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Artigos

À margem da ciclofaixa

Dr. Érico Andrade
(coordenador do mestrado em Filosofia UFPE / Coordenador da Ameciclo)
ericoandrade@hotmail.com

Bicicletas recuperadas. Pedais sincronizados com o lazer, saudável lazer. O domingo mais colorido com adereços mais ou menos sofisticados para as bicicletas. Pessoas promovendo o inacreditável

Érico Andrade no evento de inaguração da AmeCiclo

Érico Andrade no evento de inaguração da AmeCiclo

engarrafamento de bicicletas. Risos fartos. Olhares concentrados, sobretudo dos que descobrem pouco a pouco o prazer de transitar de bicicleta pelas ruas do Recife. Tudo que espelha a alegria concentrado nas ciclofaixas móveis. Com efeito, na medida em que a tarde esfria e que os cones de segurança começam a ser retirados o perigo volta assolar os ciclistas, mas na forma de um terror mais intenso.

A repressão do tempo desacelerado, minimamente desacelerado, para delimitar o espaço da ciclofaixa móvel, logo se transforma em rugir de motores. A velocidade dos carros reivindica o tempo perdido. Finos. Cada centímetro da rua volta a ser disputado. A assimetria da disputa, dada pelos diferentes pesos da bicicleta e dos carros, empurra o ciclista para a sarjeta. Todos os sinais dos carros ressoam uma única pergunta: o que vocês, ciclistas, estão fazendo na rua?

No cotidiano do ciclista essa pergunta, com intensidade variada, faz parte do cardápio de insultos. Bradam os mais apressados: saiam da frente porque aqui não é lugar de bicicleta! Outros, sem titubear, anunciam aos domingos: acabou a ciclofaixa! Quando os cones não foram ainda retirados e o ciclista faz outro percurso, escuta: vai para a ciclofaixa! Todas as frases acompanhadas de buzinadas, intermináveis buzinadas que não cessam quando o carro monopoliza a rua e exclui o ciclista da via. Elas continuam para marcar a posição dos vencedores, dos carros. Paradoxalmente, andar de bicicletas aos domingos está mais perigoso. As razões para oprimir ganham uma feição institucional, pois a decisão da prefeitura de delimitar o espaço e tempo da ciclofaixa soa, por falta de uma campanha educativa séria, como um limite para o uso de bicicletas. Os carros entenderam o recado. Na ausência do congestionamento dos dias úteis eles aceleram no domingo num ritmo que une a imprudência ao empoderamento da tonelada de aço do carro.

A ciclofaixa móvel sem um acompanhamento educativo reforça o monopólio dos carros. Ela não altera a política que continua reservando para estacionamento gratuito dos carros áreas que bem poderiam tornar-se ciclofaixas. Ela é igualmente inócua no que consiste em fiscalizar e monitorar a velocidade dos carros que se mantém rápida perto da ciclofaixa móvel. Pior é saber que o maior obstáculo à implementação de ciclofaixas é a dificuldade de desacelerar o trânsito, de aumentar o tempo de deslocamento dos carros e promover a segurança de ciclistas e pedestres. Enquanto as políticas públicas, mesmo disfarçadas de boas intenções, mantiverem o protagonismo dos carros nunca teremos um sistema cicloviário extenso e seguro, nem faixas de pedestres em cada esquina porque isso implica necessariamente o aumento do tempo de deslocamento dos carros. É preciso saber o que o governo quer priorizar: o lazer esporádico ou a mobilidade de transporte saudável e sustentável.

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Leia também: Propostas para Bicicleta ou Para Além da Ciclovia

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Discussão

8 comentários sobre “À margem da ciclofaixa

  1. Brav

    Publicado por Bruno | 10 10UTC maio 10UTC 2013, 13:38
  2. Excelente texto, Érico!

    Publicado por Daniel Valença | 10 10UTC maio 10UTC 2013, 15:57
  3. Quando o projeto das ciclofaixas moveis foi anunciado, fiquei com uma sensacao de inseguranca, de que isso nao ia adiantar. Mas, como nao tinha uma explicacao racional para minha desconfianca, meu desabafo foi veementemente rebatido pelos amigos, como se eu estivesse agourando a iniciativa tao legal de comecar uma mudanca. De fato, guardei minha inquietacao e fiquei observando. Seu texto conseguiu traduzir aquela sensacao. Grata, amigo.

    Publicado por Viviane | 11 11UTC maio 11UTC 2013, 20:38
  4. Perfeito, Dr Erico. Tambem tive a mesma sensação da Viviane. Que os motoristas ia entender a instalação da ciclofaixa como limitação do uso da bicicleta unicamente como lazer e em horario determinado. Eu que uso a bicicleta diariamente como meio de transporte sei bem o que voce quis dizer. Hoje num dos intervalos do telejornal vi uma campanha do governo sobre compartilhamento das vias. Já é um começo mas ainda falta muito. As pessoas precisam entender qua as ruas não são exclusivas para a circulação de veiculos motorizados pois o transito eh feito pelas pessoas. A pé, de carro, de onibus, de bicicleta, etc. Outro ponto é que não se pretende que todo mundo troque o carro pela bicicleta e sim respeite quem tomou essa decisão e que aprendam a compartilhar as “VIAS PÚBLICAS”. Parabéns e muito obrigado pelo texto.

    Publicado por Rildo Leão | 20 20UTC maio 20UTC 2013, 14:35
  5. Amigos,

    Segue, anexo, artigo sobre as ltimas chuvas no Recife e projetos como o Novo Recife, Ilha do Zeca e a Reserva do Paiva, para avaliao de vocs e possvel publicao no site.

    Um abrao,

    Ruy Sarinho (81) 87160065

    Em 10 de maio de 2013 10:57, Direitos Urbanos | Recife escreveu:

    > ** > Leonardo Cisneiros publicou: “Dr. rico Andrade (coordenador do > mestrado em Filosofia UFPE / Coordenador da Ameciclo) > ericoandrade@hotmail.com Bicicletas recuperadas. Pedais sincronizados com > o lazer, saudvel lazer. O domingo mais colorido com adereos mais ou menos > sofisticados”

    Publicado por Ruy Sarinho | 22 22UTC maio 22UTC 2013, 12:31

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