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Diario de Pernambuco destaca novos movimentos sociais organizados pela internet

Ativistas pró-Recife saem do sofá

Cidade assiste a um novo fenômeno de parte da classe média que se articula pelas redes sociais para ir às ruas lutar por direitos

Juliana Colares
julianacolares.pe@dabr.com.br

Publicação: 30/09/2012 03:00
Eles são de classe média, utilizam a internet como plataforma de discussão, divulgação e articulação, mas não se limitam ao ativismo de sofá. Vão às ruas e aos órgãos públicos expor seus pontos de vista e dizer que cidade querem. Não têm vínculo partidário e se organizam horizontalmente, sem um núcleo de liderança formalmente constituído. Não se definem como movimentos sociais e ainda não conseguem interferir nas agendas públicas e nas relações de poder da forma que gostariam, mas vêm crescendo em força e adesão. No Brasil e no mundo. São grupos de pessoas interessadas em melhorar a qualidade de vida das cidades e discutir políticas públicas, da mobilidade ao urbanismo. Coletiva e interativamente.

No Recife, o fenômeno é novo e vem chamando a atenção de políticos, da imprensa, do restante da sociedade civil e da academia – na Universidade Federal de Pernambuco, por exemplo, o ato público que ganhou o nome de Ocupe Estelita (e publicizou ainda mais as ações e os anseios dessa parcela da sociedade) virou tema de dissertação no departamento de sociologia. Os grupos são diversos e, não raro, difíceis de definir e contabilizar. São estudantes, arquitetos, engenheiros, cineastas, funcionários públicos… Gente com formação e trajetória de vida das mais diversas, unidas em coletivos de cicloativistas ou grupos de internet que discutem um espectro de assuntos mais amplo, do meio ambiente à estética da cidade.

“As ações podem surgir de membros isoladamente ou do grupo, de forma democrática”, disse o engenheiro de parques eólicos Daniel Valença, a respeito do grupo de cicloativismo Cicloação, do qual faz parte – nesse coletivo, cerca de 30 pessoas têm participação ativa. “Até pela educação que tivemos, não podemos discutir as coisas só na universidade. É nossa responsabilidade”, disse o professor de filosofia e integrante do grupo Direitos Urbanos, Leonardo Cisneiros.

Articulação

Ao longo deste ano, já foram levantadas inúmeras bandeiras – valorização do transporte por bicicletas, melhoria do transporte público, rediscussão do projeto urbanístico para o Cais José Estelita, alternativas à construção dos viadutos da Agamenon Magalhães, entre outros. Fomentaram audiências públicas, programaram atos batizados de “ocupes” e cutucaram representantes das esferas de poder pública e privada.

“Eles estão colocando o dedo na ferida, mas, historicamente, não se articularam com setores excluídos”, ponderou Adelmo Araújo, que tem 30 anos de participação em movimentos sociais, coordena a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e vê essas novas manifestações de forma positiva. Para ele, a classe média, no Recife e no Brasil, é extremamente conservadora.

“Por que as políticas públicas não avançam no Brasil? Porque ela procura alternativas particulares para os problemas – se a escola pública está ruim, coloca os filhos em escolas particulares; se o transporte público não funciona, compra um carro. Isso enfraquece a luta para criar políticas públicas. A classe média se mobilizando é um fenômeno novo no Recife. O movimento do Cais José Estelita (contra o projeto de construção de 12 prédios com até 40 andares) foi extremamente inovador”, complementou.

Compromisso ou oba-oba?

O primeiro Ocupe Estelita, ato simbólico que fez parte da discussão (ainda atual) sobre o destino do cais, foi um momento relevante dessa nova história que começa a ser escrita. Mas para a socióloga e integrante do grupo Direitos Urbanos, Ana Paula Portella, o momento político mais importante ocorreu no dia 22 de março, antes do Ocupe: a audiência pública realizada na Câmara de Vereadores. Os 90 assentos do plenarinho não foram suficientes para tanta gente. Foi a audiência com maior público da Câmara, em 2012. Nós a solicitamos ao Ministério Público e ao vereador Múcio Magalhães, disse Ana Paula Portella, doutoranda em sociologia da UFPE. A construção dos novos edifícios na área ainda não foi iniciada.

O que eu acho mais bonito é que as pessoas estão se ajudando e dando o que podem para melhorar a convivência, disse Ana Paula, que construiu uma história de luta dentro dos movimentos sociais. É um outro tipo de movimentação política. São pessoas querendo participar, dizer o que pensam sobre a cidade. Dizer o que querem, disse a socióloga Teresa Oliveira, mestranda da UFPE que está estudando novas mobilizações organizadas pela internet.

As ações desses novos grupos estão bem longe da unanimidade. Tem gente que acha que é só oba-oba, tentativa de chamar atenção ou modinha. Eles já foram criticados por não terem se organizado antes e até por serem de classe média. É esperar para ver se essa mobilização perdura e consegue mais adesão. Ou se acaba se perdendo no modismo.

 
Novos problemas, novas demandas
 
Recife tem tradição de luta. Luta pelo direito à cidade, como diz Adelmo Araújo, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. Boa parte dessa história se pautou pelo acesso ao solo urbano – terra, unidade habitacional e infraestrutura. Pautas das camadas mais pobres da população. Avanços foram conseguidos, ainda que os problemas perdurem. Hoje uma nova conjuntura está imposta e, com ela, novos problemas e novas demandas. É aí que a classe média está entrando. Mas os tradicionais movimentos sociais ainda não a enxergam como sólida aliada nas lutas pela melhoria da qualidade de vida na cidade.

“É uma coisa nova e os movimentos sociais clássicos ainda olham meio atravessado”, disse Adelmo Araújo. “Os movimentos têm o desafio de enxergar a cidade de forma mais estrutural. A cidade não é só o bairro pobre onde eu moro. É muito mais do que isso e o que acontece nos outros bairros tem muito impacto sobre mim”, complementou.

“Essa discussão sobre o modelo de cidade é uma discussão nova. Ela sempre foi teórica, acadêmica. Mas esse fenômeno que estamos vivendo é novo e importantíssimo”, defendeu Raquel Rolnik, que é arquiteta, urbanista, professora da USP, ex-diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo e relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia Adequada.

Para ela, o modelo de crescimento atual com a “submissão do estado ao capital”, inflamou a crítica por parte desses novos movimentos. “A insatisfação é muito grande. Ninguém aguenta viver nessa cidade desse jeito. Tem um monte de gente destruindo o Recife”, disse a socióloga Ana Paula Portella. Vive-se um momeno de crise. Dos modelos de representação política e de desenvolvimento urbano. E crises, historicamente, são importantes momentos de mobilização social.

Mas e a eficácia dessas ações? Qual a real força desses indivíduos reunidos em coletivos que nem sempre conseguem o apoio da outra parte da sociedade civil ou dos tradicionais poderes constituídos? “Essa é uma resposta que só a história pode dar”, opinou a professora de Sociologia da UFPE Maria Eduarda Rocha.

Para Raquel Rolnik, esses movimentos ainda são minoritários, mas estão crescendo. “Quando eles vão ter força suficiente para incidir na agenda política real, veremos”, disse, sem dourar a pílula. “A gente está atuando em um momento desastroso, em que tudo deu errado, em que se construiu uma sociabilidade totalmente segregadora. Fazer isso voltar é tarefa hercúlea. A gente tem o poder de produzir modificações imediatas, mas não tem ilusão de que elas alterem as relações de poder na cidade”, afirmou. Os Direitos Urbanos têm quase 7 mil integrantes na rede social Facebook e já serviram de inspiração para criação de grupos de mesmo nome no Rio de Janeiro e na Bahia.

 
Força no Facebook
 
19 de setembro, 9h15, Helena Castelo Branco, integrante do Direitos Urbanos, posta no grupo do Facebook: “Os lenhadores acabaram de chegar e vão derrubar a Acácia centenária. Em detrimento da recomendação do Ministério Público de PE- Belize Câmara. Socorro! Chamem a imprensa e todos pra evitar essa atrocidade! (Sic)”. Às 12h07, a própria Belize Câmara, promotora de meio ambiente, responde via celular: “Estive lá agora de manhã. A derrubada está suspensa!!!”. Mais que instrumentos de ativistas de sofá, a internet virou ferramenta fundamental para as novas manifestações sociais.

“Eu fui avisada sobre a árvore pelas redes sociais. Muitas vezes eu tomo conhecimento de denúncias pelo Facebook e já instauro o procedimento. Depois de algum tempo é que chegam as denúncias à promotoria. As redes sociais fazem com que eu me adiante”, disse Belize Câmara. No grupo dos Direitos Urbanos, ela já chegou a pedir adesão à luta pela preservação de imóveis de relevância histórico-cultural e arquitetônica e já solicitou que, ao fazerem uma denúncia, os internautas marquem o nome dela na publicação para que ela tome conhecimento do fato mais rapidamente.

 
Segundo Ana Paula Portella, o Facebook não serve apenas como instrumento de divulgação das ações, mas como plataforma de trabalho. Lá, são levantados debates, divulgadas notícias, documentos, postados vídeos das ações e criados seminários. “É uma ferramenta de trabalho importantíssima. Fazemos reuniões que duram três, quatro, cinco dias pelo inbox (mensagem interna), divulgamos cartazes, música, vídeos…”, disse, enfatizando que foram justamente as redes sociais que deram visibilidade ao movimento.
 
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