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O poder moral de uma ilusão

 por Vinicius Lobo

 Um dos argumentos centrais a favor da iniciativa imobiliária do projeto Novo Recife é o de que tal empreendimento contribuiria para o bem-estar da comunidade através da geração de empregos. As oportunidades de emprego abertas pela iniciativa desempenhariam, portanto, uma função solidária para com a saúde do organismo coletivo que estaria acima de qualquer efeito colateral provocado sobre a mobilidade, a paisagem ou a ventilação, por exemplo. O que desejo expor aqui é o cinismo por trás de tal justificação moral do empreendimento com base num suposto elemento solidário do emprego. Para isso é preciso que abordemos algumas das determinações e normas envolvidas no processo produtivo capitalista dentro do qual se apresentariam tais oportunidades de emprego.

 Não é novidade pra ninguém que o princípio norteador de toda produção capitalista não é satisfação de necessidades da população, mas o lucro. A finalidade última dessa forma de produção, portanto, não é a fabricação de um bem, mas sim a acumulação monetária, logo, seu ciclo produtivo só chega a seu fim quando o empresário coloca o dinheiro no bolso. Caso haja qualquer imprevisto que impossibilite essa realização monetária (ou venda) da produção, todo o processo produtivo foi em vão, pois se traduziu em gasto ao invés de acúmulo. Vemos então que a atividade empresarial é uma iniciativa arriscada, pois algum evento inesperado pode significar não só a perda de seu objetivo final (o lucro), como também a não reposição de todo o dinheiro antecipado para arcar com os custos de produção. Em outras palavras, o empresário, devido à instabilidade da vida social, está sujeito à perda do capital que investiu com a finalidade futura de devir em lucro.

 A questão então que se coloca agora, e que a Economia Política se colocou até a segunda metade do século XIX, é a seguinte: quando o inesperado não acontece e o empresário consegue concretizar o ciclo produtivo com a venda do produto, com o retorno do dinheiro previamente investido às suas mãos, de onde vem o excedente? Ou melhor, de onde vem o lucro? Cada centavo arriscadamente investido pelo empreendedor retorna ao seu bolso assim que toda a produção é vendida, logo, todo valor que é agregado ao produto pelo capital investido pelo empresário é por ele novamente apropriado com o ato da venda. Contudo, ao final do processo produtivo, chega a suas mãos não apenas o valor correspondente aos seus custos de produção, mas essa quantia somada de um valor-excedente. O que se sabe hoje é que esse excedente acumulado pelo empresário deriva da parte do valor que, dentro do processo produtivo, é agregada pelo trabalhador. Pensando o processo produtivo como uma unidade na qual duas determinadas forças cooperam para a criação de um objeto, chamemos o investimento (ou a força) do empresário de Capital e o investimento (ou a força) do trabalhador de Trabalho. A essência concreta da riqueza produzida no processo, portanto, é o resultado da síntese dessas duas forças, Trabalho e Capital, logo, em termos concretos, a propriedade dos resultados da produção deveria ser equitativa à responsabilidade quem tem cada uma das forças dentro do processo. Contudo, dentro do capitalismo a coisa não funciona segundo a responsabilidade concreta do agente produtivo, pois, como vimos, ao final do processo, o empresário resgata o sua parte somada a um excedente, ou seja, ao lucro. Esse excedente é um resultado direito da aceitação (ou do reconhecimento) generalizada de uma norma ou lei abstrata que determina que os ganhos do trabalhador não devem ser calculados pelo valor que agrega ao produto, mas sim pelo custo de sua subsistência subjetiva. É a “lei do salário”. O cálculo dos direitos do trabalhador sobre o processo produtivo é feito com base no custo da sua reposição vital e não sobre a magnitude de sua produção. É, portanto, dessa negação abstrato-arbitrária da essência ou da concretude da dinâmica produtiva, ou melhor, do reconhecimento coletivo da legitimidade dessa ilusão (a de que o trabalho não vale a sua magnitude real), que resta, ao final processo, um excedente a ser apropriado pelo empresário. Em outros tempos, utilizou-se o termo “fetichismo da mercadoria” para resumir a totalidade desse processo simultâneo de negação e apropriação.

Voltemos então, apenas para tentar fazer um arremate final, ao problema de definição da oferta de empregos como justificativa moral de um empreendimento capitalista como o projeto Novo Recife. Como foi visto acima, em sua forma capitalista, o processo produtivo é tudo menos solidário com aqueles indivíduos da comunidade que aceitam ocupar seus postos de trabalho. Muito pelo contrário. São justamente esses indivíduos que arcam com o custo social que é a taxa de lucro do empresário. É a parte não paga do valor produzido pelo seu trabalho que sustenta o enorme ônus social que é o excedente apropriado pelo capitalista. Um empreendimento imobiliário como o projeto Novo Recife, já que inserido dentro de uma lógica produtiva capitalista, já trás em-si um custo social, logo, a sociedade não pode permitir que a tal iniciativa some-se ainda um custo social agregado, qual seja: a privatização total de um dos espaços mais privilegiados da geomorfologia recifense.

 Através do trabalho humano, tal espaço geomorfológico pode renascer como espaço de cultura, contudo, o que defende o cinismo empreiteiro-imobiliário, dentro do qual este texto tentou apontar contradições, é que tal privilégio geomorfológico se transforme num espaço de consumo.


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Discussão

9 comentários sobre “O poder moral de uma ilusão

  1. _ A lei da especulação imobiliária tem como prioridade, o imediato lucro dos empreendedores…

    Publicado por Marcos Antôno Vieira Barbosa | 13 13UTC maio 13UTC 2012, 09:37
  2. certo, você usou um fichamento de Marx para mostrar que estamos lidando com um processo de espoliação e acumulação do Capital. e?

    Publicado por Antonio Rodolfo | 13 13UTC maio 13UTC 2012, 20:42
  3. É só isso mesmo Antonio, tentei apenas trazer alguns conceitos para a discussão e debater com um argumento usado pelo consórcio. Acredito que a articulação do movimento com alguns setores importantes da sociedade civil passa pela reflexão que se tenta fazer no texto.

    Publicado por Vinicius | 14 14UTC maio 14UTC 2012, 10:08
  4. Caro Vinícius, gostei do seu artigo, porque nos trás uma abordagem que até agora não vi em outros meios e isso é muito positivo para a compreensão do problema como um todo. Se me permitir, gostaria de trazer uma contraposição a fim de enriquecer a discussão. Se eu percebi corretamente, a sua linha de raciocínio baseia-se na ideia do “SOMA ZERO”, onde alguém tem que perder para o outro ganhar. Se o empresário teve lucro, foi porque o empregado não recebeu o que merecia. Pelo que sei, trata-se uma falácia marxista há muito desvelada, mas que ainda sobrevive na ideologia esquerdista alimentada pelo ressentimento contra indivíduos criativos e empreendedores. Atualmente, o que mais vemos são exemplos da “SOMA POSITIVA”, em que, através da inovação e da concorrência, se cria riqueza onde antes não havia nada. Veja o caso do Facebook: será que os 100 BILHÕES de dólares que vale a empresa resultou da “mais-valia” tomada de seus parcos três mil funcionários? Não, resultou exclusivamente da inteligência, do espírito empreendedor e da criatividade do próprio Zuckerberg. Ele percebeu antes de qualquer um no mundo que 800 milhões de pessoas desejariam algo como o Facebook, e, por essa visão, merece cada centavo de seus bilhões. Creio que não preciso nem falar do Steve Jobs. Trazendo essa ideia agora ao projeto Novo Recife, fica evidente que se trata de mais um caso de soma positiva. O empresário lucra, porque inovou, se arriscou e investiu na sua visão de futuro; o trabalhador recebe a justa remuneração pelo seu trabalho e a sociedade ganha em termos de riqueza com a posterior geração de empregos decorrentes de todo um “ecossistema” de serviço e comércio criado pelo projeto. Aliás, na ponta do lápis, o lucro do empresário vai ser até pequeno diante da riqueza gerada para a sociedade ao longo dos anos (vide a potência em que se tornou Shopping Recife e seu entorno). Se isso vai compensar o custo social em termos de mobilidade, paisagem ou ventilação, eu não sei dizer, mas o que sei é que onde hoje existe um terreno baldio, haverá gente trabalhando e produzindo riqueza; onde hoje se acabrunha o “resultado zero”, brilhará a “soma positiva”.

    Publicado por André Lima | 14 14UTC maio 14UTC 2012, 23:47
  5. muito massa esse artigo mostra o que na verdade querem os especuladores

    Publicado por Paulo Roberto | 16 16UTC maio 16UTC 2012, 07:27
  6. Diz André Lima: “o trabalhador recebe a justa remuneração pelo seu trabalho”…O que seria essa justa remuneração, André? Acho que acontece justamente o contrário, de vez que o artigo mostra que a remuneração não é justa, visto que não é proporcional ao lucro gerado, o qual retorna apenas para o investidor e não para a força de trabalho utilizada na geração do produto.

    Publicado por Aderbal | 21 21UTC maio 21UTC 2012, 14:08
  7. Então, Aderbal, é nesse ponto mesmo que a teoria marxista do “mais-valia” defendida no artigo, embora bem escrito, não faz nenhum sentido para mim. Tomando-se novamente o exemplo do Facebook, um recepcionista dessa empresa não fez ela ter os lucros que tem. A maioria das empresas do mesmo ramo, mesmo tamanho, com funcionários de mesma qualificação, trabalhando a mesma quantidade horas, não lucra nem um milésimo do que lucra o Facebook. O sucesso dessa empresa, traduzido em lucros, decorre exclusivamente do espírito de inovação do seu criador. Por que então um recepcionista de lá mereceria ganhar acima da média do mercado? Qual foi o diferencial no trabalho dele que ajudou no sucesso do Facebook? O que foi que ele fez que os recepcionistas das outras empresas não fizeram? Poderia ser dito: “Ah, mas seria apenas uma pequeníssima fração dos lucros”. Em menos de 10 anos, o valor do Facebook passou de 20 mil dólares para 100 bilhões. A fração dos lucros, por menor que fosse, faria um recepcionista de lá evoluir para um salário de uns 200 mil reais por mês! Poderia ser dito: “nesse caso, reduziríamos o percentual”. Mas isso não criaria um salário fixo independente dos lucros? E se a empresa começasse a dar prejuízo? Pela coerência, os empregados deveriam trabalhar de graça, afinal se o lucro é de todos, o prejuízo também deveria ser. É por isso que eu não entendo essa teoria marxista. Mas se você achar que ainda vale a pena tentar fazer esse cabeça-dura aqui entender, por favor, explique-me como (pode usar o mesmo exemplo do Facebook 🙂 Respondendo a sua pergunta, remuneração justa para mim é uma coisa muito simples: é quanto vale o trabalho daquele recepcionista no mercado local, que vai depender apenas da oferta de vagas e da qualificação do candidato para o trabalho.

    Publicado por André Lima | 25 25UTC maio 25UTC 2012, 11:48
  8. Caro Alberto, desculpe aí pela demora em responder. Sobre o seus comentários, primeiro gostaria de me referir à sua colocação da fórmula de composição do valor como “falácia marxista”. Marx, como bom filósofo dialético que era, não elaborou suas análises econômicas do nada, mas a partir de um diálogo com a história da Economia Política. Sem duvidas ele se aprofundou bastante na explicação dos elementos que determinam o ganho de capital ou lucro, mas ele não foi o primeiro a vislumbrar a relação da magnitude desse ganho com o grau de exploração do trabalhador. Na Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações, Adam Smith afirma quase 100 anos antes de Marx: “A taxa mais baixa de ganho habitual dos capitais tem sempre de ser algo mais do que o necessário para compensar as perdas ocasionais às quais está sujeita toda aplicação de capital. Este excedente é o lucro líquido. […] A taxa mais alta a que podem subir os ganhos habituais é aquela que, na maioria das mercadorias, extrai a totalidade da renda da terra e reduz o salário da mercadoria produzida ao preço mais baixo, à mera subsistência do trabalhador durante o trabalho.” A lei da mais valia não é uma “lei marxista”, é uma lei científica, desenvolvida no decorre da histórica da economia política e reconhecida por praticamente toda teoria econômica desde Smith, entre eles David Ricardo, John Maynard Keynes, Rosa de Luxemburgo e Karl Marx, por exemplo.

    Sobre a questão do “jogo de soma zero” que você menciona, acredito que deves ter se confundido a questão da produção com a distribuição. Todo trabalho cria riqueza, ou seja, agrega valor à natureza pela força da técnica e do engenho humanos, seja ele assalariado, escravo ou servil. O problema, no caso do trabalho assalariado, é que quando o trabalho é avaliado como uma mercadoria, o valor que ele agrega na construção da nova riqueza não lhe é reconhecido. Ele recebe apenas o salário, que representa não o valor que ele agregou ou a riqueza nova que ele criou no processo produtivo, mas os custos da sua subsistência no determinado contexto social. O caso das empresas de tecnologia é bem emblemático, e te confesso que não sei muito bem como fazer o cálculo da composição do valor aí. Mas pensemos no caso de uma professora de curso de inglês. Digamos, em Recife, que cada aluno pague 250 R$ de mensalidade, e que ela dê aula a uma turma de 8 alunos. Calculando o valor do trabalho dela, ela deveria então receber 2000 R$ mensais por essa turma. Contudo, em Recife, a escola de idiomas que paga melhor na cidade, não dá nem 400 R$ mensais a essa professora por sua aula para essa turma de 8 alunos. Pra onde vão esses 1600 reais? E os outros 1600 R$ das outras 10 turmas que essa professora tem? E os 1600 R$ das outras turmas das outras professoras? Vai tudo isso pra pagar aluguel, conta de luz, conta de água, ou seja, os outros custos de produção além do trabalho?

    Desculpa aí a forma rasa e rápido como tudo foi posto aí em cima, mas no corre-corre aqui foi assim mesmo.

    Publicado por Vinicius | 31 31UTC maio 31UTC 2012, 20:43
  9. Já que falasse da Apple, dá uma olhada nesse vídeo:

    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/02/120222_apple_china_bg.shtml

    Publicado por Vinicius | 31 31UTC maio 31UTC 2012, 20:50

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