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EMPATANDO TUA VISTA: HUMOR E IRREVERÊNCIA PARA CRITICAR A VERTICALIZAÇÃO EXCESSIVA NAS CIDADES

Texto de Edinéa Alcântara, doutora em desenvolvimento urbano, pesquisadora do Laboratório de Estudos Peri-urbanos da UFPE, membro do grupo Direitos Urbanos e uma das fundadoras da Troça Empatando tua Vista

Troça Empatando tua Vista, no Bloco Os Barbas, no Poço da Panela, Recife. Foto: Leonardo Cisneiros

Troça Empatando tua Vista, no Bloco Os Barbas, no Poço da Panela, Recife. Foto: Leonardo Cisneiros

É impressionante a repercussão da Troça Empatando tua Vista, um ato político-folião crítico à verticalização excessiva. São prismas de tecidos de cerca de 3,0m de altura, simulando arranha-céus com um padrão repetitivo de projeto, que busca imitar o que vem acontecendo no Recife, onde a altura das torres é cada vez maior e se concentram cada vez nos espaços de visão mais privilegiada: as frentes d’água. Mas se o padrão arquitetônico não privilegia a diversidade, o modelo urbanístico busca segregar o público do privado.

A verticalização crescente com a aprovação de projetos sem estudos de impacto ambiental sérios está atrelada à aliança entre o poder público e o capital imobiliário, devido aos compromissos de campanha e legitimados por uma legislação caduca e limitada, que pauta o planejamento urbano no lote individual. É o direito da propriedade privada sobrepujando o interesse público e a função social da terra com o apoio dos órgãos públicos. Tal legislação permite que um empreendimento privado, formado por um complexo de 12 torres de 40 pavimentos seja erguido em um bairro histórico e em frentes d’água, buscando o desfrute das melhores vistas. Como se não bastasse o acesso privilegiado a tais paisagens, busca-se vários mecanismos de isolamento, segregação e privatização: muralhas medievais que cercam os condomínios e deixam o pedestre vulnerável nas ruas sem olhos para oferecer segurança; espaços públicos que afugentam quem queira desfrutar da paisagem, pois não são projetados para permanência, mas contemplação dos próprios moradores dos condomínios ou por quem passa de carro. Além de se fecharem em seus altos muros, esses empreendimentos empatam a vista, empatam o sol na praia, empatam o vento, empatam a mobilidade, empatam a vida. Tudo isso tem crescido e gerado um sentimento de tristeza e de mal-estar. A falta de gentileza, de cordialidade e de respeito para com o outro é revelador do stress das pessoas com a condição de vida na cidade.

Foi nesse contexto que moradores da cidade e militantes do Grupo Direitos Urbanos se juntaram ao idealizador, Claudio Tavares, para materializar essa ideia, concebida desde 2013, para expressar indignação e tristeza, com os rumos que o capital imobiliário tem-se reproduzido na cidade. Uma das formas de expressar essa insatisfação foi através da brincadeira, da sátira.

Fundadores da Troça Empatando tua Vista, Igreja N. Sra. da Saúde, no Poço da Panela, Recife. Foto: Leonardo Cisneiros

Fundadores da Troça Empatando tua Vista, Igreja N. Sra. da Saúde, no Poço da Panela, Recife. Foto: Leonardo Cisneiros

Dessa forma, a irreverência crítica da Troça Empatando tua Vista ganha as ruas e encontra eco no coração das pessoas. De forma bem-humorada e irreverente expõe as nossas feridas, as nossas mazelas, a nossa cidade doente. As pessoas sentem, se emocionam, expressam seus sentimentos de indignação, escrevem, fazem poesia, batem fotos, gravam, dançam, cantam, se vestem de torres, contribuem com dinheiro, com trabalho, com esperança… de que assim possam mudar o destino dessa cidade, que já foi conhecida como a “Veneza Brasileira” e agora muitos chamam Hellcife ou Recífilis, a venérea brasileira.

Empatando a rua. Foto: Manu Ubertino

Empatando a rua. Foto: Manu Ubertino

 

São postadas na internet fotos do Recife de outrora, onde era possível viver a rua. As pessoas querem resgatar a memória e a alma de uma cidade que se auto-destroi a cada dia que passa. Daí a empatia das pessoas à troça, pois a brincadeira alivia o sofrimento, o stress, o mal-estar que sentem no trânsito, cada vez mais congestionado, nas ruas, com o barulho crescente dos edifícios em construção, que brevemente congestionarão as ruas e empatarão mais ainda a vista e a mobilidade.

Só resta a brincadeira, só resta a sátira, só resta a irreverência. E é aí onde a adesão da troça ganha força, pois catalisa a insatisfação das pessoas, onde o humor ocupa um papel central para potencializar a resiliência, entendida aqui como a habilidade de superar as adversidades de uma vida continuamente estressante.

Mas o humor também pode propiciar uma mudança de percepção de uma situação e mudar o comportamento do sujeito, em um movimento liberador, cômico ou criativo. Alivia a dor e pode chegar a dar prazer. Buscar rir da própria sorte. É nesse amálgama de dor e de alegria, de indignação e esperança que pode estar o ponto de inflexão para uma mudança de percepção da cidade e do potencial de protagonismos de cada um. O carnaval ajuda a criar o vínculo a estabelecer a empatia.

Creio que encontramos uma forma simples, mas efetiva de mexer com percepções e sentimentos escondidos e potencializar a discussão sobre a cidade. É isso que as ruas estão dizendo.

No Bloco Amantes de Glória. Foto Zezão Nóbrega

No Bloco Amantes de Glória. Foto Zezão Nóbrega

Perceber de dentro das torres o sorriso, a empatia das pessoas, as palavras de aprovação à nossa troça e toda a energia que vem da internet, das ruas, do povo… revitaliza qualquer um.

A gente constata que tem muito mais gente querendo uma cidade melhor para todos. E isso é muito poderoso e transformador. É uma catarse coletiva!

No Bloco Pisando na Jaca. Caboclo de Lança do Maracatu Rural. Foto: Catarina Cabral

No Bloco Pisando na Jaca. Caboclo de Lança do Maracatu Rural. Foto: Catarina Cabral

Eu, particularmente, sinto-me muito feliz de participar dessa maravilhosa expressão de identidade e de amor pelo Recife. Estamos na semana pré-carnavalesca, mas esse já é o melhor carnaval que vivi.

Queiram ou não queriam os juízes… Para mim, esse bloco já é campeão.

“Melhor mote carnavalesco envolvendo a palavra “amor”: Mais amor, menos concreto. Troça Carnavalesca Mista Público-Privada Empatando Tua Vista.

Papai do Céu, na próxima encarnação me faça pernambucana!”

“O melhor bloco dos últimos tempos!”

“bloco mais genial desse ano!”

O humor é demolidor e revolucionário. Parabéns a todos!”

“Vocês deveriam ganhar um prêmio de bloco mais criativo do ano!!”

“Todo dia me emociono com essa Troça…”

[…] achei genial o mote, o argumento e a expressão político-carnavalesca…”

Quando vi, há poucos dias, no Poço da Panela, a Troça “ Empatando a Tua Vista”, com uma sátira excelente, inteligente e educada, senti-me feliz. O Carnaval recifense, mesmo que de maneira fugaz e tímida, deu-me a impressão de que voltava no tempo. Os intelectuais romperam com o silêncio imposto pela ideologia do Politicamente Correto.”

Eu queria dizer que a troça ontem (no Som na Rural) foi a coisa mais linda do mundo. Ver pelo telão foi emocionante, porque não se via mais nada, além dos predinhos altos e do povo bem baixinho (bem síntese de Recife). O povo AMOU e o melhor foram as frases da noite: “deixa eu passar, seu predinho”.

Estou amando essa troça […] Toda vez que leio sobre a repercussão que ela está tendo me emociono. […] Não estou aí com vocês, mas faço a minha contribuição de formiguinha, compartilhando e torcendo muito por vocês.”

[…] passo aqui para dizer da alegria imensa de ver o espírito que tanto acredito ser o do D.U (Direitos Urbanos | Recife) estar tão lindo e cheio de vida nesse carnaval. Política é a melhor expressão da liberdade, da inteligência, da força dos irreverentes! Tá demais galera!”

[…] uma maneira inteligente e humorada de chamar a atenção da população para uma realidade.”

Um grupo antenado com a alegria e a cidadania. Uma defesa da paisagem aviltada com esses prédios medíocres do Recife.”

“Fantástico. Finalmente algo inovador, revolucionário. Chega mesmo dessa prefeitura liberar a construção de tantos “arranha-céus” sem graça. Um amigo meu (europeu) veio o mês passado conhecer o Brasil (Recife especificamente) e achou muito sem graça a paisagem, tudo igual e excesso de “casas grandes”. Compartilho a nossa visão. Tudo muito desumanizado.”

No Som na Rural. Foto Nilton Pereira

No Som na Rural. Foto Nilton Pereira

 

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Discussão

3 comentários sobre “EMPATANDO TUA VISTA: HUMOR E IRREVERÊNCIA PARA CRITICAR A VERTICALIZAÇÃO EXCESSIVA NAS CIDADES

  1. Excelente texto!!

    Publicado por João Augusto Dias | 27 27UTC fevereiro 27UTC 2014, 13:52

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