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BINÁRIO DE CASA FORTE: Ouro de Tolo ou Diamante em pedaço de vidro?

Texto publicado por Aluizio Câmara no grupo Direitos Urbanos sobre o polêmico binário Arraial-Encanamento.

Na polêmica implantação do Binário de Casa Forte, em uma ação desesperada de suposto planejamento urbano, no que concerne nossa gloriosa engenharia de tráfego, conseguimos distinguir algumas características bastante peculiares de nossa sociedade. A primeira delas deixa claro que existe vida inteligente no nosso universo citadino, que consegue se organizar, participar e adotar uma postura proativa, refletindo sobre a cidade e sugerindo possibilidades de abordagens e de ações públicas que contemplem a maioria da população. A segunda, menos gloriosa, nos mostrou que a classe mais abastada consegue igualmente se mobilizar, mas apenas quando lhe tiram algo já incorporado, por pior que esteja, mesmo que isso represente interesses que se sobrepõem ao da coletividade. Nos dois casos, entretanto, existe, em minha opinião, um equívoco básico, e por isso teço esta reflexão.É um engano pensar na luta pela ciclofaixa como paradigma da urbanidade. Claro que defendo o espaço do ciclista nas ruas do Recife. Uso diariamente a bike, com meu filho de 3,8 anos, tendo sido por duas vezes, recentemente, quase atropelado por motoristas cegos, que não conseguem enxergar nada além de seu precioso tempo e de seus pontos de origem e destino. A bicicleta sempre foi um meio de transporte para mim, desde a adolescência, quando saía de Casa Caiada em direção ao balneário de Del Chifre, para surfar entre as ondas e o lixo habitual. Parei ao ganhar meu fusca 74, aos 18 anos, mas sempre tive bike. Verdade que só voltei a usá-la como modal nos tempos de Paris.

Naquela época, no meu adorado exílio opcional francês, período em que redescobri que o carro e o homem não são peças indissociáveis e podem conviver separadamente, usava a bike para trabalhar no glorioso Grande Hotel Malher, que ficava no Marais, único bairro parisiense que resistiu a fúria modernizante do Barão de Hausmamn (no primeiro ano tinha uma bolsa do Governo do Estado, mas no período de 2003 a 2006 trabalhava de Veilleur de Nuit – recepcionista noturno, duas noites por semana, o suficiente para pagar despesas básicas e comprar os Bordeaux necessários ao bom funcionamento das virtudes). Morava no décimo sétimo distrito (Porte de Champerret), em 22 metros quadrados de um sobradinho de dois andares do início do XIX, também sobrevivente da missão higienista que expulsou os pobres da Velha Lutèce.

No segundo ano da Ecole du Louvre, descia a Avenue de Villiers de bicicleta, passava por Saint-Lazare, Opéra e chegava no centenário Palácio. O caminho era praticamente o mesmo para o hotel, que ficava próximo à estação Saint-Paul da linha 1 do metrô. Na volta pra casa, percorria quase toda a Rue de Rivoli e subia a Champs (para os íntimos) até a Etoile, onde culmina o famoso Arco cravado por Napoleão para representar as vitórias de sua Grande Armée. Lá chegando, cruzava quatro das doze vias da Etoile e descia a Av. Mac-Mahon. Como na França a preferencial é de quem está chegando ao girador, os carros paravam para me ver gastar os últimos fôlegos da subida. Chegava fácil na Avenue Niel e na Praça Perreire. Passava no ED, mercadinho do bairro, na boulangerie da Rue Guillaume Tell e chegava em casa. Vida urbana, vida cidadã. Detalhe, não havia praticamente ciclofaixa ou ciclovia, mas via exclusiva para ônibus, que podia ser compartilhada com a bicicleta.

O que me chamou atenção nessa discussão do binário foi que as bicicletas e os carros estão disputando o espaço, mas o ônibus não foi citado. O poder público deveria ter criado um espaço urbano planejado de forma integrada, onde exista coexistência civilizada e qualitativa de todos os modais. No mais, faixas exclusivas de transporte coletivo poderiam, desde que existisse respeito mútuo, ser compartilhadas entre ônibus e bicicletas. A diferença básica é que boa parte do mundo tomou consciência de que o carro ocupa todo e qualquer espaço que para ele é destinado, como em vários exemplos, sempre congestionando as vias.

Não existe alternativa fora da contemplação simultânea, dentro do planejamento urbano, de todos os modais, seja na pequena ou na grande intervenção. Não se pode pintar uma ciclofaixa e não refazer as calçadas… a priorização do transporte público unicamente também é um equívoco. O verdadeiro direito urbano encontra-se na observância das maiorias e minorias, de seus modos de deslocamento e de suas especificidades. Na intervenção da Avenida Conde da Boa Vista procurou-se priorizar apenas o transporte público, mesmo que novamente de forma equivocada. Outra coisa, as vias não podem receber centenas de linhas de ônibus, como acontece na própria Avenida Conde da Boa Vista. Ônibus deve ser tratado como metrô, com linhas que se tocam em pontos de baldeação que possibilitam a mudança de destino. Isso tiraria a guerra urbana de motoristas de ônibus desesperados para cumprir suas missões. Diminuiria o tempo de espera, possibilitando o controle do percurso e a informação do tempo de duração. Diminuiria a bagunça e a disputa por paradas entre linhas distintas. O carro até circularia melhor…

Reforma da avenida Jean-Jaurès

Ampliação do espaço público na avenida Jean-Jaurès em Paris, tirando espaço do carro

Em um boteco estilizado da cidade um amigo soltou a seguinte pérola: “o problema do trânsito do Recife são os ônibus, vocês viram com a greve como a gente conseguiu andar tranquilo?” Santa paciência!! Mas o fato é que o disciplinamento, juntamente com a priorização e o devido tratamento do transporte público, beneficiaria todos os modais.

Em apenas dois quilômetros de avenida podemos notar a diferença básica entre a mentalidade urbana das cidades de Paris e Recife. Na reforma da Avenida Jean-Jaurès, da Porte de Pantin (onde se encontra o Parc de La Villete e a Cité de la Musique) ao Boulevard de La Villete, o poder público tratou de diminuir a quantidade e estreitar as faixas de rolamento para os carros, possibilitando um melhor compartilhamento do espaço público (le partage de l’espace public).

Reduziu a faixa de rolamento de quatro para apenas duas vias, com áreas de estacionamento ou de paradas (tipo baia) alternadas ao longo da avenida. Criou ciclovias e faixas exclusivas de ônibus em “sítio apropriado” (site propre – um conceito que vai além da faixa exclusiva), ainda com instalação de pequenos parques ou bolsões de área verde, que se juntam ao cinturão verde de árvores alinhadas (essas existentes desde Hausmman). Assim, como informa o site da AREP, responsável pelo projeto, em livre tradução, “o pedestre, restabelecido em seus direitos, dispõe de largas calçadas protegidas.”

Diretriz de intervenções viárias em Paris constante da Charte d’Amenagement des espaces civilisés ( Carta de Planejamento dos Espaços civilizados) da Prefeitura

A luta pelo “espaço público viário” do binário pode parecer representar uma escancarada luta de classes em nossa cidade, embora seus representantes sejam majoritariamente pertencentes ao mesmo grupo social. As classes aqui parecem ser definidas pela diferenciação entre indivíduos e coletividade. Grupos que defendem seus interesses de acordo com a consciência e compreensão que têm acerca da cidade e do respeito ao outro. Para os defensores do carro, o mais lamentável é que a marcha-a-ré urbana reivindicada não representa ganho algum, se contarmos que, em um futuro muito próximo, os minutos que eles dizem ter perdido se perderão cada vez mais com a acréscimo de carros previsto mensalmente na cidade . Portanto, a luta pela volta ao passado é um verdadeiro Ouro de Tolo. Pode até brilhar aos olhos no início, mas não vale de nada!! Em revanche, a luta pela ciclofaixa, mesmo que esteja incompleta, pode representar uma vitória sem precedentes em nossa cidade e representar ainda, para nossa urbanidade, um verdadeiro diamante em pedaço de vidro…

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Discussão

3 comentários sobre “BINÁRIO DE CASA FORTE: Ouro de Tolo ou Diamante em pedaço de vidro?

  1. Quando é que o Direitos Urbanos vai comentar sobre aquele projeto que está destruindo as árvores na Av. Caxangá?

    Publicado por Aderbal | 4 04UTC setembro 04UTC 2012, 11:33
    • Está sendo discutido no grupo do Facebook

      Publicado por Leonardo Cisneiros | 18 18UTC setembro 18UTC 2012, 21:13
    • o projeto do corredor exclusivo (leste-oeste) de BRT?

      se sim.. ele contempla o replantio de arvores, recuperação das calçadas e “paisagismo”.

      se for pra implantar transporte publico de qualidade sou totalmente a favor de derrubar “tudo” que tem pela frente!

      varias avenidas parisienses foram desmatadas pra implantação do VLT da alstom!
      colocaram grama ao lado dos trilhos e plantaram mudas de arvores nas proximidades.

      fizeram um paisagismo digno de primeiro mundo… algo impensável pra nossa realidade.

      Publicado por RIC | 19 19UTC setembro 19UTC 2012, 03:08

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