//
você está lendo...
Artigos, Clipping

Resposta à matéria publicada na Folha de São Paulo em 13.05.12 sobre o projeto Novo Recife e o #Ocupeestelita

recife, 13 de maio de 2012.

à folha de são paulo,

foi com surpresa que recebi a matéria “revitalização de cais na foz do capibaribe vira impasse em recife”, de fabio guibu, publicada hoje na folha.com. abstenho-me dos comentários sobre o posicionamento ideológico explicitado na matéria (primeiro aspecto dessa surpresa), para me ater aos equívocos na informação objetiva (segundo aspecto) e fazer algumas correções essenciais.
na ordem em que aparecem no texto:

1. o “novo recife” não é um projeto de revitalização do centro como foi insistentemente apresentado na matéria da folha, é um empreendimento imobiliário, que promete sim dinamizar economicamente a área, aumentar o número de empregos, impostos, carros nas ruas do centro, esgoto no estuário, mas que absolutamente não toma o centro da cidade como referência, ao contrário, dá para ele as costas conectando-se muito mais diretamente com o shopping rio-mar, construído sobre o mangue na outra margem do rio, e com a zona de boa viagem, mais ao sul, já saturada pela especulação imobiliária. este projeto sobrepõe uma dinâmica urbana externa, baseada num alto padrão de consumo, à dinâmica existente, ignorando suas especificidades, fragilidades e potencialidades. este é um projeto de substituição, não de revitalização. a confusão entre o que é um projeto de incorporação e o que é um projeto de urbanização é um erro grave que deve ser evitado.

2. o cais josé estelita não fica na foz do rio capibaribe, mas na foz da bacia do pina, confluência de vários rios conectada com o grande manguezal urbano que ocupa parte considerável da zona sul da cidade. à distância são nomes de rios, ambos  importantes para a identidade cultural de recife e de pernambuco, é verdade, mas em termos ambientais e em relação aos impactos do projeto novo recife, esta diferença é bastante significativa. o ecossistema de que participa a bacia do pina é ainda mais complexo do que o do capibaribe e tão comprometido e frágil quanto.

3. o terreno em questão não faz parte do perímetro de proteção de bens tombados pelo iphan (instituto do patrimônio histórico e artístico nacional). o órgão federal, a despeito do parecer dos técnicos locais, realmente decidiu liberar o projeto mediante algumas contrapartidas em favor de bens com tombamento federal no entorno. por sua vez, o departamento de patrimônio da prefeitura não considera que seja sua competência a proteção desta área. entretanto, todo patrimônio ferroviário, incluindo o cais josé estelita, é tombado no âmbito estadual. o detalhamento dos perímetros e hierarquias desse tombamento ainda está em curso, por isso a fundarpe (fundação do patrimônio histórico e artístico de pernambuco) ainda não proferiu seu parecer sobre o projeto. Na audiência pública de 22 de março, a representante da instituição afirmou o compromisso de análise não somente das edificações e bens a proteger, mas da paisagem cultural, para a qual o gabarito dos edifícios é item fundamental. a recomendação do ministério público impede qualquer intervenção no cais enquanto esta análise não for concluída. depois disso e antes do início de obras, o projeto ainda tem que finalizar o trâmite na diretoria de planejamento urbano da prefeitura e em seguida passar pelo processo de licenciamento com os devidos estudos de impacto ambiental e de vizinhança.

4. as exigências legais que estão sendo cobradas pela prefeitura se referem a um empreendimento comum, que é analisado desarticuladamente pelas diversas instâncias de aprovação e não como o projeto de impacto que é, e que prevê não só medidas de mitigação de impacto, como análise integrada do interesse real do projeto para a cidade, que justifique sua realização apesar dos danos, mitigados ou não. além disso há questões processuais controversas, como por exemplo a protocolação do projeto instantes antes da aprovação do plano diretor da cidade, que inviabilizaria automaticamente o empreendimento pois a área é protegida pelo novo macrozoneamento.

imagem do projeto recife-olinda publicada pela folha como ilustração do novo recife

5. a foto publicada na matéria não é do novo recife, é do projeto recife-olinda, este sim uma proposta de urbanização elaborada pelo poder público para ser executada em parceria com a iniciativa privada nos moldes de operações urbanas ao longo de vários trechos sequenciais da orla metropolitana. o desenho urbano, o potencial construtivo e a altura dos edifícios são completamente diferentes nos dois projetos, o novo recife tem prédios de até 40 andares, o dobro do que aparece no plano de massas publicado na matéria. e, ainda mais importante do que isso, o recife-olinda tinha contrapartidas sociais, e, no que se refere ao desenho urbano, térreos ativos, ruas vivas, e irrigação e conexão com o centro da cidade, que fica por trás da área de intervenção. por falta de sustentabilidade política ou pelo desinteresse do empresariado em aderir à proposta, o recife-olinda não foi adiante como o projeto intersetorial que era e acabou abrindo caminho para que grupos privados adquirissem terrenos da união para promover incorporação imobiliária descompromissada com as diretrizes urbanísticas que este macro projeto bem definia. especificamente para o cais, as principais diretrizes eram: a) articulação da cidade com as frentes d’água; b) valorização do patrimônio histórico: forte das 5 pontas e seu entorno histórico, configurado pelos bairros de são josé e santo antônio; c) destinação de parte da área para o mercado popular de habitação, comércio e serviços; d) diversidade funcional. o projeto novo recife caminha em direção diametralmente oposta.

perspectiva eletrônica do projeto novo recife publicada no site da construtora gl empreendimentos

6. a cronologia apresentada é insuficiente. é preciso considerar pelo menos: a) 1999, extinção da rffsa; b) 1999, projeto estratégico “capital” que mapeia novas centralidades com potencial indutor de desenvolvimento e rearticulação da cidade, entre elas o cais, e prevê um novo acesso viário à boa viagem, hoje a via-mangue em construção; c) 2005, apresentação do projeto urbanístico recife-olinda, não executado; d) 2008, venda do terreno em leilão e protocolação do projeto na prefeitura às vésperas da aprovação do plano diretor, que inviabilizaria o projeto devido sua inclusão em área de proteção pelo macrozoneamento; f) 2012, o iphan, a despeito do parecer local, aprova o projeto mediante contrapartidas em favor de bens tombados, fundarpe segue analisando o detalhamento dos bens ferroviários tombados e os critérios para preservação da paisagem cultural da área, e prefeitura declara que o tema está fora de sua competência; e) março de 2012, ministério público recomenda congelamento do processo até o pronunciamento final dos órgãos de patrimônio, e após audiência pública de apresentação do projeto cidadãos se organizam “alegando que ele descaracteriza a região e provoca graves impactos ambientais, urbanos” e sociais; f) março a maio de 2012, manifestantes ocupam por 3 vezes as calçadas do cais em repúdio ao projeto novo recife e a favor do redirecionamento e fortalecimento das políticas públicas urbanas no recife.

atenciosamente,

cristina gouvêa
arquiteta,
integrante do grupo direitos urbanos | recife
e participante do #ocupeestelita

mais informações no blog: http://www.direitosurbanos.wordpress.com
e no grupo direitos urbanos | recife: https://www.facebook.com/groups/233491833415070/

Anúncios

Discussão

6 comentários sobre “Resposta à matéria publicada na Folha de São Paulo em 13.05.12 sobre o projeto Novo Recife e o #Ocupeestelita

  1. Ótimo!

    Publicado por Érico Andrade | 14 14UTC maio 14UTC 2012, 08:43
  2. Reblogged this on Pescandoluzes.

    Publicado por Light fisher | 14 14UTC maio 14UTC 2012, 09:46
  3. Cristina Gouveia ,
    Parabéns pelo seu comentário.
    Vamos salvar o nosso patrimônio.
    Preservar a nossa paisagem cultural.
    Os órgãos competentes não podem de maneira alguma se curvarem para o ” progresso” das pretensiosas edificações de 13 prédios de 40 andares, isto causaria um forte impacto ambiental e logístico para a belíssima área do Cais José Estelita.
    Mais uma vez obrigada pela sua atuação como cidadã.

    Publicado por Daniella Miranda | 14 14UTC maio 14UTC 2012, 10:38
  4. Parabéns!
    Arquiteta,
    Cristina Gouvêa

    Excelente resposta a matéria publicada na Folha de São Paulo em 13.05.12 sobre o projeto Novo Recife e o #Ocupeestelita.

    Integrante do grupo direito urbano | Recife
    E participante do #Ocupeestelita.

    PS. mais informações no blog: http://www.direitosurbanos.wordpress.com
    e no grupo direitos urbanos | recife: https://www.facebook.com/groups/233491833415070/

    Atenciosamente,
    Salvador Marques.

    Publicado por Salvador Marques Marques | 14 14UTC maio 14UTC 2012, 11:14
  5. Filosofia por filosofia, prefiro a ação e o surgimento de um novo espaço urbanístico vivo. Avante! novas idéias e chega de estagnação intelectual.

    Publicado por Adeildo Pereira | 19 19UTC maio 19UTC 2012, 15:31

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: