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A liberdade para o passe

Prof. Dr. Érico Andrade (UFPE) Membro dos Direitos Urbanos e coordenador da Ameciclo

 

Contra a corrupção. Contra a política partidária. Contra o uso indevido do recurso público. Pautas que podem agregar diferentes atores políticos. Veja, Globo, colunistas mais ou menos conservadores, todos chancelam um discurso moralista contra a corrupção e tentam transformar essa bandeira óbvia, que é condição para a política e não o seu fim, no discurso que se dilata nas ruas do Brasil pelo passe livre. Substituir a discussão política por uma discussão moral é um modo de identificar as manifestações a uma bandeira que não visa a alteração do status quo. É uma bandeira que não altera a pauta política porque se contentam em combater o político; muitas vezes pela demonização dos partidos políticos. Essa é uma estratégia de converter a unanimidade incontesta da luta pelo fim da corrupção na identidade de um movimento difuso cujas pretensões são bem maiores. Trata-se de uma estratégia ardilosa porque confunde a moral com a política para despolitizar as manifestações renegando-as a um ato contra políticos e fomentando o desprezo, nem sempre justificado, pelos partidos.

Outra estratégia da mídia para despolitizar o debate e vedar o caráter ideológico do movimento é reduzir à sua pauta a uma contrapartida tímida, quantificável, negociável. Centavos a mais. Centavos a menos. Tudo se reduz ao preço da passagem. No máximo, fala-se, abstratamente, da necessidade de melhorar o transporte coletivo. Pouco. A estratégia nesse caso é sedimentar em mais uma obviedade os protestos: é preciso melhorar o transporte público. Mas, o que a imprensa, numa convergência tácita e dissonante do caráter difuso do movimento, quer esconder? Por que laçar mão dessas formas de tipificar os movimentos por aquilo que é apenas a ponta do iceberg?

Se existe algo realmente subversivo nos protestos, é a compreensão de que as boas e criativas ideias não devem ser podadas na raiz por um discurso fatalista que encontra na aparentemente neutra técnica um escudo para não alterar a política. Não raro é ouvir que tecnicamente é inviável reduzir o preço da passagem. Tecnicamente as mudanças radicais são inviáveis, dizem. O passe livre é tido por uma grande utopia porque dissociada de uma viabilidade técnica. Nessa fatalismo que sepulta as ideias, de fato, revolucionárias é que reside a miopia congênita da imprensa em face da natureza subversiva do movimento.

O que se quer com o passe livre é distribuição da riqueza e, consequentemente, a promoção da justiça. A exigência é que o transporte individual motorizado pague o seu oneroso custo social e ecológico por meio do financiamento do transporte público. Deve-se aumentar os impostos sobre os carros para que eles paguem, pelo menos, um décimo do que eles custam para a sociedade. O financiamento dos transporte público é uma exigência que coloca no patamar do debate nacional uma política de mobilidade conforme a qual o transporte segregador – o veículo individual motorizado – seja um meio de financiar o transporte público. Isso é inverter a lógica que destina investimento público em ampliações de ruas e avenidas, muitas vezes acompanhadas pela mutilação de espaços públicos, como praças e calçadas, para que o coletivo seja prioridade em face dos interesses privados. O passe livre é não é a abertura ao mercado. Ele é um controle social do mercado que força os interesses individuais, que governam o monopólio do transporte individual motorizado, a lastrearem o bem público. Ele é subversivo porque ataca o capitalismo naquilo que se constitui o seu maior símbolo, a saber, o carro para beneficiar aquilo que está no coração da esquerda: o coletivo. O movimento do passe livre assusta porque mostra que as boas ideias não morreram ou foram soterradas pelo discurso técnico. Ele exige que a política seja criativa e, nesse sentido, subverta a lógica do interesse individual para beneficiar o bem público.

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Discussão

13 comentários sobre “A liberdade para o passe

  1. ”Substituir a discussão política por uma discussão moral é um modo de identificar as manifestações a uma bandeira que não visa a alteração do status quo. É uma bandeira que não altera a pauta política porque se contentam em combater o político; muitas vezes pela demonização dos partidos políticos.”
    A moral precede, e muito à política, e a determina sobremaneira! Não há política sem debate moral, não obstante há moral sem política, toda ela convergindo e findando numa ética. Tentar relativizar o conceito e minimizá-lo é só uma tentativa de validar um discurso político outro, que perde, naturalmente, toda a sua essência, já que não parte de moral alguma, mas sim de uma ”causa, uma luta”.

    Publicado por Um Dissidente | 20 20UTC junho 20UTC 2013, 08:57
  2. Acredito que é um passe livre para além do transporte público, mas um passe livre para uma voz engasgada na gargante diante dos diversos aspectos que você citou Érico. Contudo, no que concerne ao ponto que você coloca sobre ” a exigência é que o transporte individual motorizado pague o seu oneroso custo social e ecológico por meio do financiamento do transporte público. Deve-se aumentar os impostos sobre os carros para que eles paguem, pelo menos, um décimo do que eles custam para a sociedade” acredito que precisa se observar outras coisas. Essa dívida deve ser paga por quem utiliza o transporte individual e motorizado? o que está em jogo aí? Acho importante um espaço para pensar, por exemplo, sobre o que influencia nesse desejo por um transporte individual e motorizado que, certamente, não gira apenas em torno da má qualidade do transporte público ou da carência de acessibilidade. Não acredito que utilizar o aumento de imposto como um forma punitiva diante dessa tal dívida funcione para subverter os interesses particulares de certos grupos, talvez até venha a reforçar uma série de outras coisas. Falamos sempre da conscientização em nome da questão social e ecológica, mas o que é isso mesmo? Consciência?
    Acho importante Érico que no departamento de Filosofia sejam criados espaços para discutir essas coisas. Para que haja um diálogo com essa demanda contemporânea que bate a nossa porta, que possamos ir para além dos muros da academia como foi pontuado na última apresentação de Marcelo em que você estava presente.

    Abraços.

    Rebeka Gomes

    Publicado por Rebeka Gomes | 20 20UTC junho 20UTC 2013, 12:57
  3. Érico, você está errado em afirmar que a luta pela currupção é óbvia unânime. Não são poucas as falas de supostos intelectuais identificados com uma ainda mais suposta esquerda a saírem em defesa do PT afirmando que financiamento de campanha por empreiteiras (a concessão que gera o superfaturamento em obras públicas) e o mensalão são coisas da politica e uma forma estratégica de subverter uma democracia burguesa. Não sejamos hipócritas: as ditas esquerda e direita nunca tiveram problema algum com a corrupção exceto quando ocupam o lugar de oposição. Também não é tarefa árdua despolitizar uma movimentação sem qualquer unidade e composto por uma massa disforme, uma juventude hiper consumista e sem formação política alguma. O que veremos hoje é uma reação automática. Não há ali tatefa alguma de um pensamento verdadeiramente esclarecido e político.

    Publicado por Pedro Gabriel | 20 20UTC junho 20UTC 2013, 13:55
    • Boa noite! Tendo a ver de modo diferente. Acho que essas manifestações ainda precisam ser pensadas. Pretendo escrever um texto para a Anpof (Associação de pós graduação de fil. do Brasil) em que tenciono aprofundar mais. Um abraço e grato pela leitura!

      Publicado por Érico Andrade | 25 25UTC junho 25UTC 2013, 21:08
      • Oi Érico. Sim, elas precisam ser pensadas e é justamente o que estamos fazendo. A demanda de pensamento não deve, entretanto, ser o mote para a aplicação de velhas formas. Elas devem ser pensadas a partir de novas categorias e dos novos contextos em que se inserem. É anacrônico compará-las (as manifestações), por exemplo, à passeata dos Cem Mil contra a ditadura. Existem traços profundamente diferentes e é a tarefa do pensamento partir deles para construir um entendimento preciso. Outro dado que em seu texto carece de reflexão é a ideia de que Passe livre promove distribuição de riqueza e consequentemente justiça. Esse ponto precisa ser demonstrado. Como ele pode ser distribuição de riqueza? Esse dinheiro não aparece do nada, pertence a um ciclo de impostos e será embutido em alguma outra tarifa para inclusive pelos usuários de ônibus. Isso é algo elementar. Os manifestantes (não o MPL, mas os que lotaram as ruas com causas amorfas) parecem querer em sua indecisão não é um Estado Mãe de tetas fartas onde todos vivam às custas de todos, mas o justo oposto. Querem menos peso e mais liberdade. Com essa ideia corrobora o incômodo sentido pelos movimentos governistas, supostamente politizados, com essa energia de protesto.

        Publicado por Pedro Gabriel | 26 26UTC junho 26UTC 2013, 12:26
  4. Parei no “testo”!

    Publicado por Ai! | 20 20UTC junho 20UTC 2013, 16:00
  5. A única coisa confusa no texto foi um errinho bem bestinha na hora de redigi-lo:
    “O passe livre é não é a abertura ao mercado”

    Entretanto, penso que todas entenderam que Érico tencionou comunicar o seguinte:
    “O passe livre não é a abertura ao mercado”

    Publicado por Camille | 21 21UTC junho 21UTC 2013, 00:33
  6. Prof. Érico: esse trecho “O que se quer com o passe livre é distribuição da riqueza e, consequentemente, a promoção da justiça” não é irrelevante quando considerado que tais movimentos são essencialmente uma “expressão da classe média”?

    Publicado por filoteologia | 21 21UTC junho 21UTC 2013, 15:20
  7. “Substituir a discussão política por uma discussão moral é um modo de identificar as manifestações a uma bandeira que não visa a alteração do status quo.”
    Só aí disse tudo! Muito bom o texto Prof. Érico!

    Publicado por Gustavo | 6 06UTC julho 06UTC 2013, 10:23

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