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Sobre o Carnaval da lei e ordem

 Texto de Pedro Brandão1520645_10151948670727968_447119663_n, sobre as medidas de ordenamento do Carnaval de Recife que levaram ao fim de um pólo de desfiles numa das áreas tradicionais da cidade e à regra de que os shows e desfiles deverão se encerrar às 2h da manhã.

 

Sobre o Carnaval da lei e ordem

No dia 13 de fevereiro de 2013, na manhã da quarta-feira de cinzas, fiz o seguinte post no meu facebook:

Às 06:10 da manhã, saiu o arrastão do Marco Zero. Sem dúvidas, o melhor momento do carnaval. Orquestra gigante, gente que parecia que nem tinha brincado 4 dias e, claro, todos bêbados e felizes. Incrivelmente, os gritos de “ah, é Pernambuco”, não paravam. Às 7:30, chegou a hora de partir. O homem da corneta já não aguentava mais. Uns resistentes permaneceram. 

Foi-se mais um carnaval.

Hoje, as vésperas do carnaval de 2014, boêmios de todo mundo recebem a notícia que a Prefeitura e órgãos de segurança pública, seguindo recomendação do MPPE, decidiram que a folia momesca terá horário para terminar: às 2 horas da madruga.

Jaguar, que ultimamente confessou que foi corneado pelo seu fígado, no livro “Confesso que bebi”, reclamava sobre a possibilidade da prefeitura retirar as mesas das calçadas (ops, qualquer semelhança com certa vereadora é mera coincidência…) e proibir a abertura dos bares até determinado horário, como diz ele, “apaulistar o Rio”: “Dá pra entender? Faz lembrar aquela marchinha de carnaval: “nós é que bebemos e eles que ficam tontos”. Por que não aproveitam esse frenessi persecutório e proíbem celulares e televisão – invasiva poluição sonora – em bares e restaurantes?

O Frenessi persecutório de Jaguar chegou a capital pernambucana. Parafraseando Jaguar, estou me sentindo corneado pelo carnaval recifense. Nosso orgulho sempre foi ter o carnaval mais livre, democrático e plural do Brasil.

Essa medida pode ser um primeiro passo para o inicio de medidas drásticas para a nossa festa. O Recife, aos poucos, vai deixando de ser Recife.

Se é para falar de ordem, Ministério Público, bem que poderia começar por recomendações mais importantes para o espaço (e o cofre) público: i) o alto gasto do poder público na manutenção de camarotes, como se fosse dever dos cofres públicos proporcionar uma folia gorda aos políticos e aos seus amigos; ii) a instalação de “front stage” gigante para a casta política e cultural de plantão nos palcos da cidade, iii) alternativas dignas para crianças que acompanham os pais trabalhadores, normalmente catadores de latinha, durante o carnaval; iv) preparo da polícia militar para lidar com eventos de massa e, para quem lembra dos carnaval retrasado, com todas as formas de amor.

Queiram ou não queiram os juízes

É claro que esse debate pode partir para outra perspectiva: o impacto sobre o Direito à cidade. Pode não parecer, mas o limite imposto pela Prefeitura gera discussão muito séria sobre os rumos da nossa cidade. O que está em jogo na verdade, é a lógica da lei e ordem em detrimento das manifestações culturais. É um conflito entra a lógica de cidade confinada, que se fecha em si mesmo, e uma cidade que permite a sua reinvenção.

Vivemos numa cidade agressiva, em todos os sentidos. Dos prédios da Moura Dubeux, rodeando nossa cidade, aos carros enfurecidos, acelerando nas nossas ruas; das calçadas cheias de buraco para pedestres e cadeirantes às pontes constantemente ameaçadas pelo medo do assalto; dos shoppings – cheios de artificialidade – lotados; as praças – cheias de árvores – vazias. Em todos esses locais, “o elemento humano é achatado”, como dizem num desses filmes cabeça da capital pernambucana.

O carnaval é um dos poucos espaços – embora existam os cordões de isolamento simbólicos – que a cidade se encontra consigo mesmo. O morador de Casa Forte esbarra no morador de Peixinhos no meio do Marco Zero. Um Carnaval livre e democrático permite a liberação das tensões sociais. Não à toa, dizem que o carnaval de Salvador, cheio de cordões de isolamento – e que projetamos como o oposto do nosso – é um dos mais violentos do país.

O horário de limite imposto pela prefeitura do Recife, aliado a proibição de blocos tradicionais nos mercados públicos, impacta na dinâmica da cidade, principalmente, de uma cidade como Recife, marcada, ao menos no carnaval, por espaços de socialização abertos. Pode gerar como resultado rebote da medida – intencionalmente ou não – um efeito potencializador dos espaços privados: as famosas festas particulares, que não terão limites de horário.

Nesse aspecto, o tema merece um pequeno aparte. Essas festas privadas, ou boa parte delas, refletem uma lógica de cidade marcada por profundas desigualdades. A busca incessante por espaços exclusivos, no fundo, é a busca por espaços de diferenciação, de não mistura, de elitização. É a lógica das cidades privadas, dos castelos neofeudais, dos condomínios fechados, reverberando na dinâmica dos espaços de diversão, lazer e cultura. Essa lógica talvez simbolize a segregação e fragmentação, típicas de uma concepção excludente de cidade.

Esse é o modelo que parece que está desenhado para a nossa cidade: o poder econômico, aliado as diversas esferas do Estado, ditam as regras de ocupação da cidade, criam espaços de exclusão e expulsam as comunidades do centro – do poder e da cidade.

No entanto, o desenho pode ser reformulado. Recife vive um momento fértil de
discussões sobre o espaço urbano. Assim, um efeito contrário pode surgir: incremento das lutas, em nossa cidade, pela reinvenção do espaço urbano também no carnaval. Essas limitações impostas pelo poder publico, as vésperas da folia, podem dinamizar novas e criativas formas de reinvenção do carnaval. Tal como no Rio, onde os blocos estão saindo à revelia da da prefeitura, independente de autorização, mas com aviso prévio (aliás, exatamente único requisito exigido pela Constituição), as festas podem surgir espontaneamente nas ruas, com tambores, sons e qualquer outra ideia que surja das cabeças dos brincantes.

Não podemos deixar que o nosso carnaval fique como os nossos governantes: sem graça, vestidos com ternos escuros, tomando whisky em algum bar de Boa Viagem. É esperar que a criatividade do nosso povo, esta sim nunca mostrou limites, inunde as ruas do umbigo do mundo e mostre que Carnaval é assim: anárquico, que não será arbitrariamente domado ou domesticado pelo poder público. Resgatar a beleza e a leveza do carnaval, para muito além do Poder público, é principal papel da sociedade civil.

Enquanto isso, Seu Prefeito, Governador, membros do MPPE, secretário de Defesa Social, Eduardo Galeano tem um recado para vocês:

“Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.”

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Discussão

10 comentários sobre “Sobre o Carnaval da lei e ordem

  1. Espero que não se importem que traduzi a maioria do artigo para inglês no meu blog sobre Recife. Deve aparecer aí nos “pingbacks” acima. Obrigado por compartilhar a informação pois nem eu sabia da ação do governo.

    Publicado por tudobeleza | 4 04UTC fevereiro 04UTC 2014, 20:20
  2. Show de bola!

    Publicado por Lucas | 5 05UTC fevereiro 05UTC 2014, 02:33
  3. Sei não! Se fosse para preservar a “tal” urbanidade teriam igualmente embargado a construção daqueles edifícios perto do porto do Recife,”Mauricio de Nassau Tower”?, sei lá o nome daquilo!quando passo por ali eu penso que cheguei em Miami!
    A comparação pode ser absurda a primeira leitura.Mas precisamente essa é a questão:o espaço urbano loteado a interesses que não são prioritários para a maior parte da população.O que querem afinal?limitar a movimentação de gente?mas onde ficam os veículos nesse “ordenamento” todo?É interessante saber o posicionamento da prefeitura sobre essa questão e outras.Quanto a proibição não acho que seja cumprida com exatidão férrea.Afinal estamos no Brasil!somos criativos o suficiente para burlar essas determinações administrativas inoportunas!

    Publicado por Marconi Cade O Amarildo Santiago | 8 08UTC fevereiro 08UTC 2014, 17:34
  4. pow tô vendo que meu comentário foi “moderado”!

    Publicado por Marconi Cade O Amarildo Santiago | 9 09UTC fevereiro 09UTC 2014, 13:16
  5. Republicou isso em Fotografias de Bicicletase comentado:
    Carnaval com desfile militar do senhor Prefeicho… A nova besta fera do Nordeste…

    Publicado por Light fisher | 17 17UTC fevereiro 17UTC 2014, 23:27
  6. Uma tristeza ver uma atitude tão impenada. Eles autorizam tanta barbárie urbana, legalização de tanta destruição “hurbana”, que até na hora estrondoza do carnaval querem impor limites. Verdadeira hipocrisia, burrice e falta de de anarquia.

    Publicado por Light fisher | 17 17UTC fevereiro 17UTC 2014, 23:30

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  2. Pingback: Querem compartimentar a espontaneidade no Recife | A Tal Mineira – Blog da Sulamita - 31 31UTC janeiro 31UTC 2014

  3. Pingback: A Carnival of law and order | Eyes On Recife - 4 04UTC fevereiro 04UTC 2014

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