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Sobre a dimensão ecológica do Ocupe Estelita

Por Felipe Melo, professor de biologia da UFPE

Há muitos paralelos entre as teorias ecológicas e a nossa vida como sociedade humana. Apesar de Darwin ter dado o golpe final na ideia de que somos especiais na natureza, o ‪#‎OcupeEstelita‬ vem, 150 anos depois da Origem da Espécies, dar uma evidência inequívoca de que nesse habitat que é a cidade, a ecologia humana faz cada vez mais sentido, somos bichos. E como bichos humanos, quando não estamos satisfeitos com o nosso hábitat, nós o transformamos. As cidades são o resultado final de um processo de domesticação da natureza que começou desde que aparecemos na terra. Construir um parque com grama e árvores plantadas ou arranha-céus de vidro são faces da mesma perseguição pela domesticação da natureza. Somos todos na atualidade a resultante desse processo histórico-biológico, talvez encravado na memória de nossos genes que é o de construir nosso próprio hábitat. A diferença está na extensão dos benefícios da domesticação do hábitat urbano. Está no entendimento de qual tipo de domesticação da paisagem e da natureza são desejáveis e quais deles definitivamente funcionais para o hábitat como um todo.

Portanto é de uma tolice imensa achar que as pessoas que ocupam o cais José Estelita nesse momento são neo-hippies saudosistas pregadores da volta à natureza intocada, da não-intervenção nos espaços. Ora, é justamente o contrário que nos move nesse momento, é o desejo de intervenção na cidade. É o desejo de que aquele espaço seja parte de um hábitat, que ele se integre a uma funcionalidade tão necessária para nossa casa. Neste sentido o grupo Direitos Urbanos é didático ao convidar toda a sociedade a discutir democraticamente um modelo de hábitat urbano que seja de fato representativo e funcional.

A palavra ecologia vem do grego, “oikos” que significa casa ou hábitat num sentido mais amplo e ganha força na ciência uma nova concepção de ecossistemas, a ideia de “antroma” e não mais de “bioma”. É a constatação/concepção de que já domesticamos boa parte da natureza e que não é possível pensar ecologicamente os espaços da terra sem a presença humana. Tal concepção tem aproximado a ecologia dos hábitats urbanos e emprestados conceitos e ferramentas interessantes para o entendimento e planejamento das cidades. Eis então que sob a ótica ecológica moderna (falo da ciência ecológica dura e rigorosa) o “Projeto Novo Recife” termina sendo, paradoxalmente, justamente o contrário da domesticação da natureza. É o apogeu de um modelo concentrador de recursos naturais, desperdiçador de energia, promotor da entropia (caos) e emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global e, sobretudo dilapidador de uma das mais importantes propriedades dos sistemas biofísicos, a resiliência. Esta é a capacidade de recuperação dos sistemas frente às perturbações.

Ao permitir que a cidade abrigue em uma das suas porções mais importantes um empreendimento dessa natureza, estaríamos reduzindo mais um pouco a resiliência do Recife, condenando esse ecossistema urbano que é a cidade à instabilidade aguda da qual já padece cronicamente. É deixar escapar justamente a possibilidade de adaptar nosso hábitat às nossas necessidades, que seguramente não são mais uma dezena de torres gigantes de apartamentos e algumas dezenas de milhares de carros.

Por isso, #OcupeEstelita!

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Discussão

9 comentários sobre “Sobre a dimensão ecológica do Ocupe Estelita

  1. Ta conversando merda companheiro! Viva o Novo Recife…! Não aguentava mais ver aquela nojeira desbotada, sem vida, abandonada e servindo de boca de fumo!
    Vai morar numa casa de barro ou numa oca então!!! Chega dessa cidade imunda e atrasada!

    Parabéns a iniciativa privada por mudar a cara da cidade!

    Publicado por Ricardo Pereira | 28 28UTC maio 28UTC 2014, 13:21
  2. Eu acho que vc nem chegou a ler o texto que está criticando colega. O texto foi bem claro em dizer que as pessoas não querem voltar à “natureza selvagem” e sim pensar numa cidade integrada, inteligente e melhor.

    Publicado por Sylvie | 29 29UTC maio 29UTC 2014, 08:40
  3. Felipe, bom dia.

    Parabéns pelas palavras de seu comentário e pelas referências. Nota-se a propriedade do mesmo e a sua capacidade de escrita.

    Meu ponto, no entanto, é o fato da sociedade ter negligenciado aquela localidade durante 30 anos e, nos últimos 05 (tempo de aprovação do projeto) todos os órgãos públicos aprovaram o projeto como está. Salta aos olhos de parcela da população o seguinte:

    01 – Por que agora, após tanto tempo sem dar a mínima para aquela área, a sociedade civil (pequena parte dela é verdade) resolve se manifestar?

    02 – A quantidade de pessoas que estão mobilizadas contra o projeto são, verdadeiramente, representantes desta sociedade? Não parece, pois várias pessoas estão a favor que se faça algo naquele local. Mesmo que essa opinião seja sem a polidez necessária por vezes.

    03 – O que o chamado grupo Direitos Urbanos está fazendo neste momento acerca de demais áreas. Exemplo do Memorial Arcoverde, outra área negligenciada tanto pela Sociedade Civil, quanto pelo Estado?

    04 – O quanto de oportunismo político e circunstancial existe nessa celeuma toda? Será que o modismo de manifestações e o cenário recheado de Copa do Mundo e Eleições não são um prato cheio para esta demonstração, absurdamente atrasada, de cidadania?

    05 – Eu, como parte da sociedade civil, não tenho hoje cara para reclamar de um projeto aprovado pelos órgãos públicos, com dezenas de milhares de Reais já gastos pela iniciativa privada, gerador de renda, emprego e tributos e que, ainda por cima nos livra de uma área que só se destina ao consumo de drogas, proliferação de doenças (“dengue ali é boia!” Como diria um matuto amigo meu) e, parafraseando você mesmo, contribuindo contra nosso “oikos” Habitat. Você acha que agora, esse pequeno grupo conseguirá demover a grande maioria da sociedade que está a favor daquele projeto e que sabe que este mesmo grupo foi, como o restante da sociedade civil, negligente com Estelita? A hastag #ocupeestelita não está deveras atrasada?

    Grato pelo debate e esperando ter sido polido o suficiente.

    Leonardo Estevam

    Publicado por Leonardo Estevam | 29 29UTC maio 29UTC 2014, 11:02
    • boa tarde, Leonardo,

      o grande problema está exatamente no projeto ter sido aprovado sem os devidos estudos de impacto ao meio ambiente. Não adianta, mesmo que após 30 anos, empurrar-se por guela abaixo a aprovação deste projeto. Os tramiter necessários evitam uma infinidade de problemas posteriores que muitas vezes não é apontado pelo empreendedor. Conserteza a primerira coisa que se viu deste projeto arquitetônico foi a beleza dos muros de cimento e concreto, mas o que deveria ser mostrado seria o meio pelo qual tem sido aceito. Os fins não justificam mais os meios. O Brasil possui uma das melhores leis ambientais do mundo, no entanto, os interesses de poucos prevalecem. A MPF apontou erros no EIA, RIMA e EIV, mesmo assim o projeto foi aprovado de forma irregular pelo município. Na audiência pública do projeto as possoas foram sim as ruas reclamar do projeto e save meu engano o MPF sugeriu uma outra audiência publica com modificações do projeto e talvez essa nem tenha o corrido. Por tanto, não cabe aqui se falar de algo como o Estelita é um local de consumidores de drogas, na verdade existe sim um grupo enorme de pessoas que a muito tempo não enxergão que “mais uma dezena de torres gigantes de apartamentos e algumas dezenas de milhares de carros” jamais trará um ambiente saudavel de outrora.

      apenas reflexões.

      abraço

      Tiago Esposito

      Publicado por Tiago Esposito | 29 29UTC maio 29UTC 2014, 14:11
  4. #ocupeestelita

    Já lá se foram os três arcos,
    quantas igrejas,
    ruas, pátios, largos,
    monumentos arcaicos,
    tantos, tantos marcos,
    em nome de um progresso
    que não passa de estagnação,
    repetição de um padrão,
    fermentação de pântano,
    aterramento da história,
    aprofundamento do buraco
    que oxalá não venha a ser
    a cova de todos nós.
    Nesses dias não se omita:
    ocupe o Estelita
    pra que a estrela dessa cidade,
    não se apague um pouco  mais,
    pra que o rosto dessa urbe,
    feição já tão desfigurada,
    não afunde na indiferenciação
    de uma máscara impessoal,
    pra que a amnésia que lhe é imposta
    e à qual secularmente resiste
    não raie o Mal de Alzheimer,
    para que ela não se torne
    uma metrópole genérica
    esquecida de suas origens
    e de suas peripécias,
    entrevada e vegetativa,
    camisa de força de concreto
    de seu próprio delírio,
    disfarçada com mármore e vidro,
    produto da megalomania dos anões
    sentados no topo da pirâmide,
    nas coberturas dos edifícios,
    ostentando seu raquitismo
    de intelecto e de espírito.
    Se o cais está decadente,
    se algumas paredes hão de cair
    – pra fazer o omelete
    é preciso quebrar o ovo –,
    que seja para que daí floresça
    algo realmente novo
    nos anais dessa província
    e não o velho maquiado
    de novo e de novo,
    não mais doze torres frígidas,
    quarenta andares cada uma,
    três vagas no estacionamento
    para cada apartamento.
    Pra que haja uma luz no fim do túnel,
    pra que essa hashtag
    venha a ser um asterisco,
    uma brilhante estrelita,
    na história do Recife,
    nas entrelinhas dessa desdita,
    e se irradie pelo seu futuro
    com uma aura de mito,
    nessa hora não se omita:
    ocupe o Estelita.

    Publicado por Um Recifense | 30 30UTC maio 30UTC 2014, 03:30
  5. Porque ninguém fala do projeto da Nova Arena do Sport? O projeto prever Shopping, Hotel, Empresarial e Arena, tudo num terreno vizinho a Rio, Mangue e praças, o Plano Diretor da cidade de 2008, prevê restrições em todos estas áreas, como foi aprovado? Ao contrário do Cais José Estelita, onde o Plano Diretor não tem as mesmas restrições. Porque protestam só neste projeto do Novo Recife?

    Publicado por Fernando | 30 30UTC maio 30UTC 2014, 11:14
    • Não, acho que protestos ocorrem em todos os âmbitos. Desde a má gestão dos recursos públicos a transposição do rio São Francisco. O fato é como nós vemos o caso, se vemos por traz da posição de uma emissora ou de olhos abertos com a pupila focada. Economicamente pode ser ótimo para o estado (elevação do PIB), mas por outro onde fica a boa qualidade de vida em virtude dos recursos naturais. Apenas acho que quando se fala em modificação da estrutura ambiental não é tão só expressar nossas vontades de construir. Pensemos, a quantos anos estão transplantando o São Fransisco, já houve benefícil social? Para quem? No mundo algo de extrema grandesa já foi possivel? Acho que apenas uma trasposição no mundo deu certo. Porque será que no Brasil de Todos os Santos daria. Bilhões escorrendo ralo a baixo por algo infundado, sem apontar possiveis perdas dágua que irá comprometer todo um equilíbrio préexistente. Mas é assim, tudo que poder ser melhorado agora não trará arrependimentos depois.

      Publicado por Tiago Esposito | 30 30UTC maio 30UTC 2014, 16:05

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