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“Como Construir o Comum”

 –por  Raíza Cavalcanti

Breve relato da minha experiência como representante do D.U. Recife no evento Como Construir o Comum: as Revoltas Globais nas Redes e nas Ruas. O encontro aconteceu entre os dias 18, 19 e 20 de novembro em São Paulo e contou com a participação de diversos movimentos brasileiros e, também, estrangeiros. Confiram e opinem!

Relato sobre encontro de coletivos políticos em São Paulo (18 a 20.11)

O evento iniciou com uma aula aberta de Antônio Negri, sobre os novos movimentos sociais, situação política mundial que os genera, etc. Antes, porém, o professor da Universidade Nômade, Giusepe Cocco, fez uma fala em que destacou a seguinte situação no seio dos protestos que ocorrem desde junho no Brasil: para ele, há, aqui, uma situação de paradoxo. Há, por um lado, uma elite que celebra prisões e repressão, anti-popular e anti-mudança e, por outro, um governo que, ao passo que permitiu a ascensão social de uma grande parte da população, criando uma nova classe média, permanece sem dialogar com as novas exigências desses grupos sociais.

Daí que situa pela primeira vez a ideia de multidão, que será depois aprofundada por Negri. A multidão, pensando no atual contexto das manifestações brasileiras, se tornou um complexo de corpos, de subjetividades, de pessoas que estão juntas, como indivíduos e como multidão, numa luta que incorpora uma série de questões e reivindicações distintas. É um devir multidão que põe em xeque a legitimidade de governos (a legitimidade soberana), de instituições de exercício de poder como a mídia, e também reivindica os espaços onde se exerce, em sua maneira física, o poder, no caso as cidades.

A multidão do Rio de Janeiro, por exemplo, abrigou, em seu interior, a luta sindical da classe docente, junto às lutas contra a violência policial, contra o abuso de poder de seus governantes, contra a mídia que é anti-democrática e anti-popular. Sendo assim, a multidão é a união do múltiplo, mas, segundo Negri, não o faz como a ideia transcendental de povo. A multidão não se torna um sujeito único, apaziguado e organizado a partir do poder soberano que lhe é exterior. Sua reunião no múltiplo se dá no interior dela mesma. É quando black blocs e professores se reconhecem e se reúnem no interior da troca de corpos no meio da multidão que essa unidade se dá. É quando as subjetividades black bloc, black profe, professores em luta começam a se formar, todos juntos, nessa simbiose corporal e vital, que acontece a unidade da multidão, que é transitória e aberta (por isso o devir multidão).

E, para não alongar muito nesse preâmbulo, é a partir dessa ideia de multidão que Negri segue sua reflexão sobre a busca do comum. Porque, para ele, a multidão inaugura um outro sentido do que é público, traz consigo a colaboração, implica um sentido de nós. Pensando no sentido do que é público como dimensão controlada pelo Estado, vê-se que ocorreu uma confusão entre este conceito e a ideia de privado, principalmente após os processos de privatização. O Estado, assim, virou uma esfera patrimonialista, onde o que é público e o que é privado se tornou indistinto, provocando o distanciamento e a desconfiança na população. Em vez de pensar o público, Negri propõe pensar o comum “como capacidade de exprimir riqueza através da cooperação da multidão”.

Escapar da ideia de propriedade privada, de financeirização da vida, recobrando o comum, a participação democrática e a revitalização da política é, para Negri, traços compartilhados por vários dos atuais movimentos globais. Para ele, em quase todos os manifestos é possível encontrar a combinação de crítica à representação política deficitária e à desigualdade social provocada, em grande parte, pelo domínio financeiro sobre todas as esferas da vida. Desse modo, quase sempre, os movimentos se dirigem a um inimigo comum: o domínio financeiro e a corrupção que provoca na esfera da representação política. É desse modo que, para ele, seria a lógica federativa, como um modelo baseado na associação, o paradigma de construção de novas instituições capazes de pensar na autogestão do comum e de exercer uma política da pluralidade.

Após essa aula de Negri, ficou claro pra mim qual era a linha organizadora do evento, no interior do qual incluíram a nós do Direitos Urbanos Recife. Em comum, todos os movimentos que aí estavam dialogando, traziam em comum as noções de formação de multidão e associações em rede, com o objetivo de reivindicar o comum e a participação democrática na esfera política (e pública), em geral dominada pela lógica financeira a qual expropria, de todos, direitos básicos. Porém, percebi que existiam algumas diferenças entre esses movimentos, a meu ver provocadas por não só distintas maneiras de associação, mas também, creio eu, por estágios diferentes nesse processo de formação.

Os debates foram iniciados pelos espanhóis Torelo e Bernardo Gutiérrez, representantes do movimento 15M. Mais conhecido como “Indignados da Espanha”, esse é um movimento que, até hoje, está contribuindo para uma mudança no ethos político do país. Iniciado em maio de 2011, a partir da ocupação da Puerta del Sol de Madrid, segundo Bernardo, o 15M tem promovido assembleias desde então, que reúnem novamente as pessoas e começam a dar um novo sentido ao espaço público (e inauguram esse novo sentido do comum de que fala Negri). É um movimento que aos poucos vem impactando e revitalizando os antigos movimentos sociais de esquerda, mobilizando a população e “hackeando” o sistema desde dentro. Recomendo este link com um texto sobre o 15M escrito pelo próprio Bernardo e compartilhado para nós via Cláudio Tavares de Melo (http://revistaforum.com.br/blog/2013/08/o-que-o-brasil-pode-aprender-com-o-movimento-15m/).

Durante a fala deles, Bernardo e Toré falaram da Espanha e do Ouppy e, principalmente, junto com Tiago Pimentel, contextualizaram o Brasil no seio das manifestações globais a partir de uma análise mais técnica, centrada no funcionamento da internet. Segundo destacado por Cláudio, o mais interessante nesse momento foi quando eles mostraram um painel que captava a efervescência dos levantes via twitter, identificando que entre os multiplicadores de conteúdo, os ativistas de rede tinham mais poder de alcance do que “la prensa” (a imprensa).

Após essa abertura, fomos chamados (Cláudio e eu), representando o Direitos Urbanos Recife, junto com Bruno Rogens (Assembleia popular do Maranhão / Passe Livre), Jaqueline Pontes Dias (OcupaAles e movimentos do Espírito Santo), Fabrício Rocha (Movimento Belém Livre), Marcelo Branco (Porto Alegre) e mais dois representantes de movimentos do Ceará e Rio de Janeiro para abrir as rodas de diálogo. O que provocou um certo desconforto, nesse momento, foi o aviso de que só teríamos 8 minutos para falar sobre cada um dos movimentos. Ficamos um pouco desconfortáveis com essa limitação, visto que Cláudio e eu havíamos pensado em realizar uma apresentação do D.U. que contasse um pouco do percurso realizado pelo grupo desde o início até o momento atual. Pretendíamos, minimamente, tentar mostrar ao público que acompanhava o evento, a passagem de um momento de agregação inicial, a partir de um evento motivador de indignação, a um outro processo mais organizacional e ativo, promovendo ações concretas no interior da esfera política e pública.

Nessa mesa, da qual participamos, percebi que quase todos os outros movimentos, à exceção do D.U, haviam se constituído esse ano, muitos deles no calor dos protestos contra a copa e pelo transporte público. Todos eram “filhos” das jornadas de junho, se assim se pode dizer. Mas, mesmo percebendo essa diferença temporal entre o D.U e os outros movimentos, que ficava visível em como ainda buscavam formas de organizar a ação coletiva e mais efetiva nas esferas políticas e públicas, todos partilhávamos de similares preocupações em relação à ocupação predatória das cidades pelo capital imobiliário (a exemplo do manifesto em favor do Parque do Cocó em Fortaleza), em relação à violência policial financiada pelos Estados e abertura para o diálogo com outros movimentos e organizações, principalmente as das periferias.

Cláudio foi chamado a falar e, basicamente, procurou “contextualizar Recife como uma cidade histórica que vem sendo vítima da expansão imobiliária predatória – principalmente na última década”. Falou também da relação de “intimidade” do poder público com o capital privado, da falta de planejamento e suas consequências: perda do direito à cidade, do desrespeito ao patrimônio histórico e cultural e do processo higienista. Mencionamos, também, a nossa relação com o Coque e a situação do FLTP (com 20 estudantes indiciados pela SDS).

Foi difícil, no tempo de 8 minutos, falar tudo o que o D.U já fez e conquistou. Mas buscamos, Cláudio e eu, tentar pontuar a necessidade do Direitos Urbanos de focar no âmbito municipal através da produção de conteúdo e Ocupes, formando opinião, furando a imprensa e sensibilizando quanto ao direito à cidade, das nossas ações jurídicas e da articulação na V Conferência das Cidades e no ConCidades.

Na sequência, integrantes do Ocuppy (EUA), Yo Soy 132 (México), uma representante do Movimento Estudantil do Chile, além de Janaína Spode representando o CCDD de Porto Alegre e Pedro Mendes, da Universidade Nômade, representando da Assembleia Popular do Largo seguiram os diálogos. Nessa mesa, um dos relatos interessantes foi o da mexicana Laura Murilo, representante do YoSoy132, contando o início da formação desse movimento e seu impacto posterior. Era impossível não ver a realidade de Recife em seu depoimento.

O início do movimento YoSoy132 se deu depois que 131 estudantes foram criminalizados, presos e denegridos na imprensa mexicana depois de fazerem uma manifestação contra o presidente Peña Neto. A partir das redes sociais, os próprios estudantes começaram a desmentir o que saia sobre as manifestações na imprensa, a revelar o jogo do presidente contra eles e começaram a angariar uma grande mobilização para sua causa. Assim surgiu YoSoy132, uma referência ao número de estudantes (eu sou o 132). Das redes, o manifesto seguiu para as ruas e, a partir daí, começou a agregar outras pautas, a se reorganizar em outras frentes, reunindo-se a outros grupos. Se transformaram em uma frente de luta contra o presidente Peña Neto (que, nas palavras de Laura, é um presidente de novela), a imprensa mexicana (completamente manipuladora e vendida aos interesses financeiros) e, também, a violência policial.

Foi interessante também escutar Sofia Gallisá, representante do Occupy, quando mencionava o paradoxo da relação da NSA (aquela agência do governo americano que a gente ficou conhecendo depois de Snowden) e da polícia com o manifesto. Por um lado, espionavam os manifestantes e buscava relacioná-los às ideias de terrorismo para criminalizá-los. Por outro, alguns agentes e policiais se aproximavam do grupo (de maneira quase sempre escondida) para pedir e prestar apoio. Ela contou uma situação em que, em uma festa de natal, um policial ligou para o telefone pessoal de um dos participantes do Ocuppy e pediu que fosse socorrer uma pessoa que passava mal, caso que ele havia sido proibido pela chefia de atender.

Em outro momento, se destacou também o depoimento de Pedro sobre a situação do Rio, Cabral e Black Blocs. Emocionou sua fala sobre a reunião dos professores com os blac blocks, a maioria deles adolescentes, moradores da periferia. Destacou a atuação da assembleia popular, a reunião de pessoas de distintas idades, especialmente pessoas muito jovens, e a necessidade urgente de discutir a questão da violência policial no Rio. Questionou veemente a nova legislação que vem sendo criada em caráter de urgência no Rio a fim de enquadrar criminalmente os ativistas.

A impressão geral que dá pra resumir do evento, não sei se pelo fato de haver a participação da Prefeitura de São Paulo na organização, foi que havia um caráter um pouco formatado no início, o que prejudicou um pouco uma troca mais ampla com o público que estava assistindo. Sentimos que, para todos, aquele momento de apresentação foi uma mera formalidade, visto que quase ninguém teve muito tempo de colocar questões críticas que levaram às manifestações de maneira mais aprofundada. Também se tinha pouco tempo para responder às perguntas feitas pela plateia, o que dificultava a comunicação.

Porém, no segundo momento do evento, voltado apenas para os participantes (sem a participação do público), o diálogo fluiu com mais intensidade e foi possível conhecer melhor, tanto os ativistas, como as pautas de seus movimentos e a situação em que estavam. Foi um importante momento de diálogo que, certamente, está rendendo frutos até o momento, visto que essas trocas extrapolaram a formalidade do encontro. Se estabeleceu, por exemplo, a partir daí, um importante canal entre o D.U. e Bernardo, do 15M, com o qual seguimos trocando e aprendendo bastante.

Ao final, me causou um incômodo (e deixo claro que é de minha responsabilidade esse questionamento) o fato de não haver sido convidado o pessoal do Movimento Passe Livre, que, teoricamente, inciou essa série de movimentos por todo o Brasil. Eles não são movimentos em rede? Eles não constroem o comum? Qual o motivo dessa negligência? Ficou essa questão.

Como já destacado, no fim das contas, o Construindo o Comum foi muito positivo pelo fato de pôr em contato uma série de pessoas e movimentos do Brasil e de fora. Esse encontro, certamente, extrapolou o evento e será muito importante como troca de experiências para auxiliar a todos nas ações futuras que se pretende empreender. A formação de assembleias populares é apontada como a alternativa de vários desses movimentos na tentativa de repensar a política e recriar as formas de participação na esfera pública.

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