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A esquerda do novo tempo: os diferentes matizes do vermelho.

Érico Andrade, professor de filosofia da UFPE

Gays, ciclistas, lésbicas, urbanistas, defensores do comércio sustentável e do transporte público, militantes negros, defensores dos direitos dos animais, vadias organizadas, etc. Várias bandeiras. Diferentes colorações. Polifonia. Atores políticos que contrariam as grandes narrativas. Para uma esquerda clássica: são reformistas ou simplesmente burgueses. Contudo, esses novos atores fazem política, na maior parte dos casos, sem partido, mas não necessariamente sem um elo político em comum. Aparentemente na contramão da unidade, fazem um movimento parcialmente difuso, ou, pelo menos, sem a tutela de uma ideologia instituída monoliticamente. Mas, será que esse caráter particular os movimentos sociais implica uma neutralidade política ou uma forma de fazer política que passa ao largo da divisão entre esquerda e direita?

Se considerarmos que o projeto de esquerda consiste prioritariamente na redução de assimetrias sociais a respostá é não. Parte importante da crítica da esquerda clássica à divisão de classes passa pela crença de que o fim do capitalismo promoveria o fim das diferenças mais marcantes e injustas entre os seres humanos. Ninguém está disposto a duvidar que a falta de recursos materiais, indispensáveis à sobrevivência, provoca desigualdade, mas a questão que se coloca aqui é se o fim da luta de classes ou, pelo menos, o apaziguamento das assimetrias econômicas mais severas, garante uma igualdade de direito, de reconhecimento.

O que os movimentos sociais supracitados indicam é que não. De modo ainda mais grave: eles demonstram que as próprias assimetrias econômicas para serem de fato resolvidas precisam considerar algumas lutas específicas, porque essas assimetrias estão muitas vezes ligadas a estruturas sociais que reproduzem padrões de dominação históricos. Esses padrões dificultam o próprio fim das assimetrias econômicas porque configuram uma divisão injusta da distribuição da renda independente de qualquer questão de classe ou crescimento econômico. Existe diferença de ganhos entre mulheres e homens que ocupam o mesmo cargo. Negros têm mais dificuldade em conseguir emprego do que os brancos. Os gays assumidos dificilmente ocupam um cargo de liderança em órgãos públicos e na maior parte do setor privado. O planejamento urbano reproduz as assimetrias quando destina parte importante dos recursos para viabilizar o uso dos carros que degradam o ambiente e representam, se usados em larga escala, um custo energético impagável. Ou ainda, quando o planejamento urbano financia assimetrias por meio da criação de cidades com espaços que segregam ricos e pobres. A divisão justa e equitativa dos salários de uma fábrica não é capaz de torná-la viável ecologicamente, caso esteja estruturada no modelo de desenvolvimento predatório. Os animais continuaram condenados à escravidão, caso a prioridade do nosso prazer justifique o sofrimento de outras espécies.

Se é possível uma unidade das esquerdas hoje, ela dificilmente estará numa unidade partidária, presa à lógica da reprodução do poder e aos interesses muitas vezes obscuros que lhe acompanha, mas no reconhecimento de que por mais diversas que sejam as bandeiras, elas apontam para uma mesma direção, à esquerda. Elas se opõem a todas as formas de assimetria sociais instituídas de modo unilateral; sejam essas assimetrias oriundas das diferenças entre gêneros, espécies, raças, modais, orientação sexual e statos sociais. Quando essas diferenças reconhecem no combate a essas assimetrias um elo em comum, é possível falar de algo mais subversivo.

Nas manifestações públicas e articuladas nas redes sociais, promovidas por esses diversos segmentos, a percepção desse elo em comum se acentua e pode financiar uma crítica convergente, mas não uniforme, das assimetrias sociais. Nas manifestações de rua ocorre uma troca de experiências que nos mostra que a opressão tem diferentes formas e, portanto, precisa ser combatida de diferentes maneiras, mas deve ser uma luta encampada por todas as pessoas, unidas. No convívio dos diferentes movimentos pode-se nutrir um sentimento de pertencimento a uma mesma condição de luta contra a opressão. Nas ruas a diversidade e pulverização das redes sociais se transforma numa unidade política poderosa capaz de exigir não apenas mais desenvolvimento, mas um outro mundo cuja possibilidade está no alcance de nossas mãos vermelhas. 

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