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Pequena contribuição a uma sociologia mequetrefe do Recife contemporâneo: Sobre playboys de “facu“, o desenvolvimento do fascismo e o fascismo do desenvolvimento.

É bastante interessante a crítica que se dirige hoje, no Recife, justamente, àqueles que são os únicos que cobram planejamento urbano, questionam a destruição do patrimônio, exigem a melhoria dos espaços públicos e se colocam disponíveis para uma discussão aberta e pública acerca do futuro da cidade. Eles se tornaram os playboys intelectualóides antidesenvolvimentistas.

É triste, mas realmente interessante. A crítica pode ser entendida, certamente, como parte de um certo orgulho anti-intelectual muito em moda nos círculos neocons, herança da não saudosa Era George W. Bush. Com os militantes de partidos neofascistas europeus, ou do tea party norte-americano, esse tipo de crítica parece ter em comum certo desprezo à troca sadia de argumentos e o uso repetitivo de uma ou duas palavras para ignorar qualquer discurso contrário ao conjunto monolítico de dogmas em que baseia sua ação política.

O orgulhoso anti-inlectual se vê, assim, como portador legítimo do (e legitimado pelo) senso comum, convicto de que suas opiniões óbvias, por serem compartilhadas por muitos iguais a ele, não podem ser questionadas assim tão facilmente, sobretudo com argumentos de quem, por alguma razão (talvez porque foram para a “facu”?), vê-se legitimado a refletir e criticar aquilo que, para o senso comum orgulhoso, são verdades óbvias. Afinal de contas “homossexualidade é doença”, “pobre é vagabundo”, ou, no caso de alguns orgulhosos de certas cidades sudestinas, “todo nordestino é burro”.

O orgulhoso anti-intelectual se sente extremamente irritado ao ver que o seu senso óbvio comum com outros seus colegas, aquilo sobre o que nunca refletiu, mas que lhe foi de certa forma ensinado na socialização mais primária, pode ser questionado, criticado, refletido.

Para mim, é disso que se trata, quando jornalistas usam palavras de péssimo gosto para criticar o primeiro movimento social espontâneo, na história do Recife, que tem como pauta o tema – também – mais óbvio do mundo contemporâneo: a vida comum na cidade, que todos são obrigados a compartilhar, mesmo contra sua vontade. Embora esse tipo de neofascismo seja um fenômeno mundial, acho que vale a pena refletir um pouco sobre a forma como ele se manifesta entre nós.

Sobre a psicologia do totalitarismo

De fato existe uma certa surpresa assustadora ao se verem questionadas posições que se pensava inquestionáveis. Ao serem colocados em xeque alguns lugares comuns com que contamos para seguir em frente todos os dias ao sairmos da cama, somos colocados numa posição bastante delicada. Não somos capazes de desprezá-los imediatamente, substituindo-os por outros lugares comuns quaisquer.

Algumas pessoas, diante de um desafio a suas convicções até então não problematizadas, passam a cercar essas idéias bem conhecidas suas e que as deixam confortáveis consigo mesmas com olhares curiosos e questionadores. Num primeiro momento, dão-se conta mesmo de que elas estão ali, pois até então isso não era preciso; elas eram simples e intuitivamente utilizadas para julgar o mundo ao redor, para interpretar um argumento ou desprezar um outro.

Em alguns casos, confrontados com a crítica diuturna, com a resistência de um argumento alternativo contundente, essas pessoas podem começar, aos poucos, a problematizá-las. Alguns começam então a refletir sobre o papel que esses lugares comuns tem em suas vidas. E, gradativamente, podem substituí-los por outras ideias e opiniões, que vão passar a ser, por sua vez, um pouco óbvias, até que venham novamente a ser colocadas em xeque.

Em alguns indivíduos, a surpresa e a ansiedade gerada pelo questionamento de lugares comuns são ainda mais cruéis e arrebatadoras. Diante de uma crônica dificuldade em refletir um pouco sobre suas próprias opiniões, e muitas vezes por medo de ser incapaz de colocar alguma outra coisa no lugar, caso as percam, alguns se vêem impelidos à militância intolerante, que despreza críticas alheias com um vigor fundamentalista destrutivo e totalitário que muitas vezes toma formas agressivas. Essa poderia ser uma explicação psicológica (útil no nível individual, mas não no nível social) para fenômenos totalitários os mais diversos, desde os novos fundamentalismos religiosos (de cristãos, judeus e islâmicos), à xenofobia.

Nesse ponto, confesso que esse orgulho anti-intelectual e anti-crítica me parece interessante, contudo, não só em sua dimensão psicológica. Bem mais interessante, nesse movimento que podemos chamar, com atenção ao significado mais literal da palavra, “reacionário” a tudo aquilo que tem se organizado ao redor do grupo Direitos Urbanos, parece ser a forma como ele estrutura sua reação. Em especial, chama a atenção o uso frequente de uma semântica bem particular para praticar o que pode, sem dúvida, ser identificado como uma forma bem própria e contemporânea de “fascismo cultural”, que toma cada vez mais a forma de um totalitarismo político.

A mágia da modernização e o milagre do desenvolvimento: não são só palavras! “It’s politics, stupid.”

Se a Europa convive, hoje, com os problemas crescentes de certo facismo xenófobo; se alguns países do oriente médio viram, nos últimos 20 anos, o florescimento de certo chauvinismo islâmico; e se os EUA testemunharam a radicalização do fundamentalismo cristão extremamente intolerante, o Brasil parece padecer de um mal coletivo particular.

Entre nós, tem se manifestado uma nova forma de totalitarismo, político, cultural e econômico, que se apóia nas velhas estruturas coloniais de estratificação e diferenciação social, para reproduzir desigualdades e assimetrias de um modo novo.

Basta ouvir as críticas dirigidas a movimentos como o Direitos Urbanos, para se perceber os elementos que, tendo seus pontos comuns interligados teoricamente, revelam-nos as teias de uma poderosa ideologia fundamentalista, capaz de calar críticos, de impedir a reflexão e destruir qualquer tipo de alternativa política a um projeto que é defendido e difundido com traços totalitários. Uma ideologia que, como é característica de fascismos e totalitarismos é totalmente incapaz de refletir sobre os seus próprios pressupostos, e de ser responsiva ao mundo ao redor, tornando-se crítica acerca de suas possíveis conseqüências e preocupada com as repercussões de suas ações para as atuais e futuras gerações.

Refiro-me a algo que me chama especialmente a atenção no discurso de reação às reflexões que foram levantadas nos últimos dois anos no Recife. Trato do uso dado a palavras como “modernização” e “desenvolvimento”, tornadas capazes de justificar tudo e qualquer coisa, como instrumentos de mistificação do debate público, por meio dos quais o diálogo ou mesmo a discussão acalorada é substituída por ironias, grosserias e puras expressões de força, poder e do simbolismo do dinheiro.

As palavras modernização e desenvolvimento são expressões que, no sentido como as utilizamos hoje, tem, como é de se esperar, origem moderna. Elas se confundem, do ponto de vista semântico, com as mudanças estruturais mais relevantes que aconteceram no mundo graças ao fim de uma estrutura social baseada em hierarquias fixas em que toda a vida de um indivíduo era decidida no momento do seu nascimento, a depender da família de que proviesse.

Essas palavras indicam, exatamente, que, dado o fato de que não existem mais hierarquias rígidas e inquestionáveis, as sociedades, assim como os indivíduos, devem se abrir para o futuro. Eles devem se entender como agentes prontos a enfrentar os desafios colocados ao acaso em seu caminho mediante decisões que podem ser atribuídas a eles mesmos.

Em outras palavras, não é o local ou a família em que se nasce, que determinam toda a vida individual posterior. Nem é um caminho determinado por Deus, ou por alguma outra esfera de um mundo não terreno, que decide os caminhos que uma sociedade deve tomar.

Em lugar disso, são declarados, por um lado, direitos de liberdade individuais, determinados, claro socialmente, a partir dos quais todo indivíduo tem garantido um espaço em que pode decidir o que fazer com seu próprio corpo. E, por outro lado, surge uma política democrática em que decisões são tomadas em conjunto, a partir de uma construção livre e pluralista numa esfera pública em que todos, a priori, devem ser considerados iguais e capazes de defender seus posicionamentos.

De fato, a palavra modernização tem, a rigor, um significado muito vago, sociologicamente. Mas se há algo que ela quer significar é a consciência difundida de que o futuro de indivíduos (nós todos) e grupos (sociedades, coletividades, grupos identitários) depende apenas das decisões que estes tomarem. Como palavra vaga, ela se deixa sempre politizar no debate público, em que atores políticos diversos podem, com direitos iguais, disputar opiniões. Nesse sentido mais amplo, e politizável, o termo diz respeito, normalmente, àquilo que é novo. Àquilo a que cabe uma decisão ainda por ser tomada e que pode mudar o futuro. Os partidos podem usar essa palavra para se referir ao próprio programa e disputar assim a imaginação do público.

“Modernizar” passou, assim, a ser associada politicamente a algo bom, a uma idéia de progresso que quer dizer mudança para melhor. A um futuro em que a sociedade vai se tornar aquilo que deve ser, mas ainda não é; à novidade que traz benefícios. Entretanto, como é muito difícil determinar exatamente o que são esses benefícios, deixando claro para todos a medida que lhes caberá no “progresso” futuro, sem que isso venha a criar mais problemas e discussões, a palavra modernização parece responder de modo razoavelmente vago e impreciso essa difícil questão. Ela serve para evitar questionamentos, para criar um véu que deixa intocados possíveis pontos de discórdia. Ainda assim, numa sociedade democrática, nada deve impedir sua contínua repolitização, e, portanto, sua rediscussão e ressignificação. E isso faz com que, na política contemporânea ela seja exatamente um sinal dessa inderterminação: dessa proibição que apenas um projeto se imponha sem que posa ser criticado, a qualquer tempo, por alguém ou algum grupo que discorde.

Algo semelhante acontece com a palavra desenvolvimento. Aqui, trata-se mais precisamente da constatação de que nem todos os indivíduos ou grupos sociais tem as mesmas condições de tomar decisões sobre seu futuro. Alguns indivíduos, sobretudo os mais jovens, tem mais dificuldades que outros para decidir sobre algumas questões relevantes para a sua vida. A palavra desenvolvimento é usada, assim, na psicologia, para descrever uma problemática cadeia de fases em que um indivíduo alcança capacidades maiores de decidir por si só, o que fazer de sua própria vida.

No caso de sociedades, ou regiões do mundo, esse problema se revela bem mais complicado. Embora desde os princípios da modernização todos os continentes tenham estado extremamente interconectados, houve diversas assimetrias entre eles no acesso aos produtos da modernidade.

Há, assim, claras diferenças de acesso aos bens da economia, da ciência, ao direito e ao poder mundiais entre os diversos Estados e continentes do mundo. Mas custa acreditar que, num planeta em que existem 193 Estados associados à ONU, e no qual todos eles, sem exceção, assinaram a Declaração dos direitos do homem de 1948, dispondo igualmente de uma constituição jurídica em vigor, exista alguma sociedade exatamente “pré-moderna”.

Em todos os países do mundo existem universidades, polícia, hospitais, escolas, corpo de bombeiros, empresas, e repartições públicas. Por certo, existem diferenças entre um hospital em Mogadishu e um hospital em Copenhagen. Mas essas diferenças não tem a ver com a modernidade e pré-modernidade de Dinamarca e Somália, senão com a ausência de recursos em um determinado lugar e com as diferentes formas de integração dos indivíduos nesses diferentes locais nas estruturas da ciência, da medicina e da economia mundiais.

De fato, nada mais moderno, desde o seu princípio, do que o Brasil: um país que foi criado, na América, como um espaço de produção de bens econômicos sob um regime de trabalho escravo trazido da África, voltado para o mercado europeu. Sem a modernidade, o capitalismo, a economia monetária e a livre circulação de mercadorias no mundo, o Brasil nunca teria existido. E ele foi, desde o seu princípio, não só moderno, como também resultado de uma dinâmica mundial.

Ainda assim, alguns insistem em usar a palavra modernização para explicar aquilo que devemos fazer para nos tornar mais parecidos com os primos ricos, europeus e norte-americanos, os quais, do ponto de vista estritamente sociológico, não são nem mais, nem menos modernos que nós, senão apenas mais ricos e com mais acesso a certos bens.

Desenvolvimento torna-se então, sobretudo no século XX, uma receita, um programa de ação. Tanto comunistas, como liberais, propõem-se a cumprir um certo conjunto de etapas, para atingir a maturidade como sociedade, assim como os adolescentes se tornam adultos e passam a poder decidir por si próprios. O Brasil, o Paraguai, o Vietnam e Cuba devem se desenvolver para se tornar a Europa ou os Estados Unidos, como se houvesse um caminho que todos devessem seguir para, no final, tornarem-se todos iguais.

Desse modo, ignora-se, mais uma vez, que não existem sociedades propriamente pré-modernas, mas sim sociedades mais pobres e sociedades mais ricas, algumas que tem acesso à tecnologia, ao poder mundial, à economia e suas formas de produção e outras que não tem. Em lugar de politizar a palavra desenvolvimento como algo que está aberto a um futuro desconhecido, a ser construído a partir de decisões políticas – também mundiais – tomadas no presente, compreende-se o futuro como um projeto pronto e acabado: que não está em aberto, por ser construído e, portanto, não deve ser objeto de politização livre e democrática, senão deve ser a realização do caminho já dado, talvez, por alguma outra sociedade, raça superior, ou plano científico (ou divino).

A consequencia desse tipo de compreensão é especialmente trágica em alguns contextos particulares da sociedade mundial. Em regiões mais pobres do mundo, ao invés de se perceber que muito mais importante é incluir populações excluídas, fazendo-as parte da economia, da política, do direito e da ciência (da modernidade, enfim), e portanto donas de seu futuro, parte-se do pressuposto de que, no fundo, a democracia ou a modernidade, aí, ainda estão por fazer. É exatamente nesse contexto que creio podermos falar de um “fascismo do desenvolvimento”.

 

“Do totalitarismo dos altos coqueiros”

Em algumas realidades sociais, portanto, palavras como “modernização” e “desenvolvimento” ganham um significado bastante particular. Em lugar de servir como pontos de estímulo ao debate e embate públicos, ocasiões em que a sociedade se mobiliza para discutir o que quer fazer do seu futuro, elas podem servir para evitar qualquer tipo de crítica e reflexão coletivas. Desse modo, ao invés de serem politizadoras, elas são despolitizantes, servindo para justificar a ação desmedida e unilateral de alguns grupos ou indivíduos particularmente poderosos ou ricos.

Num contexto como o do Nordeste brasileiro, em que a exclusão social é extrema e difundida e a participação de amplos setores da população nos benefícios da chamada modernidade (na economia, ciência, educação, política e mesmo direito) é bastante limitado, surge uma oportunidade única para o exercício de um tipo bem particular de totalitarismo político e cultural.

Aí pode prosperar em terra livre um totalitarismo capaz de usar palavras modernas para reproduzir exatamente a lógica das assimetrias e hierarquias pré-modernas, calando a crítica, impedindo a reflexão, evitando a mobilização social e tratando qualquer tipo de resistência com desrespeito.

Em contextos como esse, é comum que algumas elites políticas e econômicas reivindiquem para si o papel de grandes modernizadoras-redentoras, aquelas que detém a fórmula final para a superação da condição de “subdesenvolvimento”, que vai finalmente transformar toda a realidade num passe de mágica. Elas se vêem assim como as portadoras das soluções divinas de realização fatal do futuro.

“Modernizar” se torna, então, uma paradoxal tarefa histórica pré-moderna a ser realizada. Não se trata de uma decisão diuturna, a ser construída coletivamente, por afetar coletivamente a vida de indivíduos que não tem outra alternativa ao ser levar uma vida em muitos pontos comum. Em lugar de atribuir essas decisões à sociedade ela mesma, “o modernizador” ou a “elite modernizadora” se vêem como substitutos, como pais, padrinhos, cuidadores, redentores, como aquele ou aquela de que todos precisam para, finalmente, se “desenvolver”.

São claras as semelhanças dessa narrativa com as várias e conhecidas formas de totalitarismo moderno. Ao longo dos últimos 2 séculos, totalitarismos diversos conseguiram difundir a idéia de que seria possível reduzir todo o futuro a poucas regras conhecidas por alguns poucos iluminados. Alguns, por exemplo, acreditaram piamente que a história era uma ciência redutível a certas regras imanentes, em que uma classe sucederia a outra. Outros acreditaram na superioridade nacional de uma raça, de um povo, de uma cultura, e se deixaram levar pela semântica da expressão de superioridade de uma língua ou uma cultura particular. Curiosamente, os mais diversos tipos de totalitarismo usavam a expressão desenvolvimento e modernização, exatamente, para expressar sua noção particular de progresso.

No caso do Recife contemporâneo, creio se manifestar, agora mesmo, um caso bem especial de totalitarismo, que parece ter tomado conta do imaginário político e cultural local. Ele passou a justificar as decisões mais absurdas, tomadas por pouquíssimos empresários e políticos, sob o argumento de que tais decisões são uma expressão de certa vocação inevitável e fatal para o desenvolvimento e para a modernização.

Modernizar tornou-se a palavra mágica que justifica um pouco mais do mesmo. A exclusão de setores importantes das decisões se dá sem nenhum tipo de cuidado ou vergonha. Tomam-se decisões unilaterais, sem ouvir possíveis implicados. Ignora-se o respeito a regras jurídicas sem as quais nenhuma democracia funciona. Tudo em nome da redenção desenvolvimentista.

Faz-se pilhéria generalizada da crítica esclarecida daqueles que estudam um tema com profundidade, como por exemplo o planejamento urbano. Eles não são bem vindos ao debate público; em seu lugar são preferíveis os jornalistas cujos patrões são parte da elite modernizadora ou mesmo os iluminados gestores modernizantes e seus amigos financiadores empresários, os motores do desenvolvimento.

A sociedade ela mesma não pode se organizar espontaneamente e debater crítica e reflexivamente decisões tomadas de modo juridicamente questionável. Pois aqueles que se dispõem a criticar e refletir, publicamente, são logo pilheriados como agentes do passado, como oposição política boba e atrasada, como obstáculo à modernização e ao desenvolvimento.

Se a crítica reprimida incomoda. E se o debate coletivo repelido e visto como expressão anti-modernizadora de “playboys de facu” parece ser um sinal claro de decadência cultural e perda de vitalidade da sociedade civil e de sua capacidade criativa. Algo muito pior se revela, quando o fascismo do desenvolvimento expressa seu caráter autoritário em um poder de exceção.

Nada é pior para a sociedade moderna, e para a modernidade ela mesma, do que o momento no qual alguém ou um grupo de pessoas se vê no direito de, em nome de uma idéia, substituir explicitamente os procedimentos públicos, juridificados e estabelecidos formalmente com suposta igualdade de acesso para todos, e em seu lugar coloca seu próprio poder de decisão, legitimado no mais das vezes por algum dogma metafísico como, no nosso caso, a idéia de “desenvolvimento” ou “modernização”.

Quando um ou outro usa frases de pilhéria para tratar um movimento espontâneo da sociedade civil, que procura refletir sobre aqueles problemas que lhe dizem respeito, isso pode sempre ser visto como o resultado de alguma idiossincrasia psicológica individual. Sem dúvida a personalidade autoritária é um fenômeno social. No entanto, ela tem suas raízes mais concretas, normalmente, na socialização familiar, acerca da qual não se pode fazer muito depois de uma certa idade.

Tudo é diferente, quando toda a sociedade é substituída, em seus mecanismos de decisão, pelo uso e abuso do poder de poucos. Quando toda uma cidade é ameaçada pela manipulação de processos judiciais, pela utilização instrumental e casuística de instituições independentes como o Ministério Público. Quando uma ideologia qualquer é utilizada para impedir o debate público crítico e reflexivo. Quando jornais ignoram solenemente uma discussão tão importante quanto a que é travada agora mesmo em Recife. Quando tudo isso se torna uma forma particular de se apossar do futuro de uma cidade e de uma região inteiras, estamos, sim, diante de uma forma particular e própria de totalitarismo: talvez um “totalitarismo dos altos coqueiros.

Pablo Holmes (Doutor em sociologia pela Universidade de Flensburg/Alemanha; Professor de Teoria Política da Universidade de Brasília/UnB)

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Discussão

2 comentários sobre “Pequena contribuição a uma sociologia mequetrefe do Recife contemporâneo: Sobre playboys de “facu“, o desenvolvimento do fascismo e o fascismo do desenvolvimento.

  1. Desenvolvimento na base de cimento e areia e construção de ZPEs (zonas de processamento de exportação) em plena era da nano e a da bioteconologia é no mínimo um profundo atraso. O pior, governantes incompetentes, auxiliados por técnicos irresponsáveis, ficam desperdiçando o dinheiro público. Quanto a mídia, está aí para reproduzir imbecilidades e propagar idiotices, maneira fácil de se plantar a ideologia da falsidade extrema na manutenção do totalitarismo pessoal e de estado.

    Publicado por Claudio Fernandes | 22 22UTC março 22UTC 2013, 14:44
  2. Que texto enorme é esse?! Duvido que meia dúzia de pessoas vá le-lo. O jornalista vai dar uma boa gargalhada quando se deparar com esse estudo, por saber que poucos vão chegar até a última frase. Uma pena. Mesmo porque o trecho: “Do totalitarismo dos altos coqueiros” já bastava. Já diz tudo que precisa ser dito. Tudo bem que o Pablo quis se contrapor as asneiras ditas pelo jornalista escrevendo algo inteligente. Mas exagerou no tamanho do compêndio. Em grande parte das vezes, menos é mais!

    Publicado por Alexandre | 22 22UTC março 22UTC 2013, 21:37

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