//
você está lendo...
Artigos

Perdemos a rua

por Prof. Dr. Érico Andrade
(coordenador do Mestrado em Filosofia / UFPE)
ericoandrade@hotmail.com

 

Pessoas jogando dominó na rua do Imperador, Centro do Recife (foto: Leonardo Cisneiros)

Pessoas jogando dominó na rua do Imperador, Centro do Recife (foto: Leonardo Cisneiros)

 

Recife, 
vejo-te morto, mutilado e triste,
pregado à cruz de novas avenidas

Joaquim Cardozo

 

 

Cadeiras nas ruas. Pessoas conversando. Prosa. Não é preciso apelar a um saudosismo, que muitas vezes é refratário às conquistas do presente, para reconhecer que as ruas do Recife (de várias cidades do Brasil) foram esvaziadas pela construção de novas avenidas. A rua deixou de ser um lugar de convivência para ser passagem, destino. Calçadas diminuídas, pistas ampliadas. Temos pressa para passar. Nos encouraçamos nos carros como fortalezas que nos isolam da rua, das outras pessoas. Novamente, a rua é só passagem. Mas, qual é o impacto sociocultural disto?

Desagregação. Com a perda da rua fragiliza-se um dos importantes laços sentimentais e visuais que torna as pessoas socialmente vinculadas umas às outras, pois é na rua que conhecemos pessoas além das fronteiras de nossas moradias. Vários estudos publicados recentemente na Nature mostram que a base da empatia está presente também no olhar, na convivência. Sem a empatia não consigo me colocar no lugar do outro e, por isso, ela é valiosa socialmente para a construção da tolerância civil. A empatia é também responsável pela memória afetiva, pelo sentimento de pertencimento a um lugar, a uma história que marca invariavelmente a formação de cada pessoa. Não reconhecer a proximidade lugares, nem de pessoas é o primeiro passo para um descompromisso com a cidade.

Desse descompromisso segue-se a violência que atribuímos abstratamente à desigualdade social ou, como afirmam os mais conservadores, à perversão natural dos indivíduos, que só existe, de fato, em casos raros. Parece que não percebemos que os grande muros dos nossos prédios tornam a rua mais perigosa porque os que passam por ela não têm a quem recorrer. Eles estão paradoxalmente cercados de muros em pleno espaço público. Igualmente temos dificuldade de entender que a falta do uso misto dos prédios torna menor a circulação de pessoas e, consequentemente, aumenta o perigo dos que transitam pelas ruas. É incompreensível que as pessoas não reconheçam que a criação de viadutos (inexistentes em Paris, Londres…) desertifica as áreas abaixo deles e potencializam a violência nessas mesmas áreas. Alimentamos a violência com a desculpa de termos maior segurança e pelo desejo por mais velocidade. Aumentamos a violência quando nos furtamos a compartilhar os espaços. Transformamos o egoísmo em sociopatia, pois dissolvemos uma lugar de convivência em nome da pressa, da segurança que isola, segrega e, paradoxalmente, fomenta a violência.

A sociopatia esconde-se também nas linhas dos discursos que marginalizam os que ousam a não assumirem o papel de classe média vítima, muitas vezes vítima de si mesma, e passam a lutar pela publicização dos espaços da cidade. Prefiro acreditar que os que apostam na indissociabilidade entre desenvolvimento e destruição frequentam pouco as ruas e, por isso, não alimentam qualquer empatia pela cidade, a pensar que eles fazem espontaneamente da sociopatia o critério político para regular o convívio nas cidades.

PS: Para os que não se rendem ao resignado fatalismo, que enxerga o progresso de modo unilateral, convido-os para ocuparem as ruas, o cais, a cidade. Venham no dia 28 de abril transformar a rua num espaço que pode ser coletivo; não porque não pertence a ninguém, mas porque ele é a expressão do direito de todos.

Anúncios

Discussão

4 comentários sobre “Perdemos a rua

  1. Este é um problema grave, haja visto que os espaços públicos brasileiros estão se tornando cada vez mais dominados pelo pessoal das cidades, flanelinhas, tribos urbanas e etc!

    Publicado por Artcf | 25 25UTC abril 25UTC 2013, 18:35
  2. Querido Érico, mais uma vez um texto excelente para pensarmos nossas experiências citadinas. Sim, é preciso que cultivemos mais a empatia, mas (permita-me uma pequena discordância) não para chegarmos à tolerância. Pessoalmente não gosto muito da ideia da tolerância. NA Holana, por exemplo, falava-se bastante na tolerância, mas não como algo ligado à empatia, mas à condescendência. No ato de tolerar não há quase nenhuma empatia. E, em alguns casos a vivência baseada na tolerância segregou os espaços urbanos (bairro de rico, de pobre, de islâmicos, de católicos etc.) Gosto mais do termo respeito, porque aqui levamos em consideração o outro. E a idéia de sujeito é mais ampla e autônoma. Mas, enfim, são elucubrações minhas.
    Mais uma vez digo, seu texto está escelente e espero que que a gente se veja domingo! Beijos, Mila.

    Publicado por Mila Pimentel | 26 26UTC abril 26UTC 2013, 08:49
    • Corrigindo, excelente 🙂

      Publicado por Mila Pimentel | 26 26UTC abril 26UTC 2013, 08:51
    • Mila, minha amiga, bom dia! Você tem total razão. Na Europa o discurso da tolerância tem um viés de indiferença e toma uma feição muito individualista. Estou pesquisando o conceito de tolerância civil para tentar mostrar que ele precisa ser acompanhado de uma reflexão ligada à empatia para evitar algumas distorções com a que você narra na Holanda, mas que acontece muito na Europa. Beijo!

      Publicado por Érico Andrade | 28 28UTC abril 28UTC 2013, 09:41

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: