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Sobre a acusação de partidarização do #OcupeEstelita

Post no grupo Direitos Urbanos|Recife sobre acusações difusas de que o Movimento #OcupeEstelita é um movimento partidário.

Tá começando a rolar aqui e ali um papo de que as críticas ao Projeto Novo Recife são uma ação partidarizada, que as críticas são partidarizadas, que isso é coisa do PT etc. Soube, inclusive, que teve secretários municipais defendendo isso em reunião com o prefeito e que foram vencidos por aqueles que, dentro da gestão, entenderam a novidade política do Movimento ‪#‎OcupeEstelita‬ e do Direitos Urbanos. Parte da impressão de assimetria nas críticas pode ser porque muita gente entrou recentemente no grupo e não acompanhou nossa mobilização em 2012, mas tenho a firme impressão de que grande parte dessa crítica já vem de um contra-ataque dos alvos de nossas críticas, que querem tentar deslegitima-las já que não podem responde-las. Nada de se duvidar quando se sabe que a campanha de Eduardo Campos contratou uma grande claque virtual. Mas, mesmo assim, pontuo algumas coisas aqui em relação a essas críticas:

1. A CULPA sobre o Projeto Novo Recife (PNR) é compartilhada: antes dele existia o projeto Recife-Olinda (PRO), muito melhor que essa porcaria de agora, ainda que não perfeito, articulado entre a Prefeitura de João Paulo (PT), o governo de Jarbas (PMDB do DEM) e a presidência de Lula (PT). Esperava-se que o governo do Estado comprasse o terreno à RFFSA e o ministério das cidades fez o que pode para atrasar sua venda para que ele servisse ao PRO, mas, quando Eduardo assumiu o governo em 2006, desarticulou o PRO e não efetuou a compra do terreno, sem exercer o direito de preferência previsto em lei. Depois disso, João Paulo abriu o caminho para permitir o PNR, ao limitar unilateralmente e contra a Conferência da Cidade a validade do Plano Diretor só para projetos protocolados depois de 31.12.2008. Também negociou algo do projeto antes mesmo de seu protocolo. O protocolo irregular, que queremos cancelar, data do final do mandato de João Paulo. O prefeito sob o qual a maior parte da tramitação ocorreu foi João da Costa (PT) e sob sua batuta ocorreram as principais ilegalidades questionadas na Justiça, inclusive a famigerada reunião do CDU. Ele foi esculachado pelo grupo, enxovalhado. Não se diga, a não ser por DESCONHECIMENTO OU POR MÁ-FÉ, que o prefeito do PT foi poupado das críticas. Nós batemos muito mais em João da Costa do que chegamos a bater em Geraldo Julio. Para eliminar o desconhecimento, aqui estão alguns links que provam como o tratamos à época:

– https://direitosurbanos.wordpress.com/2012/11/28/o-despreparo-e-destempero-de-joao-da-costa/

– http://acertodecontas.blog.br/artigos/57898/

– https://www.youtube.com/watch?v=EdByuhjIde8

2. NO ENTANTO, na primeira reunião do CDU sob a gestão de Geraldo Julio (PSB), a ata da reunião irregular, na qual, dentre outras coisas, houve conselheiros que não foram convocados, FOI APROVADA. Além disso, foi na gestão de GJ que se discutiu por mais de um ano as mitigações do projeto e foi nela que se fez o licenciamento ambiental. Foi a gestão de Geraldo Julio que emitiu a licença de demolição IRREGULAR e FRAUDULENTA que levou à demolição do dia 21.05. Ele tem sim sua parcela de contribuição na sequência de atos irregulares que compõem a análise do Projeto Novo Recife.

3. Mais importante do que tudo: É GERALDO JULIO que tem a caneta na mão. Falar somente de CULPA, de relação causal, é uma estratégia para desviar o foco e isentar de responsabilidade quem a tem. Jarbas também tem culpa: pela lei de uso do solo de 1996, que vem, há 18 anos, permitindo o estupro da cidade do Recife e que, dentre outras coisas, rege o modelo adotado no Novo Recife. Mas importa mais discutir RESPONSABILIDADE. E quem a tem agora é o Prefeito Geraldo Julio. Além do fato de ter contribuído sim para a aprovação do projeto, é ele quem pode decidir sobre sua continuidade e sobre o futuro da cidade. A bola está com ele e, como dissemos, ele vai entrar para a História, só resta decidir como.

4. Partidos estão aí para serem criticados e avaliados por suas ações, pelo seu programa e pela relação entre aquelas e este. Não tem como tratar como uma mera coincidência o fato de que um mesmo partido ocupa as cabeças dos executivos municipal e estadual e que o executivo estadual atropelou um processo de negociação do executivo municipal. Não tem como isolar da avaliação disso as doações de campanha, a reunião do governador com as empreiteiras, as ações da gestão municipal pró-empreiteiras.. Os caras disputam eleições sob siglas de partidos, que têm, mal ou bem, alguma afinidade programática, governam como partidos e com partidos e depois não querem ser criticados como partidos?? Como assim? Se os partidos, bem ou mal, são peça-chave do nosso modelo de democracia representativa, como vamos deixa-los fora da discussão?? A QUEM INTERESSA ISSO?? Como ficou claro ano passado, com o coro direitista anti-partido nas manifestações, tirar os partidos do alvo só serve a eles mesmos. A crítica aos partidos e aos mandatários, inclusive a vinda de outros partidos e postulantes ao cargo, é completamente legítima e faz parte da política e de democracia. Faz parte também da crítica por parte de quem quer pensar outra forma de democracia. Negar isso é fruto de profunda desinformação ou de quem quer isentar partidos de sua responsabilidade.

 

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O novo mundo nasce no Recife, debaixo de um viaduto.

Post de Felipe Melo, professor de ecologia do CCB da UFPE, no Facebook, sobre o evento do Som na Rural na praça do Cabanga, ontem, dia 22.06.14

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Nunca havia posto os pés na praça que fica ao lado do viaduto Capitão Temudo. Quantos recifenses já caminharam por lá? A praça é um projeto paisagístico lindo, com um lago artificial, bem arborizada mas, cercada por todos os lados por vias de alta velocidade (sic) e maltratada. O‪#‎OcupeEstelita‬ nos deu essa oportunidade, com somente ocupar o lugar, atrair a multidão e transformar um sítio fantasmagórico num espaço de convivência precioso. De repente, estávamos todos lá e felizes. Entre uma conversa e outra, nos dávamos conta de que avançamos definitivamente num debate que congrega as mais variadas perspectivas.

O #OcupeEstelita é tão impressionante que havia lixeiras por todos os lados, sendo constantemente esvaziadas e recolocadas. Saí já tarde e não se percebia rastros significativos de que ali houve uma reunião massiva com atividades culturais e consumo de bebidas e lanches. Até os próprios vendedores de cerveja recolhiam os restos de suas vendas. Tudo cooperativo, auto-organizado graças ao esforço daqueles que defendem um novo mundo. Saí dali para o Recife Antigo, espaço explorado pelo comércio desorganizado, com carros estacionados de todas as maneiras, cadáveres de lata ocupando o espaço que poderia estar cheio de pessoas. Não há lógica de apropriação coletiva da cidade nesses espaços oficiais, mas um aglomerado de usurpação privada dos espaços, cada um como pode. Nunca foi tão triste ir ao Recife Antigo.

O mais importante é que a luta do #OcupeEstelita denunciou claramente os atores responsáveis pelo caos urbano. As empreiteiras, maiores doadoras em campanhas eleitorais, são o grande “lobby” político na realidade atual brasileira. Eles não estavam acostumados sequer a serem contrariados, nunca imaginariam que tivessem um megaempreendimento detido pela força democrática, pela informação da sociedade. Quando antes as empreiteiras tiveram que disputar a opinião pública com uma população informada e criativa, que derruba cada argumento deles? Quando antes, as forças políticas do Recife tiveram que tomar partido num debate desses? Daí o incômodo de João Lyra quando divulga uma nota técnica e tenta “lava as mãos” do sangue que ele sabe que derramou. Daí a ausência de posicionamento veemente de qualquer político de peso em favor das empreiteiras e do projeto Novo Recife. Ninguém defendeu publicamente as empreiteiras, deixaram essa tarefa para seus vários seus porta-vozes disfarçados de jornalistas. É sintomático que um debate dessa magnitude tenha o lado das empreiteiras sendo difundido pela mídia comprada, editoriais agourentos, e propaganda disfarçada de notícia. Nenhum “figurão” de nosso estado comprou a briga pelo lado daqueles que os financiam. Do contrário, aumenta a cada dia os apoios ao #OcupeEstelita e todos orgulhosos do apoio declarado.

Estamos ganhando!

Cais José Estelita: a Democracia em Estado de Sítio

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Texto de Érico Andrade, professor da UFPE. Email: ericoandrade@gmail.com

Quando a polícia, que tem o monopólio da violência para proteger os interesses do Estado, se transforma no exército dos interesses privados é hora de repensar os rumos da democracia. O que aconteceu na reintegração de posse do Cais Estelita dilata-se para além das fronteiras da justa luta por uma cidade humana. Trata-se de uma luta contra o estado sequestrado por interesses privados – interesses das empreiteiras financiadoras das campanhas dos prefeitos do Recife – e que usam a polícia como forma de coibir manifestações não apenas pacíficas como necessárias para o fortalecimento de nossa jovem democracia.
A reintegração de posse do Cais Estelita desrespeitou as principais diretrizes que caracterizam um Estado de direito e democrático. Não houve negociação com os manifestantes no sentido de garantir a tranquilidade da reintegração. Eles ficaram impedidos de sair do Estelita. De modo ainda mais grave; eles estavam, após serem agressivamente encurralados pela polícia, na linha férrea, que não faz parte da reintegração expedida pelo juiz, e foram, nesse momento, alvo de balas de borracha, spray e gás lacrimogêneo. Também foi vedado o acesso dos advogados ao local em que ocorreram essas arbitrariedades. A polícia continuou nos agredindo, mesmo depois da reintegração de posse, fora do Estelita. Ela não poupou agressão de cassetete e deferiu golpes em mulheres grávidas e na advodaga da ocupação e militante do DU. Covardia é palavra mais suave para denunciar essa arbitrariedade.

A violência institucionalizada é a falência do Estado. Ela finca muros para que os cidadãos não exerçam livremente o direito de discutir e planejar a cidade. A violência da política é também covarde porque se estrutura na assimetria das forças. Enquanto nossas armas são o desejo por uma cidade planejada coletivamente e priorizando a coletividade, a polícia dispõe de armas que ferem não apenas os nossos corpos, mas, sobretudo, tentam ferir a nossa dignidade. Contra a força desproporcional da polícia dispomos apenas da coragem de quem luta não para garantir seu investimento – como fazem aqueles empreiteiros que vão aos debates dizendo cinicamente que estão pensando a cidade –, mas de quem sonha cidades. Contra o forte poder do capital imobiliário temos a consciência de que a nossa luta não é para tirar vantagens ou subtrair dividendos. Queremos o direito de querer, isto é, desejamos um Estado que não esteja subordinado às empreiteiras como Moura Dubeux e Queiroz Galvão, mas que sirva aos interesses da maioria, materializados num plano diretor amplamente discutido pela sociedade.

O que aconteceu no Estelita é a censura ao diálogo. O acordo com a secretária de direitos humanos de uma reintegração de posse pacífica e que não ocorreria no alvorecer do dia foi quebrado; o ministério público não foi acionado para garantir a tranquilidade da desocupação, a polícia agiu não para reintegrar a posse, que seria questionada juridicamente no outro dia, mas para atacar covardemente a sociedade civil organizada. Eles agiram para dispersar a luta e se transforam em capangas institucionalizados dos novos senhores de engenho. Tentaram nos vencer com o terror e mostraram a falta crônica de diálogo do governo e da prefeitura. Esqueceram, contudo, de que nós não fugimos à luta porque guardamos a coragem dos que resistem até o último tiro.

Em Pernambuco, nada mais subdesenvolvido que o “Novo Recife”

#OcupeEstelita

Por Pablo Holmes

Professor de Teoria Política da Universidade de Brasília (UnB)

Hoje, em Pernambuco, poucas coisas representam melhor o significado social, econômico e político do termo “subdesenvolvimento” que o empreendimento imobiliário levado a cabo pelo consórcio “Novo Recife”, no Cais José Estelita.

De fato, a palavra “desenvolvimento” expressa um dos conceitos mais contestados das ciências sociais. Hoje, até mesmo a teoria econômica prefere outras palavras e critérios, como o “crescimento econômico”, à vagueza e imprecisão da ideia de “desenvolvimento.

Em seu sentido tradicional, “desenvolvimento” implica uma sequência temporal de etapas, seja no nível psicológico-cognitivo, como no nível societal, que se desdobraria em níveis de complexidade cada vez maiores chegando a algum nível “superior”.

Desse modo, o conceito precisa supor não só uma sequencia padrão de estágios, como também um modelo final de comportamento individual (na psicologia) ou de funcionamento social (na vida social).

Em outras palavras, haveria ao final de um “processo de desenvolvimento” algo como uma forma social ideal, uma forma de existência social que todos almejariam, por ser a “mais evoluída”, a “melhor”,  “superior”.

Esse tipo de raciocínio, típico do século XIX, fez história no pensamento social e econômico, assim como na economia política. Depois de mais de 50 anos de críticas vindas de todos os lados, ele precisa, porém, ser reespecificado.

O Desenvolvimento hoje

Hoje, a ideia de desenvolvimento passou a ser um desses velhos artefatos conceituais, que são usados, mas que perderam em grande medida seu significado original.

Poucos acreditam que se pode conceber um modelo a ser seguido e que siga de padrão. Nada mais problemático do que noções estagiadas de desenvolvimento que tratam realidades distintas sob um mesmo critério, normalmente tomado de um contexto particular, a ser transposto para outras realidades.

A crítica ao conceito de desenvolvimento, ademais, não é mais exclusividade da sociologia ou da antropologia. Com efeito, essas disciplinas foram talvez as primeiras a perceber, há algumas décadas, que não é possível sustentar um “modelo de estágios” universal. Seja porque contextos sociais são diferentes e qualquer transposição implica uma violência radical, seja porque não há quaisquer garantias em relação à superioridade de uma realidade em relação a outra: até porque essas realidades estão normalmente reciprocamente implicadas em uma sociedade mundial tão inter-relacionada.

A disciplina econômica, que foi o palco privilegiado de surgimento de uma verdadeira “teoria do desenvolvimento”, demorou mais para incorporar essas críticas. Por um longo tempo, várias gerações de economistas se ocuparam em procurar os padrões que fariam uma sociedade, ou uma nação, tornar-se “desenvolvida”.

E, assim, a partir da década de 1950, países da América Latina, África e Ásia se tornaram verdadeiras cobaias de “planos” econômicos e modelos políticos que deveriam gerar “desenvolvimento”.

Vários desses “planos” de desenvolvimento entendiam, inclusive, ser desnecessário pensar em democracia, em participação pública e política, em inclusão social, sem que o problema do “desenvolvimento” fosse resolvido. Em alguns casos, pensava-se até mesmo que uma ditadura seria mais capaz de produzir “desenvolvimento”, pois nela os líderes poderiam perseguir sem limites as “políticas econômicas necessárias”. Desenvolvimento era um problema para técnicos

Mais recentemente, porém, também a teoria econômica passou a criticar a noção de “desenvolvimento” nesses termos. Pesquisas empíricas que usavam dados mais abrangentes passaram a observar que não existe uma fórmula única para se produzir crescimento econômico.

Em realidade, percebeu-se que algumas instituições eram capazes de gerar crescimento econômico no longo prazo se associadas a conjunções de acasos, mas não havia uma política única que as instituições deveriam perseguir. O problema consistia mais em uma questão de forma que de conteúdo: as instituições corretas tenderiam a produzir as respostas adequadas a depender do seu contexto. E, na verdade, dever-se-iam evitar exatamente impor instituições em nome de soluções criadas por experts e tecnocratas.

Além disso, passou-se a perceber uma forte corelação entre crescimento econômico e instituições capazes de produzir inclusão social e inclusão política. Quanto mais capazes de produzir inclusão nos processos de decisão e quanto mais capazes de incluir os cidadãos na produção, na arte, na cultura, na educação etc, as instituições sociais seriam mais capazes de produzir, consequentemente, crescimento econômico.

Definitivamente, hoje, há um forte consenso de que o problema do “desenvolvimento” não tem nada a ver com “um” plano; muito menos com a ideia de seguir “um” modelo de país que seja mais “avançado” que os outros.

Em lugar disso, trata-se de produzir instituições que possibilitem que os indivíduos possam decidir o que fazer com suas vidas, individual e coletivamente. Construir realidades locais em que a inclusão política, econômica, artística, cultural e educacional possa se reproduzir e gerar uma sociedade dinâmica e flexível.

O subdesenvolvimento do “Novo Recife”

Nesse contexto, não é difícil perceber o quanto as cidades se tornam centrais. Elas são os palcos dos eventos mais importantes, assim como das decisões políticas, econômicas e culturais que mais influenciam o planeta, nos nossos dias.

E, portanto, elas são talvez o lócus central e quem se reproduzem dinâmicas de inclusão e exclusão social.

Cidades são espaços privilegiados de produção e criação, nas mais diversas áreas da vida social. Elas também são fundamentais para o crescimento econômico.

E, nesse ponto, também as novas teorias e concepções sobre o “desenvolvimento” parecem convergir: as cidades mais capazes de se tornar inclusivas e atrair a diversidade cultural e econômica tendem a ser também economicamente importantes. Mas, assim como não existe um modelo de sociedade a ser seguido, não há uma cidade ideal.

Se pensamos na nossa realidade, poderíamos dizer que Recife não precisa se tornar mais ou menos parecida com Paris, Londres, Miami ou Nova Iorque para se tornar mais ou menos desenvolvida. Não se trata disso.

Uma cidade se torna rica, nos mais diversos sentidos, à medida em que ela pode atrair pessoas criativas, e fixar dinâmicas sociais diversas. Pois são essas dinâmicas que fazem de uma cidade um espaço relevante econômica-, social e culturalmente.

E isso nos leva à relação direta entre o Projeto “Novo Recife” e a ideia de desenvolvimento.

Se, por um lado, as ideias de desenvolvimento e subdesenvolvimento foram desafiadas, as novas teorias do desenvolvimento que associam crescimento econômico à existência de determinado tipo de instituições podem nos dizer um pouco acerca dos mecanismos, relacionados à vida urbana, que mantêm populações em situação de pobreza e sofrimento e dos que são capazes de criar dinâmicas inclusivas.

Se a cidade é o espaço dos mais importantes processos sociais dos nossos dias, as estruturas urbanas baseadas em esquemas inclusivos têm relação direta com essas dinâmicas de crescimento e prosperidade social, cultural e também econômica.

A essa altura, todos já sabem em que consiste o projeto “Novo Recife”. Ele reproduz uma lógica conhecida de exclusão e divisão da cidade entre os que fazem parte da vida econômica, cultural e política, e todo o resto são dela excluídos.

O “Novo Recife” isola espaços para os que podem pagar e exclui deles os que não podem; reduz os espaços comuns de convivência, troca e mistura sociais. De acordo com o triste projeto do consórcio de empresas imobiliárias, os espaços comuns se reduzem mais uma vez às vias de circulação que são, novamente, privatizados  por automóveis.

O projeto de empreendimento insiste em uma lógica urbana feita para excluir, em nome da proteção. Ele reproduz as divisões sociais ao invés de combatê-las. E, acima de tudo, ele é o resultado de um processo de construção do espaço urbano que não leva em conta interesses coletivos, que não se baseia no compartilhamento de espaços e no convívio.

Ao pensarmos desenvolvimento como o resultado de dinâmicas de inclusão, capazes de tornar uma sociedade flexível, dinâmica e próspera, resta evidente que nada representa melhor o “subdesenvolvimento”, hoje, no Recife, do que o Projeto “Novo Recife”.

A imprensa classe média

Érico Andrade (prof. UFPE, doutor filosofia pela Sorbonne e membro dos direitos urbanos)

ericoandrade@gmail.com

Mais de 5.000 pessoas participaram do #OcupeEstelita do dia 1º de junho

Mais de 5.000 pessoas participaram do #OcupeEstelita do dia 1º de junho

É estranha a omissão dos jornais no que diz respeito à divulgação de um dos maiores movimentos da história da cidade. Várias pessoas ocupando o cais Estelita, milhares de pessoas participando das atividades culturais, realizadas pelos Direitos Urbanos em parceria com outros atores políticos, como o Som da Rural e o movimento Ocupe Estelita, e a suspensão de um projeto retrógrado para a cidade durante esses dois últimos anos, não podem ser negligenciados. A imprensa não precisa ser contra o Novo Recife (afinal não podemos esquecer de que o JC faz parte do grupo de JCPM responsável por várias construções irregulares), nem precisa ser imparcial. Ela só não pode ser indiferente.

Quando trata com indiferença o pleito por participação popular nas decisões da cidade, presentes tanto nas redes sociais quanto no movimento Ocupe Estelita, a imprensa assume que a liberdade de expressão é facultada apenas para mostrar um lado da história. Ela é livre apenas para ser unilateral. A liberdade da imprensa passa a ser uma forma de ditar um único discurso na esperança, nefasta, de expressar a opinião pública sem que o público se manifeste quanto à sua própria opinião.

Quando constrangida pela força notável das manifestações a imprensa continua agindo no sentido contrário à liberdade de expressão. Ela desqualifica, diminui os manifestantes e os reputa como defensores de ruínas e burgueses sem causa. Essa tática é um acinte a qualquer forma de diálogo porque desrespeita o interlocutor. Várias linhas foram gastas para inibir esse ataque gratuito e arbitrário. Aqui resumo no seguinte argumento. Caso a luta pelo Estelita se resumisse a um desvario juvenil, não teríamos tido a vitória de barrar a construção de uma catástrofe urbanística cujo despropósito começa pelo nome: Novo Recife, nem muito menos teríamos conseguido suspender o alvará de demolição dos armazéns. Mesmo com toda força do capital imobiliário conseguimos essas vitórias.

Para a imprensa é preciso dizer que queremos mais do que a suspensão do Novo Recife sem deixar de dizer, contudo, que já somos vitoriosos porque a especulação imobiliária e o desrespeito ao planejamento urbano, bem como o desrespeito às leis que regem a cidade começam a ser combatidas. As armas dos Direitos Urbanos são, sabemos: as leis, a consistência dos argumentos sólidos e técnicos e, principalmente, a participação de milhares de pessoas que se encarregam de publicizar o direito ao contraditório que a imprensa se nega a mostrar.

É preciso dizer ainda que nos acusar de burgueses é uma tentativa sorrateira de condenar a classe média ao papel de classe média que acha que a política se resume ao combate à corrupção, que dá credibilidade aos meios de comunicação sem saber o poder do capital que está por trás deles, que acredita na dicotomia progresso com destruição ou estagnação e que, por fim, acredita que só se faz bem ao Recife quando se pensa em ganhar seu próprio dinheiro. O que mais choca os que criticam os Direitos Urbanos é saber que somos a classe média que se recusa a ser esse protótipo de classe média com os pés fincados em Miami. Sabemos que ninguém tem culpa de ser classe média, mas deveria ter culpa por não lutar para que todos pudessem desfrutar dos benefícios materiais de ser classe média. Somos a classe média que não foge à luta. Por isso, somos todos e todas Coque (R)existe, Salve o Caiçara, Removidos da Copa e OcupeEstelita.

Mídia Capoeira

Érico Andrade (prof. UFPE, doutor filosofia pela Sorbonne e membro dos direitos urbanos) ericoandrade@gmail.com

É estranha a omissão dos jornais no que diz respeito à divulgação de um dos maiores movimentos da história da cidade. Várias pessoas ocupando o cais Estelita, milhares de pessoas participando das atividades culturais, realizadas pelos Direitos Urbanos em parceria com outros atores políticos, como o Som da Rural e o movimento Ocupe Estelita, e a suspensão de um projeto retrógrado para a cidade durante esses dois últimos anos, não podem ser negligenciados. A imprensa não precisa ser contra o Novo Recife (afinal não podemos esquecer de que o JC faz parte do grupo de JCPM responsável por várias construções irregulares), nem precisa ser imparcial. Ela só não pode ser indiferente.

Quando trata com indiferença o pleito por participação popular nas decisões da cidade, presentes tanto nas redes sociais quanto no movimento Ocupe Estelita, a imprensa…

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O horizonte vertical ob-scenus: A ameaça de destruição de uma Paisagem-postal no coração do Recife

Por Lúcia Maria de S. Cavalcanti Veras

Arquiteta e urbanista, doutora em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco

Mais do que um Cartão-postal, a borda de São José, no centro histórico do Recife, é uma Paisagem-postal. Paisagens-postais são aquelas que identificam cidades. Esta identificação não está expressa na paisagem em si, mas na relação de apreensão entre o sujeito que a observa e a paisagem que se deixa observar, entre o sujeito que a transforma e a paisagem que se deixa transformar, no sujeito capaz de pensá-la ao reunir a dispersão dos dados sensíveis e manter em si a conexão das coisas que a revelam como paisagem. Quando as paisagens afiançam as nossas intenções, é porque nos tocam profundamente e descobrimos em nós o complemento daquilo que percebemos, como parte do fio das coisas que as tecem. Se este sentimento é partilhado coletivamente, não estamos mais diante de um Cartão-postal, mas diante de uma Paisagem-postal. Assim, se o cartão-postal congela no segundo da fotografia aquilo que foi capturado pelo olhar sensível, a paisagem que foi registrada revela, para além da imagem do segundo fotografado, a apropriação dos lugares em camadas de tempo sobrepostas, próprias da cultura.

Esta compreensão de paisagem foi trabalhada em minha pesquisa de doutorado desenvolvida na Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE e defendida em fevereiro de 2014, intitulada Paisagem-postal: a imagem e a palavra na compreensão de um Recife urbano. Fruto de inquietações sobre a transformação brutal da paisagem do centro histórico do Recife me questionava sobre o porquê da não existência de uma legislação urbana que protegesse, de fato, estas paisagens singulares, ainda que no Código Municipal do Equilíbrio Ecológico da Cidade do Recife (Lei 16.243/96), dois dos seus artigos considerassem de proteção imediata “áreas de excepcional beleza, interesse paisagístico, histórico e estético-cultural”, devendo por isso ter seu descortino assegurado.

Muitas são as paisagens-postais recifenses que merecem ser protegidas, mas apenas São José e Santo Antônio revelam a origem mais pretérita da cidade do Recife, que pelas lonjuras do olhar, se apreciava no perfil renascentista mantido nas bordas de São José. Sob este ponto de vista, independentemente de uma classificação histórico-temporal, a transformação porque passam estes bairros foi definida em três recortes de paisagem nesta pesquisa: o Horizonte nostálgico, que ressalta um Recife saudosista e sentimental destacado pelos memorialistas que encontraram na arquitetura, na relação da cidade com as águas e no burburinho do cotidiano o recorte que se estendeu até o início do século XXI; a Verticalização deslocada, que revela, a partir de 2005, o início da transformação de uma paisagem predominantemente horizontal com a construção dos Píers Duarte Coelho e Maurício de Nassau contrastando a verticalidade na horizontalidade da paisagem e por fim, o Horizonte vertical ob-scenus, aquele que há por vir com a aprovação em 2012 do Projeto Novo Recife, quando o conceito adotado no Projeto deixa de se referir ao histórico São José e surge fora do lugar, deslocado para outros territórios ao compor uma paisagem fora-de-cena e, portanto, ob-scena.

Tomando a Imagem e a Palavra como categorias de extração da noção de paisagem, foram entrevistadas 78 pessoas, entre arquitetos, legisladores, empreendedores, fotógrafos, cineastas, pintores, geógrafos, historiadores, produtores culturais e moradores do bairro de São José e da cidade de Olinda. Compreendendo a importância e responsabilidade dos arquitetos na construção da cidade, estes foram maioria entre os entrevistados, em um total de 42, que corresponde a 54%. Os exercícios de Paisagem pela Imagem desencadearam a captura na noção de Paisagem pela Palavra e as Fotopinturas (pinturas produzidas sobre uma fotografia dada do Cais José Estelita, para que o entrevistado expressasse sua compreensão e desejo de paisagem), em especial, revelaram, de forma inusitada, paisagens desejadas, compreendidas e defendidas pelos entrevistados. Para cada Fotopintura um slogan sintetizava em palavras, o que o entrevistado criava pelas imagens. Com a possibilidade de eliminar, inserir, conservar e ressaltar a natureza sobre uma fotografia de borda de São José foram eliminados edifícios ou parte deles, inseridos outros edifícios, apontadas a criação de parques lineares, praças, mirantes e ancoradouros, com ênfase à presença da água. O Recife anfíbio apontado nas Fotopinturas revelou a natureza encharcada do recifense, comprovada no desejo de cerca de 60% dos entrevistados pela criação de uma Linha de Borda acessível e pública, que permita a chegada da cidade às suas águas e o encontro de pessoas. Neste caso, foi reforçada a importância do burburinho do comércio popular de São José, que se manifesta na linha de chão, reconhecido como um de seus patrimônios que deveria ser conectado à chegada às águas, trazendo esta efervescência às bordas do estuário. A Figura 1 a seguir ilustra esta intenção.

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 Figura 1- Fotopintura: “Renovar a história, compartilhando o Cais”

Em relação à arquitetura, três tempos de paisagem foram definidos: o Tempo 1 – a Paisagem do Retorno ao Século XIX com a eliminação de todos os edifícios modernos, inclusive o conjunto da Guararapes e edifícios da Avenida Dantas Barreto, o que correspondeu a 10% dos entrevistados; o Tempo 2 – a Paisagem do Diálogo, que correspondeu predominantemente ao que se manteve até o Século XX, equivalente a 70% dos entrevistados e o Tempo 3 – a Paisagem da Imposição Vertical, que correspondeu aos que desejam uma borda verticalizada a exemplo dos edifícios já construídos, equivalente a 20% dos entrevistados. As imagens a seguir ilustram estes três Tempos.
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Figura 2 – Fotopintura:“Por um Recife horizontal” (Tempo 1 – 10%)

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Figura 3 – Fotopintura: “A cidade é a construção de uma temporalidade onde está futuro,
passado e presente (Tempo 2 – 70%)

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Figura 4 – Fotopintura: “O moderno e o antigo em sintonia” (Tempo 3 – 20%))

Foram então dois desejos explicitamente consolidados: manter a paisagem de borda com o gabarito que se consolidou até o início do século XXI (Tempo 2) e permitir, com a criação de espaços lineares de borda, o acesso público de um São José que possa chegar às águas. Para um entrevistado, pintor, o Recife precisa voltar a “ter delicadeza” e respeitar as pessoas e para um historiador, só a contemplação que um lugar público generoso que permita o encontro e o lazer poderá “multiplicar a beleza”. Estas Fotopinturas possibilitaram que fosse analisada a Arquitetura, a Linha de Borda, a Intervenção mais Relevante e a Natureza na Paisagem. Os resultados estão expressos na Tabela da Figura 5.

 

Arquitetura

(skyline)

 

Linha de Borda

(landline)

 

Intervenção mais Relevante

(skyline e landline)

 

 

Natureza na Paisagem

(skyline e landline)

               
 

Paisagem do retorno (XIX)

 

 

10,3%

 

Sem passeio

 

36,0%

 

Arquitetura

(skyline)

 

33,5%

 

Céu e água

 

74,5%

 

Paisagem do diálogo (XX)

 

 

70,5%

 

Com passeio público

 

59,0%

 

Linha de Borda

(landline)

 

56,5%

 

Céu

 

5,0%

 

Paisagem da imposição vertical (XXI)

 

19,2%

 

Com passeio restrito

 

5,0%

 

Sem inserir novos elementos (skyline)

 

10,0%

 

Água

 

19,0%

             

Sem céu/nem água

 

 

7,0%

               
Arquitetura 100,0% Linha Borda 100,0% Inter. mais Relevante 100,0% Natureza 100,0%

 

Figura 5 – Síntese das Fotopinturas: arquitetura, linha de borda,
intervenção mais relevante e natureza na paisagem.

Tomando a Imagem e a Palavra vinculadas à arte e à vida vivida necessários à compreensão de Paisagem, a pesquisa trabalhou outros exercícios de imagem como o dos Cartões-postais, quando foram apontadas outras potenciais paisagens-postais do Recife. Do conjunto dos resultados, quatro constatações principais se destacam: (i) a de que a arquitetura dos monumentos de valor histórico em São José e Santo Antônio é uma paisagem-postal que exclui os modernos edifícios; (ii) a de que a vida vivida que se manifesta na linha de chão alimentada pelo comércio popular em São José e Santo Antônio também é uma “paisagem-postal”, apesar dos modernos edifícios e da ausência do planejamento público;(iii) a constatação de que é possível extrair a paisagem da vida vivida por um método de captura que envolva a arte e a vida vivida, incorporando-a ao planejamento e à gestão urbana, cabendo aos arquitetos compreender os limites da legislação e extrapolar a possibilidade de inserir a compreensão de paisagem no ato de pensar e projetar a cidade e por fim,(iv) a de que, entre os entrevistados, o olhar privilegiado dos cineastas que justapõe “imagens” e “palavras” revela, como découpagens cinematográficas, a forte referência de que essa “paisagem-postal” encarna a história da cidade e das pessoas e que sob este aspecto, os modernos edifícios, não comparecem às suas lentes.

Talvez por isso, o jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues considerasse que a paisagem é um hábito visual que só começa a existir depois de 1.500 olhares. Hoje, movidos pelo #OcupeEstelita, movimento promovido e organizado pelo grupo Direitos Urbanos | Recife, muito mais que 1.500 olhares consolidam o Cais José Estelita e o Bairro de São José como uma paisagem consolidada e apropriada pela população recifense, que reconhece o Projeto Novo Recife, no coração da cidade, como um projeto fora-de-lugar, fora-de-cena e portanto, esteticamente e eticamente ob-sceno.