skyline)

 

10,0%

 

Água

 

19,0%

             

Sem céu/nem água

 

 

7,0%

               
Arquitetura 100,0% Linha Borda 100,0% Inter. mais Relevante 100,0% Natureza 100,0%

 

Figura 5 – Síntese das Fotopinturas: arquitetura, linha de borda,
intervenção mais relevante e natureza na paisagem.

Tomando a Imagem e a Palavra vinculadas à arte e à vida vivida necessários à compreensão de Paisagem, a pesquisa trabalhou outros exercícios de imagem como o dos Cartões-postais, quando foram apontadas outras potenciais paisagens-postais do Recife. Do conjunto dos resultados, quatro constatações principais se destacam: (i) a de que a arquitetura dos monumentos de valor histórico em São José e Santo Antônio é uma paisagem-postal que exclui os modernos edifícios; (ii) a de que a vida vivida que se manifesta na linha de chão alimentada pelo comércio popular em São José e Santo Antônio também é uma “paisagem-postal”, apesar dos modernos edifícios e da ausência do planejamento público;(iii) a constatação de que é possível extrair a paisagem da vida vivida por um método de captura que envolva a arte e a vida vivida, incorporando-a ao planejamento e à gestão urbana, cabendo aos arquitetos compreender os limites da legislação e extrapolar a possibilidade de inserir a compreensão de paisagem no ato de pensar e projetar a cidade e por fim,(iv) a de que, entre os entrevistados, o olhar privilegiado dos cineastas que justapõe “imagens” e “palavras” revela, como découpagens cinematográficas, a forte referência de que essa “paisagem-postal” encarna a história da cidade e das pessoas e que sob este aspecto, os modernos edifícios, não comparecem às suas lentes.

Talvez por isso, o jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues considerasse que a paisagem é um hábito visual que só começa a existir depois de 1.500 olhares. Hoje, movidos pelo #OcupeEstelita, movimento promovido e organizado pelo grupo Direitos Urbanos | Recife, muito mais que 1.500 olhares consolidam o Cais José Estelita e o Bairro de São José como uma paisagem consolidada e apropriada pela população recifense, que reconhece o Projeto Novo Recife, no coração da cidade, como um projeto fora-de-lugar, fora-de-cena e portanto, esteticamente e eticamente ob-sceno.

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