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Intransitáveis calçadas

Prof. Dr. Érico Andrade (coordenador do Mestrado em Filosofia / UFPE) ericoandrade@gmail.com
Coordenador da Ameciclo e membro dos Direitos Urbanos

Calçadas diminuídas pelo arbítrio dos proprietários dos prédios e casas que prolongam as suas áreas indiscriminadamente. O privado invade o espaço público e dita seus contornos. Espremidas, curtas e muitas vezes inexistentes, as calçadas se embaçam na visão do poder público. Elas não são frequentadas por quem se desloca de estacionamento para estacionamento, por quem anda apenas pelos corredores dos prédios e centro comerciais. As calçadas deterioradas indicam o domínio exclusivo dos carros na política de mobilidade da cidade e uma omissão indescupável do poder público.

Nas ruas a ausência constrangedora de faixas de pedestres – quanto que será que custa pintar faixas de pedestres? Será mais caro do que manter a ciclofaixa de lazer? – indicam que o caminho está livre para os carros. Quando existentes e acompanhadas de sinal, as faixas de pedestres servem para ratificar a situação de assimetria da mobilidade em Recife. Do momento em que se aperta o botão para fechar o sinal para o momento em que o sinal fecha passe-se uma eternidade. Quando aberto o sinal de pedestre exige um desempenho atlético dos transeuntes que devem cruzar avenidas em parcos segundos. O pedestre perde, portanto, duplamente. Por um lado, porque a sua prioridade, prevista pelo código brasileiro de trânsito, é ferida pelo fato de que o tempo reservado ao tráfego dos carros é muito maior do que seu tempo para se deslocar na faixa. Por outro, porque ele é obrigado a esperar indefinidamente o sinal abrir. Espera-se, espera-se, espera-se.

As ruas esburacadas, sobre as quais os motoristas concentram as suas reclamações, prejudicam mais ainda os pedestres passíveis, por serem invisíveis, de serem molhados por lama, esgoto e na melhor das hipóteses por águas da chuva. Muitas vezes a alta velocidade, sempre imprudente, associada às más condições das vias constitui numa combinação perigosa especialmente para o pedestre muitas vezes vítimas, em plena na calçada, de carros desgovernados. Outras vezes, as calçadas diminutas ou repleta de obstáculos forçam o pedestre a se arriscar nas vias dominadas soberanamente pelo transporte motorizado individual.

Sem árvores, cortadas para resguardar a publicidade das lojas ou por outros motivos não menos torpesas calçadas tornam-se ainda mais inóspitas. O sol e o calor se conjugam numa equação em que se subjuga o pedestre a um ambiente profundamente árido, quase desértico. Para os que guardam alguma dificuldade de locomoção a inacessibilidade das calçadas os força a se deslocarem pelas viasNovamente risco de se tornarem mais um número na escala estratosférica dos acidentes de trânsito é iminentePara os que têm dificuldade visual resta a solidariedade de outros transeuntes porque os sinais sonoros são escassos, quase inexistentes. Na medida em que tudo conspira contra o pedestre a cidade se desumaniza e faz da forma mais saudável de mobilidade e menos onerosa ao meio ambiente umepopeia cujo desfecho quando não é completamente trágico é o sintoma agonizante da exclusão social.

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Discussão

5 comentários sobre “Intransitáveis calçadas

  1. Evidenfte… O retrato do descaso com a população se reflete também nas nossas calçadas sim!!!

    Publicado por Emília Rosa | 6 06UTC novembro 06UTC 2013, 23:53
  2. Aqui seguem as normas para esse tipo de matéria: Lei nº 16890 de 11.08.2003 e Decreto nº 20.604, 20.08.2004 que regulamente a Lei. No entanto, penso que nós, cidadãos, também temos o direito de agir civicamente quando da falta do poder público ou do responsável legal. Assim, semanas atrás, uma amiga conseguiu que alguns pedreiros de uma construção por perto resolvessem o problema de uma calçada em que o filho dela tem que passar todos os dias, considerando sua necessidade especial de locomoção. A ética social é mais ágil que a burrocracia do Estado. Aproveito e acrescento algo: serei mais radical Professor Érico, a desumanização da cidade, tema discutível, não é um sintoma, penso eu, mas a doença propriamente dita. Um tipo de enfermidade visível e sensível, mas que, nas rotinas cotidianas, encontra seu lugar no esquecimento, em que um dos sintomas é a velocidade dos afazeres contemporâneos. Texto legal, mas que em pleno 2013, não precisaria ser escrito. Isso, sim, é trágico e terminal. É isso.

    Publicado por diego salcedo | 11 11UTC novembro 11UTC 2013, 12:29
  3. Eis um problema antigo. Presumo que de fato a calçada deveria ser responsabilidade da prefeitura e não dos proprietários, padronizando-as em suas dimensões e nos seus materiais de construção.

    Publicado por Fábio Pacheco | 2 02UTC dezembro 02UTC 2013, 18:03

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