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Direitos Urbanos | Recife: o que há de novo aqui?

Ana Paula Portella – Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE

Na semana passada fui procurada pelo jornalista Paulo Floro, que estava preparando um caderno especial sobre o aniversário de Olinda e Recife, para falar sobre o grupo Direitos Urbanos | Recife.  Para isso, me mandou quatro perguntas e eu, pouco econômica, terminei escrevendo muito mais do que era necessário para a matéria. Como integrante do DU desde a sua origem – e mesmo antes, participando das movimentações que levaram até a formação do grupo -, tomei as perguntas de Paulo como um exercício para organizar algumas idéias que venho amadurecendo há algum tempo em conversas com amig@s e outros membros do grupo.  A matéria saiu hoje no Portal NE10, com pequenas referências ao que tratei no texto, seguramente pelas razões de espaço específicas do texto jornalístico. Aproveito o espaço do blog e de nossa fanpage para compartilhar com vocês as minhas impressões sobre o que somos e o que representamos no atual cenário político de nossa cidade.  Uso como subtítulos o conteúdo das perguntas do jornalista. O que apresento aqui é fruto da intensa e prazerosa convivência política e intelectual com as pessoas do DU, mas, evidentemente, representam uma posição pessoal, pela qual assumo total responsabilidade.

Importância do DU para o futuro da cidade

Em um ano e poucos meses de existência, o DU já sinaliza para algumas mudanças importantes nas movimentações sociais e políticas em nosso estado:

a)      Se constituiu como um ponto de aglutinação importante para a complexa teia de preocupações de cidadãos e cidadãs sobre o cotidiano e o destino da cidade, independentemente de suas filiações partidárias, ideológicas, corporativas e políticas e de suas identidades sociopolíticas e base territorial. Ou seja, todo mundo pode caber no DU, inclusive quem não mora em Recife ou Pernambuco, mas que se preocupa com a construção humana, justa e sustentável das cidades;

b)     É uma plataforma de reflexão e debates permanentes que produz ideias, críticas e alternativas concretas aos principais problemas enfrentados pela cidade. Nesse campo, está se constituindo como um arquivo e uma base documental com textos e materiais audiovisuais diversos sobre os temas debatidos no grupo;

c)      Finalmente, é também uma plataforma de articulação e mobilização política, que se organiza de forma horizontal, aberta e flexível, para a realização de ações diretas de transformação da realidade, seja no plano jurídico-político, no plano das sociabilidades, da cultura política ou das mentalidades.

Sendo assim, o DU pode ser entendido como um modo novo de ação política, ainda em fase inicial, mas que já apresenta alguns resultados concretos importantes, que revelam o seu potencial para uma transformação mais ampla e profunda em direção a uma cidade mais justa, igualitária, humana e sustentável – uma cidade voltada para o interesse público e para as pessoas e gerida de forma radicalmente democrática.

Acredito que muito do sucesso do DU se deve às características que o diferenciam das ações políticas tradicionais, o que inclui a prática de alguns movimentos sociais. Abaixo listo algumas dessas características:

a)      Ausência de hierarquias;

b)     Estabelecimento de grupos de trabalho e lideranças pontuais a cada processo, ação ou discussão temática;

c)      Ação voluntária e auto-financiada a cada momento específico (ou seja, não há caixa nem fluxo financeiro e há muita ‘vaquinha’ e ‘rá-rá’);

d)     Interesse coletivo entendido da forma mais ampla (ou seja, ninguém está no grupo para defender a sua causa individual);

e)      Ações planejadas uma a uma e a partir do envolvimento de quem pode e deseja participar;

f)       Contribuição ‘técnica-profissional’ intensa dos membros (produzindo textos, vídeos, cartazes, maquetes etc.), de forma individual e coletiva;

g)      Diálogo e colaboração permanente entre diferentes saberes (urbanistas, advogados, cineastas, cientistas sociais, jornalistas etc.);

h)     Transparência e ampla divulgação dos debates e ações, admitindo e valorizando a convivência de diferentes opiniões e posições – desde que coincidam no que se refere aos princípios do grupo.

Há ainda algo muito importante relacionado aos princípios e ao modus operandi do DU. Uma das principais bases de nossas formulações é o reconhecimento de que vivemos em uma cidade socialmente segregada, cuja elite opera com base na produção do medo, do ódio e do afastamento entre as pessoas. Superar esse estado de coisas é um dos nossos objetivos e, por isso, na nossa prática cotidiana procuramos propiciar o encontro – entre pessoas e grupos e entre as pessoas e a cidade e seus diferentes espaços e territórios. Além disso, em consonância com outros movimentos em muitas partes de mundo, nossa ação política procura incorporar a alegria, a beleza, a arte, o bom humor e o amor, entendido de forma ampla, generosa e solidária. O OcupeEstelita é a ação que melhor descreve esse modo de atuar, mas não é a única.

O poder público percebe o nosso poder?

Acho que o poder público começa a perceber que algo se passa na sociedade e nas redes sociais, mas isso ainda se dá de forma muito tímida. Nas últimas semanas, a reação das construtoras, da imprensa e do MPPE é um indicativo de que nossa ação começa a incomodar e a produzir efeitos. Acho, porém, que o poder público precisa se aproximar da sociedade, dialogar e considerar nossas posições. As redes sociais são um meio importante de diálogo e aproximação, mas o poder público só se utiliza delas para se autopromover, não incorporando as redes à sua prática política e de gestão.

A crítica à gestão atual na Prefeitura do Recife

A principal crítica que faço à nova gestão é a falta de diálogo com a sociedade e o aparente enfoque gerencial nas políticas públicas. Digo aparente por que não se administra uma prefeitura sem uma concepção política que oriente um projeto de cidade. Mas o discurso gerencial parece ter o objetivo de ocultar a concepção política, o que prejudica o debate, além de favorecer o ocultamento de possíveis interesses econômicos que pressionam a gestão. O modelo de participação popular desenhado pela gestão anterior fracassou, mas isso deve ser avaliado e um novo modelo deve ser construído, para reabrir o diálogo com a sociedade. No momento, desconheço qualquer iniciativa nesse sentido.

De nossa parte, isso nos desafia a também avaliar os atuais mecanismos de participação popular e a imaginar formas concretas de interação dos nossos modos de ação com os mecanismos e espaços já instituídos, como é o caso dos conselhos de controle social e das conferências de políticas públicas.

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Discussão

6 comentários sobre “Direitos Urbanos | Recife: o que há de novo aqui?

  1. parabens antes de mais nada DU, texto claro legivel coerente com uma nova forma de ver e se fazer como cidadao,DU eh de fato, um novo fato politico no recife , mais por estarmos no recife ,sinto mais filosofia (da praxis) do que ideologia ,pois sem ideologia nao si faz POLITICA,
    mais como o homen eh por naturesa um animal politico ,
    sinto falta de um uma dose de ideologia POLITICA nao partidaria.
    mais acho que vai chegar, parabens ana paula portela

    Publicado por paulo tadeu albuquerque | 11 11UTC março 11UTC 2013, 18:17
  2. Fico muito feliz e orgulhoso da atuação do movimento mas não acredito no texto que coloca na mesma frase – medo e ódio – como algo que genuinamente busque o encontro dos diferente. Ver o outro lado da mesa como adversário não contribuirá com a construção de uma cidade melhor.

    Publicado por Charles Ruas | 24 24UTC março 24UTC 2013, 22:53
  3. Acabo de ler a matéria (http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=8&cid=162665) e assim tomar conhecimentos sobre o DU. Gostaria de tornar-me colaborador voluntário de vocês, desta forma, podem contar comigo naquilo que for necessário. Sou publicitário, 37 anos, sou paranaense e vivo na cidade a 6 anos, já morei em Camponas, Campo Grande, São Paulo, Curitiba, Brasília e Toronto e acredito que tenha algo que posso colaborar. Se for possível, aguardo algum contato via e-mail, do contrário eu volto a tentar um novo contato. Trabalho durante a semana, porém tenho noites e finais de semanas livres! Quero encontra-los na quinta feira 20/06 nas ruas do Recife e como sou um crítico da situação urbana atual da cidade, gostaria de ir além e poder fazer algo para ajudar a construir uma nova visão e solução de cidade! Do jeito que esta não pode ficar, concordo que tem que haver uma mudança na atitude e nao so no discurso do poder publico, como é colocado na matéria que taguei acima. Contem comigo!

    Publicado por Rodrigo | 16 16UTC junho 16UTC 2013, 21:00
  4. Eu gostaria de saber se vocês do DU tem algum projeto visando a revitalização de ZEIS. Se tiverem por favor postem informações sobre o projeto aqui no blog.

    Publicado por Cidadão | 26 26UTC julho 26UTC 2013, 19:45

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