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1964: nunca mais

Texto de Érico Andrade doutor em Filosofia pela Sorbonne / membro dos Direitos Urbanos / ericoandrade@gmail.com

Caminha pelas vias a dura presença de quem não deseja ruas. De quem deseja que ninguém deseje. Para eles o silêncio é palavras mais alta. O grito que pretende calar todos os gritos. Sem desvios. Tudo deve ser reto, enquadrado, no compasso da uniformidade. Nem as músicas podem falar. Todo instrumento deve entoar o hino. Na constelação da cores deve reinar apenas o verde e o amarelo. O vermelho – do maior pecado – deve ser esmagado, triturado e governado pelo que não tem governo porque só autoriza a desautorizar.

Tempos difíceis. Tempo controlado, mandado. Mandato para que não haja tempo. Todas as pessoas devem caminhar na linha da profissão, família, tradição. Contra a homogeneidade das formas apenas um acorde distante, refugiado no disfarce de vermelho. Somos presos no anonimato das casas que aparelham a esperança. Somos poucos que andam clandestinos. Poucos andamos porque não queremos o clandestino governo. Nem a força bruta, crua, nua nos intimida. Há sempre voz enquanto nos corredores nos reunimos, enquanto nas mesas vociferamos sonhos compartilhados por dezenas de esperanças. Não titubeamos. Quando titubeamos, humanamente titubeamos, é para dizer que a força que nos oprime não impera, não impede a nossa multiplicação. Estamos na cidade, campo. Em todos os lugares em que a ilusão não domina.

Desaparecemos. Descobrimos o horror das prisões. Viajamos. Fomos postos pelo avesso. O avesso da voz alta, da alegria, da hegemonia e do domínio sobre o próprio corpo. Foram hemorragias que só estancavam no silêncio das paredes cinzas que embaçávamos as nossos mentes mais do que o nosso corpo, para sempre. Corpo menos nossos, mais deles. Eles que se confundiam com aqueles, outros, esses. Os verdadeiros clandestinos. A censura à nossa dor só vinha quando nosso sangue não era mais vermelho. Não era mais sangue. Era a história escondida nos porões na intenção de virar poeira; varrida para o ostracismo.

Nós insistimos muito. Desafiamos moinhos que não foram criados, nem sonhados. Moinhos que transformavam tudo que tocavam em pedra, dura, da mesma altura, sempre escura, monocromática. Aprendemos que quem ama fica, permanece e, como tatuagem, não empalidece. Registramos o nosso desejo, mesmo que tentassem dissolver covardemente todos os nossos registros. A versão oficial é a legalização da violência. A nossa versão é a marca da assimetria da força.

No vão de todos os lugares que nos refugiaram tramávamos comícios, diretas. Da pedra mais dura fizemos panelas. Aquarela agora amarela não mais de inanição, nem de intimidação, mas esverdeada de liberdade. A luta que era vã, diziam os mais taciturnos, era dia. Amanhecia com raios que não encontravam obstáculos, opacos, mas reflitam a voz dos que mesmo com medo lutaram, dos que não lutaram porque rapidamente foram calados, dos que foram calados para não lutarem.

 Somos o verbo que transita nas urnas. O barulho que censura o silêncio. O carnaval que corteja todos os sons. Somos a comissão que não deve negociar a verdade. Antes que verdade, somos liberdade. Veredas que mesmo interrompidas formaram a utopia chamada democracia para a qual nossa vigilância não pode vacilar. A história não deve ser apenas repetição. Todos os nossos soluços sem lágrimas não foram apenas lágrimas contidas, mas a marca, cravada no corpo, de que não nos calamos e que quando calados somos a historia que sofre, mas não pára.

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