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Patrimônio e cidade em debate – para além do tombamento

Presidente do Iphan abre ciclo de conferências do I Encontro Nacional das Instituições Estaduais de Preservação do Patrimônio Cultural e provoca reflexão sobre o lugar do patrimônio no País

“O patrimônio é tudo, não somente os tombamentos históricos, artísticos e culturais”, reflete o presidente do Iphan,, durante a conferência de abertura do I Encontro Nacional das Instituições Estaduais de Preservação do Patrimônio Cultural, no Recife. A frase do presidente é o ponto a partir do qual irradiou grande parte das questões debatidas na manhã desta quarta-feira (25/4) no evento, inaugurado ontem à noite (23/4), no Mar Hotel.

A necessidade de uma política patrimonial mais livre, no sentido de menos setorializada, e que se comunique e promova trocas efetivas com a sociedade foram questões que permearam todas as discussões. “Precisamos aumentar a nossa legitimidade e importância social para construir legitimidade e importância política”, diz Luiz Fernando Almeida sobre a emergência de repensar tanto o modus operandi quanto a própria concepção de patrimônio e da sua relevância na trama sociocultural.


Luiz Fernando Almeida guiou as discussões deste primeiro momento e deixou muito evidente a sua motivação de recosturar o elo da política de preservação com as outras instâncias do poder público. Ele enfatizou a nova dimensão que deve ser dada ao assunto, atualmente relegado a um hall secundário. É a partir dessa ideia que ele defende que patrimônio é tudo, e que dever ter um valor também intelectual, de pensar as cidades, refletir sobre os novos modos de vida e acompanhar com dinamismo as questões que se impõem.

“O problema do patrimônio não é enfrentado apenas pela politica do patrimônio. Ele passa por uma revolução, passa por uma construção da maneira como se olha o problema do patrimônio. Há a necessidade de um novo discurso. Não é o movimento social organizado necessariamente, é o sentido das coisas.  Mudar. Não é dizer sim, nem não, é dizer como. É um esforço. As pessoas se acomodaram em uma posição de funcionários públicos, mas devemos ser tão dinâmico como a dinâmica do nosso próprio objeto!”, reforça no final do debate.

O rompimento intelectual pelo qual passou e passa a reflexão sobre patrimônio, ainda bastante presa a um modelo relativamente ultrapassado, segundo os participantes, deve ser reconstruído. Também é problematizado, nesse momento, o olhar ortodoxo que os profissionais de preservação, eventualmente, oferecem ao patrimônio, enrijecendo e “fetichizando”, segundo o presidente do Iphan, esse olhar.

A questão urbana
Temas atuais, como o Projeto Novo Recife, que mudará as feições do Cais José Estelita e por conseguinte gerará um outro tipo de espaço público e de cidade, foram tocados no debate. A configuração patrimonial e urbana foi sempre conectada à conformação da própria sociedade, com o modo de vida que se deseja em conjunto. “Problemas de verticalização e mobilidade não surgem como geração espontânea. É a política pública que gera isso. E nós permitimos”, diz o presidente do Iphan sobre o assunto.

Outras questões de ordem prática, como déficit de recursos humanos e financeiros, também foram postos em pauta, assim como os papéis das instâncias federal e estadual. Sobre este último, foi demonstrado, na maior parte das falas, o desejo de que os estados se empoderem e não dependam apenas dos recursos e das iniciativas federais. Célia Campos, diretora de Preservação Cultural da Fundarpe, acredita que o debate iniciado na manhã desta quarta-feira mostrou as desigualdades, disparidades e peculiaridades de cada um dos estados. “E diante dessa diversidade, eu acho que vamos conseguir enfrentar esse desafio”.

O desafio ao qual Célia Campos se refere é a necessidade de uma ação sistêmica, propositiva, que não seja refém de uma estrutura maior. “Foi  muito instigante a fala de Luiz Fernando, nesse sentido de pontuar e colocar bem os papéis. Então, realmente, é um ato de conquista, e eu acho que a partir destes dois dias de encontro, a gente vai ficar mais fortalecido e vai ter maior condições de propor ações que fortaleçam o sistema e que promovam essa prática sistêmica de uma maneira mais pontual”, procurar amarrar a diretora.

Estão presentes no encontro, que vai até amanhã (26/4), representantes de 13 estados: Amapá, Ceará, Goiás, Santa Catarina, Bahia, Minas Gerais, Paraíba, Distrito Federal, Maranhão, Sergipe, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul. Todos puderam falar das experiências de gestão nos seus respectivos estados, assim como de suas visões acerca de patrimônio cultural. Nesta quinta, será apresentado, pela Iepha (Minas Gerais) o painel “Desafios conjunturais para a preservação cultural”. À tarde, o Ipac (Bahia) apresenta “Rede de instituições estaduais de preservação do patrimônio cultural”. A programação de amanhã também inclui a plenária final do encontro, no final da tarde.

Por Julya Vasconcelos, do site da Fundarpe

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