//
você está lendo...
Artigos

Nova avenida Beira-Rio: dois retrocessos numa tacada só

Os jornais de hoje, dia 15 de março, noticiam, com algum estardalhaço e aprovação, a liberação de 10006971_815533171794393_1970981549_nespaço para a construção do projeto da avenida Beira-Rio nas Graças, ligando o pé da ponte da Capunga ao pé da ponte da Torre. A liberação desse espaço, às margens do rio no lado da Ponte da Capunga, teria sido fruto da negociação com a Faculdade Maurício de Nassau para a liberação pelo Conselho de Desenvolvimento Urbano do Recife para a construção de um edifício-garagem na rua Joaquim Nabuco. Essa aprovação ocorreu de forma bastante obscura na reunião da última sexta, em que também seria discutida a transformação do Edifício Caiçara em Imóvel Especial de Preservação, trazendo à pauta um projeto protocolado em 2009 e que estava esquecido nas gavetas há quase três anos. Com essas duas decisões interligadas a Prefeitura sinaliza um retrocesso monstruoso nas suas políticas de mobilidade, insistindo num modelo centrado no carro, e que todo o discurso renovado de inversão de prioridades na mobilidade não resiste ao primeiro projeto que ultrapasse o nível do marketing.

    1. O erro fundamental das duas obras é insistir numa das mais ultrapassadas e refutadas concepções de como resolver o problema da mobilidade: a lógica de quarenta anos atrás de tentar resolver o problema do automóvel e através de investimento em infra-estrutura para o automóvel, ampliando seus espaços de circulação e facilitando cada vez mais seu uso. Essa é a lógica de Robert Moses, planejador urbano de grandes elevados e viadutos dentro da cidade de Nova Iorque, e que no Brasil encontrou seu grande tradutor em Paulo Maluf, motivado menos por uma concepção equivocada de urbanismo e mais pela conveniência com que essa concepção serve a outros propósitos menos nobres. Em todo caso, o fato é que já há anos que se conhece o fenômeno da demanda induzida traduzida no slogan dos (bons) engenheiros de tráfego de que “infra-estrutura gera demanda” ou no slogan ainda melhor de que “combater o engarrafamento ampliando vias é como combater a obesidade afrouxando o cinto“.  Isso é comprovado não só por estudos empíricos, mas também por modelos teóricos de que falei neste outro texto: por mais contra-intuitivo que possa parecer, construir mais vias aumenta os engarrafamentos ao invés de diminui-los, pois alivia o único limite e desestímulo existente ao seu uso, o engarrafamento. Como as pessoas só deixam de usar o carro quando ele está mais lento do que ir a pé, de bicicleta ou através de um transporte coletivo em via exclusiva e como o engarrafamento é o único ônus que o usuário do automóvel sente no dia a dia, abrir mais espaços só adia um pouco essa saturação, deixa o uso do carro menos penoso e acaba atraindo mais carros pra rua.
      Renderização da proposta para a avenida, com violentos 22m de largura, invasão do mangue, invasão da área do rio e o toque de classe de uma sinalização em inglês: "Bike Only"

      Renderização da proposta para a avenida, com violentos 22m de largura, invasão do mangue, invasão da área do rio e o toque de classe de uma sinalização em inglês: “Bike Only”

      Em resumo, não existe solução possível a favor do automóvel para o problema criado pelo automóvel, assim como não existe almoço grátis. Ou se enfrenta a carrocracia e se pensa na mobilidade como um todo, na mobilidade das pessoas, ou se lava as mãos e se espera o colapso. Esse projeto da Beira-Rio é somente uma gambiarra de R$ 57,5 milhões, dinheiro que não está sendo gasto em outras prioridades, para adiar o colapso de um modelo de mobilidade baseado, dentre outras coisas, em um suposto direito de circular de graça com seu automóvel. O almoço grátis dos usuários de carro nessa via está sendo pago por todo mundo nessa cidade.

    2. A mesma lógica errada de tratar o problema da mobilidade com o foco na mobilidade dos carros e pelo investimento de infra-estrutura está no projeto que permitiu “abrir espaço” para a avenida: o edifício-garagem da Faculdade Maurício de Nassau. A lógica não difere muito do caso acima: infra-estrutura gera demanda também no caso do estacionamento. É simples de entender: arrumar um lugar para estacionar o carro é um dos grandes ônus da escolha por esse modal e espaço na cidade, seja na rua seja num imóvel particular, é algo caro, sobretudo porque poderia ter um uso diferente. Se a faculdade não tem estacionamento suficiente, a pessoa pensa duas vezes antes de ir de carro. Se o espaço é ofertado, a mensagem é clara: venha de carro que tem onde você o colocar. O resultado é que, apesar de parecer um elemento neutro que não atrai mais pessoas do que as que a faculdade já atrairia, o edifício-garagem acaba gerando mais fluxo de automóveis sim, principalmente se não houver cobrança pelo serviço e não houver supressão de vagas nas ruas. Isso tem a ver com toda uma maneira bem equivocada como se trata toda a questão de estacionamento aqui, com vagas grátis nas ruas e número mínimo de vagas por edificação estabelecida em lei, o que acaba sendo um esforço sancionado em lei para facilitar o uso do carro. Mas, como diz o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, “estacionamento não é um direito constitucional“. Já se estudou e se escreveu muito sobre o assunto (e, ao invés de me alongar, remeto a estes textos aqui, aqui, aqui e aqui) mas, como de costume, parece que ninguém leu sobre isso na CTTU e na Secretaria de Mobilidade.
    3. Mas se o problema fosse só mau urbanismo ainda não estaria tão ruim. Claro, como em Recife não basta estar na contramão de tudo o que se diz sobre planejamento de
      No Jornal do Commercio de ontem ficou estampado o sigilo que envolveu o projeto

      No Jornal do Commercio de ontem ficou estampado o sigilo que envolveu o projeto

      mobilidade há décadas,mesmo com a criação de uma secretaria específica para o assunto, todo o processo tem que estar cercado de aspectos questionáveis. O projeto chegou ao CDU envolvido por algum segredo, sendo noticiado na imprensa somente às vésperas da reunião e sem nenhuma discussão pública, nem mesmo publicação em uma lista pública dos empreendimentos em análise, prometida por João Braga no começo do mandato de Geraldo Júlio e nunca publicada. A última etapa de análise do projeto antes de chegar ao CDU foi feita, como pede a lei, pela Comissão de Controle Urbanístico, em junho de 2011 (!!) e de lá pra cá o projeto ficou engavetado na Prefeitura, voltando à pauta de uma hora pra outra, sem publicidade, sem discussão, sem audiência pública com os vizinhos. Provavelmente dirão que o princípio da publicidade foi satisfeito pela publicação de edital em jornal de grande circulação à época em que o projeto foi proposto cinco anos atrás, mas como algum novo morador das vizinhanças poderia se manifestar? Como alguém poderia fazer pedido de informação se ninguém sabia que isso estava tramitando? E o mais elementar: como um projeto, baseado em estudos de tráfego de cinco anos atrás, pode ressuscitar do nada sem que os estudos e toda a discussão seja refeita? Como um projeto que foi inicialmente vetado pela CTTU, como se pode ver nesse resumo da documentação, porque àquela época as vias de acesso já estavam saturadas, pode ser aprovado cinco anos depois numa cidade em que a frota de carros vem crescendo num ritmo de 40 novos carros por dia?

    4. Mais questionável ainda é o acordo que liga os dois projetos e demais acordos envolvidos no
      Sistema de informações geográficas da Prefeitura mostra que o lote da Nassau acaba antes do rio e que a área da via é pública.

      Sistema de informações geográficas da Prefeitura mostra que o lote da Nassau acaba antes do rio e que a área da via é pública. Clique para ver a imagem ampliada.

      projeto da avenida. Como noticiado pelos jornais, a principal compensação oferecida pela Faculdade Maurício de Nassau pela aprovação do edifício-garagem é a “liberação da área à beira do rio” para a passagem da avenida. MAS ESSA ÁREA CONSTA NO SISTEMA DA PREFEITURA COMO PÚBLICA!  Como se pode ver na imagem ao lado, o lote correspondente ao prédio da faculdade acaba antes da área usada atualmente como estacionamento. E no Google Maps até aparece a denominação Av.Beira Rio no trecho! E, não bastando o caráter questionável desse acordo em que se negocia a devolução do que parece ser uma área pública, a matéria do JC ainda menciona que a Prefeitura irá desapropriar partes de imóveis que estão construídos no caminho projetado e talvez tenha que recorrer a um elevado sobre o rio para contornar dois edifícios construídos perto demais da margem do rio. O que a reportagem e a Prefeitura não falam é que esses prédios invadem área non aedificandi, são irregulares, violam a Lei de Uso e Ocupação do Solo. Mas como nessa cidade só se remove ocupação de margem de rio quando é palafita e não quando ela tem o selo Moura Dubeux, o município terá que gastar cerca de R$ 11 milhões em desapropriações e ainda mais em soluções de engenharia para contornar os prédios.

    5. Por fim, é impossível não notar como tudo isso desmente frontalmente o discurso do prefeito Geraldo Julio de uma inversão de prioridades na mobilidade. A cada passo adiante como a transformação da avenida Rio Branco em via exclusiva para pedestres e veículos não-motorizados ou o projeto do Parque Linear do Capibaribe, a Prefeitura, dá vários passos atrás como nesse projeto de mais uma avenida de alta capacidade ou na aprovação de diversos empreendimentos com milhares de vagas de garagem previstas. E
      Enquanto fala em inversão de prioridades na mobilidade, a gestão de Geraldo Julio aprova projeto com 1500 vagas de garagem na rua da Aurora

      Enquanto fala em inversão de prioridades na mobilidade, a gestão de Geraldo Julio aprova projeto com 1500 vagas de garagem na rua da Aurora

      isso muitas vezes justamente pelas mãos do secretário de mobilidade, que usurpou pra si a competência para a aprovação dos grandes empreendimentos da cidade! Para piorar, neste caso ainda há o risco de que um dos possíveis passos à frente, o Parque Linear do Capibaribe, acabe sendo diretamente atingido pelo projeto e que o dinheiro já investido nos estudos seja perdido. O que se vê nisso tudo, à parte de todos os aspectos eticamente suspeitos, é muita falta de consistência nas ações da Prefeitura voltadas para o planejamento da cidade. Falta de consistência que vem de uma falta de integração entre as secretarias, a falta de um norte num projeto claro para a cidade, pensado de forma integrada, com um horizonte de longo prazo e com muita discussão com a população. Se essas propostas fossem discutidas com as pessoas interessadas, com as associações e grupos voltados para o debate sobre a cidade, com as entidades técnicas e a academia, certamente esses argumentos apareceriam, os erros seriam evitados, milhões de reais seriam poupados e avançaríamos rumo a uma cidade mais sustentável e com mais qualidade de vida. Mas será que isso interessa à Prefeitura? 

Anúncios

Discussão

2 comentários sobre “Nova avenida Beira-Rio: dois retrocessos numa tacada só

  1. Maravilha de trabalho, obrigado Leonardo.

    A Internet mantém sua capacidade de esclarecimento e informação para além do controle dos aparelhos de repressão.

    Incrível a situação de mando e desmando de quem detém os cargos públicos, pagos com recursos de todos (no presente e no futuro) com essa ciranda de concessões ao interesse privado em detrimento do interesse público. Ainda mais com umas soluções de um mundo que felizmente está começando a deixar de existir. Hora de mudança real.

    Avante.

    Claudio Fernandes

    Publicado por ungassforum | 18 18UTC março 18UTC 2014, 13:57
  2. essa beira rio so interessa a faculdade.. esse projeto foi feito por a mesma.. sem falar que varias pessoas foram removidas de suas residencias na forma mais brutal e truculenta que a PCR usa para assaltar as familias, em 2008 uma senhora que morava ao lado do quartel do derby na beira do rio, teve seu imovel demolido e foi expulssa pela prefeitura com o argumento de que ali era uma area publica, detalhe onde era a casa dessa senhora, hoje esta plantado o edf, garagem da faculdade mauricio de nassau.. isso E UMA VERGONHA.. a PCR se PASSA PARA ASSALTAR as PESSOAS para satisfazer o dono da faculdade…PCR UM BALCÃO DE MALANDRAGEM!!

    Publicado por nilson garagem | 24 24UTC abril 24UTC 2014, 15:06

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Assine o blog pelo Facebook

%d blogueiros gostam disto: