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Ativistas do Direitos Urbanos explicam por que são contra o Novo Recife | #Painelaurora

O debate sobre o projeto Novo Recife inaugura o #Painelaurora do Diário de Pernambuco, muro virtual de ideias sobre a cidade e suas pessoas. Contra ou a favor, participe!

Por Leonardo Cisneiros e Cristina Gouvea

No dia em que escrevemos esse texto completou-se um mês desde a audiência pública na Câmara Municipal para a discussão do Projeto Novo Recife, convocada a pedido do grupo Direitos Urbanos. Só um mês! De lá pra cá, a mobilização cresceu explosivamente, com o grupo de discussão no Facebook ultrapassando a marca de 5 mil membros e com a realização do primeiro #OcupeEstelita, em 15 de abril. O debate surgiu e isso é o que faltava na cidade há muito tempo.

No começo da conversa, opositores e defensores do projeto concordam: a área está abandonada (cabe procurar entender como isto aconteceu, inclusive com o mau planejamento do acesso à área) e não é interessante para a cidade que fique como está. Ela ocupa um lugar estratégico, na confluência entre o Centro e a Zona Sul, e tem um grande potencial como indutora de reurbanização e desenvolvimento econômico na parte sul do Bairro de São José. Mas o acerto desse diagnóstico sobre a área mostra justamente a razão pela qual o projeto é uma péssima solução.

Em casos de sucesso na revitalização de áreas portuárias em outros países, como Roterdã ou Liverpool, o fator crucial foi ter pensado toda a área em conjunto com a cidade, começando pelo planejamento do todo e só daí partindo para pensar as partes. Isso quase foi feito ali, na área do Cais José Estelita.  Há alguns anos, o governo do estado junto com o governo federal e a prefeitura encomendou um projeto para toda a frente marítima desde o centro de Recife ao começo de Olinda. O desenho que este projeto oferecia para a área do Cais incluía, dentre outras coisas, a integração completa da malha viária nova com a já existente no bairro de São José e a eliminação de barreiras físicas entre a área antiga e área proposta. O plano de ocupação proposto se preocupava fortemente com a garantia de um uso diversificado da área e com a diminuição de barreiras sociais, através da mesclagem de prédios comerciais e prédios residenciais, tanto de alta quanto de baixa renda. Com o desmantelamento deste projeto, o que sobrou foram grandes terrenos disponíveis para a exploração imobiliária, sem controle efetivo do poder público. Além do Recife-Olinda, que custou mais de três milhões de reais ao governo do estado e foi arquivado, pelo menos seis outros projetos para a mesma área foram apresentados por alunos e professores do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPE só no semestre passado. E todos eles partiam do consenso de que qualquer uso para uma área desse porte deve partir de um planejamento da cidade e da integração do terreno a ela. Só isso mereceria o nome de um novo bairro.

Mas o Projeto Novo Recife não teve a mesma preocupação e, por isso é que, na verdade, se revela como um enorme desperdício da oportunidade oferecida à cidade por um terreno tão valioso e estratégico. Apesar do discurso de revitalização ele é não se relaciona com as possibilidades do lugar, ao contrário, é um projeto de completa substituição de formas, de usos e de pessoas. Projeta-se um paredão de prédios logo na frente da orla, inaugurando o novo bairro já com um erro que Boa Viagem demorou anos para cometer. Todo o resto do novo bairro já surgiria na sombra, tanto a real quanto a metafórica, dessas torres de costas para a cidade. Além disso, o Bairro de São José tem características muito fortes, que representam os vários períodos de urbanização de Recife. O Novo Recife não as leva em conta, não evolui a partir delas. Aproveita a barreira, que nem se sabe se será permanente dos trilhos operacionais para provocar um corte abrupto. Afasta-se convenientemente do intenso comércio popular do centro e das áreas pobres à beira-rio. O pensamento do todo, da integração com a cidade, chega em segundo lugar, como mitigações, capitalizado como um sinal de boa vontade dos empresários em relação à cidade, enquanto que, na verdade, não é mais do que a obrigação de qualquer projeto envolvendo uma área tão grande e central. E uma obrigação que, no caso do Novo Recife, está sendo cumprida no mínimo permissível pela lei e disfarçável perante a opinião pública: as contrapartidas exigidas pela prefeitura correspondem a menos que 1,5% do valor previsto para os investimentos na obra e pouco ajudam na sua integração ao tecido urbano.

E com essa constatação é que, para concluir, podemos pensar em qual é o grande problema de fundo do Projeto Novo Recife. Não podemos correr o risco de ficar discutindo só um projeto ou outro. Ou, pior ainda, cair na armadilha de fechar a discussão em seus detalhes, como o melhor gabarito para os prédios ou se a ciclovia poderia ser um pouco mais comprida. O Novo Recife atraiu tanta atenção e levou ao #OcupeEstelita não por causa de um apego especial das pessoas ao Cais, mas simporque é o símbolo máximo dos erros do desenvolvimento urbano da cidade do Recife. Todo crescimento da cidade tem sido induzido há anos somente a partir dessa concepção fragmentária, isolada, de arquitetura, justamente porque tem sido um desenvolvimento conduzido pela iniciativa e pelos interesses privados, tanto das empresas que ofertam os imóveis quanto das pessoas que o compram. E, nessa constatação, não há necessariamente uma condenação moral ao individualismo, nem uma postura anti-capitalista: as pessoas querem morar nos melhores lugares, as empresas querem maximizar o seu lucro e, a princípio, o problema não está nisso. O problema é que, como a teoria dos jogos mostra, muitas vezes, quando todos buscam maximizar o seu interesse individual ao mesmo tempo, acabam pior do que se tivessem cooperado. Isso acontece, por exemplo, no mercado imobiliário quando as pessoas, motivadas pela insegurança, demandam prédios cada vez mais isolados da rua e, com isso, criam ruas cada vez mais desertas e inseguras. Ou quando, similarmente, a demanda por moradia em uma área com boa oferta de serviços, com grande arborização ou tranquila pode criar uma especulação imobiliária ali que acaba por eliminar cada uma dessas qualidades iniciais.

A única forma de evitar a geração desses círculos viciosos é o poder público atuar como representante do interesse comum, aberto para a participação, pensando a cidade como um todo e liderando a iniciativa de seu desenvolvimento sustentável e harmônico. Pensar o todo garante que todos se beneficiem mais e por mais tempo, inclusive as empreiteiras, que lucrariam muito bem em quase todas as outras alternativas propostas para o Cais. Mas não é isso que temos visto no Recife, onde o poder público municipal se contenta somente em sair do caminho da iniciativa privada, satisfazendo-se com as pequenas mitigações oferecidas por ela e se escondendo numa interpretação literal de uma legislação urbanística defasada, em conflito com a Constituição, com o Estatuto das Cidades e com o Plano Diretor municipal. No fundo, mais do que brigar contra este ou aquele projeto, foi e será contra essa postura que ocupamos e continuaremos a ocupar o Estelita.

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Discussão

7 comentários sobre “Ativistas do Direitos Urbanos explicam por que são contra o Novo Recife | #Painelaurora

  1. Caros Leonardo e Cristina,

    Escrevo para dar os parabéns pelo texto e ao mesmo tempo pela maturidade que vocês líderes e grande parte do grupo adquiriram nesse processo. Confesso que fiquei preocupado quando vi que estavam se deixando guiar por comparações de projetos. Conheço todos e reafirmo que se diferenciam muito pouco, sendo iguais nas questões capitalistas, sociais e urbanísticas, sempre omissa no tratar o indivíduo, maior usuário da cidade. A oportunidade é única para se exigir e conseguir o que a cidade realmente merece. Não se deixem levar pelo oportunismo rancoroso de alguns que tentam viabilizar as suas predileções individuais, ofuscadas em outros momentos profissionais e ou políticos. Acredito que com a crença, legitimidade e força cada dia maior, o grupo terá as conquistas merecidas para uma das cidades mais belas do mundo, apesar de muitos. Novamente meus parabéns.

    Abraços,

    cesarbarros

    Publicado por cesarbarros | 26 26UTC abril 26UTC 2012, 11:39
  2. ´Muito boa a crítica dos Ativistas dos Direitos Urbanos, Leonardo e Cristina. Foram na ferida. O erro fundamental é fazer o pedacinho sem pensar no todo. Isso não é planejamento, é transplante. E transplante sem a visão de um clínico geral tende à enfrentar rejeições. Para que nos servem o estatuto das cidades e o plano diretor tão badalado? Dizendo o óbvio: precisamos de um diagnostico da cidade, discutir o que queremos dela e planejar o seu futuro.

    Publicado por Wilame Jansen | 30 30UTC abril 30UTC 2012, 09:10

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