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Ocupa Estelita: política e moralismo

por Érico Andrade, doutor em filosofia pela Sorbonne, professor do departamento de filosofia da UFPE. 

Professor Érico Andrade, no primeiro #OcupeEstelita, dia 15 de abril de 2012 (foto: Leonardo Cisneiros)

Parte da reticência de vários setores da sociedade quanto à manifestação pública de um interesse coletivo se apoia na prerrogativa de que a legitimidade do movimento está subordinada à conduta exemplar daqueles que o fazem. Assim, para protestar por uma causa o agente político tem que ser um exemplo irretocável e acabado do modo correto de agir na relação com o mundo e com a sociedade. Vou defender que essa visão é míope face à compreensão do processo político à medida que revela um preocupante moralismo de natureza asceta.

As críticas ao Ocupa Estelita passam, entre outras coisas, por algumas denúncias da suposta e irrevogável contradição como, por exemplo: 1) reivindicar ciclovias, mas ir de carro ao movimento e ao trabalho; 2) morar num espigão e exigir para o Cais de Estelita construções mais adequadas ao ambiente e à paisagem; 3) negligenciar problemas mais graves referentes a outras demandas ecológicas para reclamar uma questão meramente paisagística; 4) por fim, ter um emprego e ser contra aquela construção que irá certamente gerar mais empregos. Essas críticas pressupõem que o agente político deve ser ideal para fazer política.

Julgar o movimento político pelo caráter moral do seu agente significa subordinar uma ideia coletiva ao somatório dos interesses individuais que na maior parte das vezes são difusos e distintos. O espírito de um movimento político não repousa na uniformização moral do agente político, pois a política consiste numa tentativa de sairmos da esfera individual por meio da procura por um projeto comum. Por isso, a atividade política é coletiva e não individual. A atividade política não deve ser julgada pelos agentes políticos, mas pela proposta coletiva que ela apresenta. Disso se seguem algumas considerações: 1) O fato de alguém usar carro com frequência não desqualifica que ele defenda a existência de ciclovias, pois isso não elimina a legitimidade da sua exigência por ciclovias como projeto político de urbanização; 2) Conseguir morar em Recife passa hoje, sobretudo, pela compra de um apartamento. Isso exige o aumento no número de prédios para tornar minimamente equilibrada a curva de demanda e oferta. Contudo, o planejamento da cidade consiste num projeto urbanístico que racionalize os espaços da cidade. Certamente a construção de prédios não deve se centrar em alguns bairros, pois isso cria fossos de desigualdade à proporção que degrada o ambiente; 3) O problema paisagístico reflete um problema mais essencial: a falta de planejamento no que concerne ao modelo desenvolvimento, visto que a paisagem aprazível é, na maior parte das vezes, o resultado de um ambiente sustentável e planejado para a coletividade; 4) Não se pode pensar um projeto urbano que se resuma ao dilema: ou se constrói prédios em certas áreas ou não se constrói mais nada. O poder público deve e tem como gerenciar os melhores locais para a construção de grandes edifícios na cidade.

A motivação que governa os argumentos contra manifestações como o Ocupa Estelita parecem se remeter a um ideal cristão que exige uma assepsia do agente político. É como se o agente político devesse ser uma espécie de anjo imune a qualquer sedução do progresso econômico. No entanto, o movimento político é uma maneira de fomentar a consciência individual por meio de um projeto coletivo. Assim, o Ocupa Estelita pode sensibilizar não apenas a sociedade, mas também seus próprios membros. Para isso não é necessário exigir um agente político ideal. No máximo essa exigência pode gerar um sentimento de culpa no agente político (porque ele não é moralmente perfeito) que se converte em paralisia política (porque o agente político só poderia e deveria agir quando fosse moralmente perfeito). O problema dessa visão moralista é que ela nos condena ao fatalismo político que só poderá ser revertido no céu.

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Discussão

27 comentários sobre “Ocupa Estelita: política e moralismo

  1. excelente! vai pro meu tuiter!

    Publicado por sandra camurça | 21 21UTC abril 21UTC 2012, 12:18
  2. Excelente artigo, professor. Me pergunto porque muita gente só vê essas duas posições: ou se constrói o projeto tal qual foi formulado primeiramente, ou se permanece na inércia das últimas décadas. É como se para que o poder público pudesse se mobilizar, fosse necessária a intervenção de empresas que lucram (e muito) justamente por causa desse abismo social que vivenciamos hoje em nossa cidade. Pior ainda é a tentativa de aniquilar qualquer tipo de debate centrando a crítica apenas nas pessoas que defendem determinadas ideias, e não das próprias ideias.

    Publicado por Louise Walmsley | 21 21UTC abril 21UTC 2012, 13:18
    • Louise! O problema é que o estado brasileiro está sempre atrasado. Esse atraso infelizmente é na maior parte das vezes ligado à subordinação do público ao privado. Isso é grave

      Publicado por Érico Andrade | 23 23UTC abril 23UTC 2012, 13:55
  3. Boas reflexões Érico, só discordo da relação entre a exigência de pureza e cristianismo como inviabilização da política. O que dizer de Thomas Müntzer:

    “Deus deu senhores e príncipes por ter estado irado, mas em tempo Ele os removerá em seu desgosto. Se os príncipes agirem não só contra o evangelho, mas também contra os direitos naturais do povo, devem eles ser estrangulados como cães.” Nem pureza absoluta, nem tampouco ascetismo desprendido da práxis revolucionária histórico concreta. Não compartilho dessa ideia corrente no iluminismo de feições voltairianos, que chegou a Marx e Nietzsche, de que as religiões apenas aprisionam e ludibriam o homem.

    Publicado por Marcos batista | 21 21UTC abril 21UTC 2012, 15:52
    • Marcos! Meu ponto não era inviabilizar uma política cristã, nem uma teoria cristã da política. Tendo a pensar que do ponto de vista moral e, talvez, político, a divergência não é acidental, mas essencial, dada a diversidade de formas de vida humanas. Mas, no Brasil acho que incorporamos mais o discurso asceta por conta de nossa formação. A religião não ludribia, a priori, os homens, pois há uma escolha quando se dispõe a ser religioso que não nem pior, nem melhor que ser ateu, mas o discurso asceta, religioso, sobretudo, pode sim nos paralizar quando nos coloca um sentimento de culpa acentuado e injustificado politicamente e moralmente.

      Publicado por Érico Andrade | 23 23UTC abril 23UTC 2012, 13:59
  4. É muito bom encontrar textos que nos impulsionam a pensar (sobre) algo!
    Filosofando a práxis, melhor ainda.
    Adiante!

    Publicado por Dayse Luna | 21 21UTC abril 21UTC 2012, 17:48
  5. Érico, parabéns!

    Publicado por Beatriz Melo | 21 21UTC abril 21UTC 2012, 20:19
  6. Gente, que texto ruim! Que malabarismo para dizer coisas como: “2) Conseguir morar em Recife passa hoje, sobretudo, pela compra de um apartamento. Isso exige o aumento no número de prédios para tornar minimamente equilibrada a curva de demanda e oferta”. De que Recife o professor está falando? Escrevi, noutro blog, que o Recife é bem maior que o terraço do Tebas e a calçada do Central. Bairros mais distantes do “centro” (quem os quer?) oferecem outras possibilidades de moradia mas não vejo isto sendo mensurado naqueles que afirmam a obrigatoriedade de se comprar/ter um apartamento.

    Eu não anseio um agente político asséptico, cauto, coerente. Mas espero (isso sim!) que ele se reconheça como sujeito lacunar, contraditório. E, cá pra nós, não vejo isso nos paladinos pró-estelita. Agora, acho que este é um bom momento para discutirmos a cidade e, sobretudo, nós mesmos: essas contradições, essas forças que, por conta da ocupação do Rio Sena, estão se dando a chance de aparecerem, conflitarem, conversarem.

    Agora aguardo a maldição de discordar de um Doutor. E fiquei aqui pensando: o que esperar da nossa Academia? Medo, muito medo.

    Publicado por Marconi Bispo. | 22 22UTC abril 22UTC 2012, 12:01
    • Marconi Bispo, boa tarde! Agradeço as críticas, pois elas podem me ajudar a esclarecer alguns pontos. Primeiramente, a minha tese consiste mostra que não faz sentido julgar o movimento político pela avaliação moral de cada agente político do movimento. Segundo, as condradições do agente não inviabilizam o movimento. Talvez eu devesse afirmar também que não encontro em posição privilegiada para avaliar nenhum ator político do Ocupa Estelita. De qualquer modo, isso é pouco relevante para a minha tese, arrolada no texto, pois não considero que o julgamento moral de cada indivíduo determine a essência do movimento político. Um abraço, Érico

      Publicado por Érico Andrade | 23 23UTC abril 23UTC 2012, 16:05
  7. Contradições e não condradições. Perdão pela velocidade da digitação.

    Publicado por Érico Andrade | 23 23UTC abril 23UTC 2012, 16:06
  8. Incrível o texto Érico. Faz, sem abstrair das contradições sócio-econômicas do problema,uma rápida e consistente antítese à tese pró-status-quo que tem circulado por aí. Grande abraço!

    Publicado por Vinicius | 23 23UTC abril 23UTC 2012, 17:53
  9. “Julgar o movimento político pelo caráter moral do seu agente significa subordinar uma ideia coletiva ao somatório dos interesses individuais que na maior parte das vezes são difusos e distintos. O espírito de um movimento político não repousa na uniformização moral do agente político…”

    Perfeito Érico!.

    Mesmo que por vias difusas, de uma forma ou de outra, todos que lá estiveram chegaram ao reconhecimento comum da existência de um problema que os afeta de alguma forma. Até mesmo aqueles que foram lá como um simples programa de domingo, chegam a este reconhecimento.

    Publicado por Mario Lobo | 23 23UTC abril 23UTC 2012, 19:12
  10. Professor, está nítido. Tudo. Só não concordo contigo.

    Eu acredito que estamos num momento ideal, importante, para discutirmos este movimento, outros movimentos, para onde e, especialmente, com QUEM estamos (querendo!) nos movimentar. Fico pensando quantos atores que poderiam estar arrolados neste #ocupeacidade tem condições de fruir com teu texto e com tantos outros que pululam por aí. Para quem escrevemos? Com quem dialogamos de verdade?

    Cansado. Um grande abraço,

    Marconi.

    Publicado por Marconi Bispo. | 23 23UTC abril 23UTC 2012, 22:25
  11. Para dialogar é necessário estar disposto ao diálogo. Essa é uma condição essencial para o diálogo

    Publicado por Érico Andrade | 24 24UTC abril 24UTC 2012, 14:35
  12. Professor, obrigada pela reflexão… O Recife está precisando urgente disso… Repensar as prioridades e pensar na cidade como um espaço “socioambientalhistóricocultural”…

    Publicado por Martili Anny | 24 24UTC abril 24UTC 2012, 20:17
  13. O #OcupeEstelita está lotado de gente politicamente correta que não tem a menor noção da função do Estado nesse contexto. Essa ignorância enfraquece o movimento.

    Pelo nome se vê quão limitada é a visão dos manifestantes. Para começar, contraria a tradição pernambucana de não imitar o estrangeiro. Segundo, trata de problemas da RMR, mas, o desavisado pensa que é somente do cais.

    A população em geral e os políticos não estão nem aí para esse movimento. Um dia após a primeira manifestação, o prefeito afirmou o seu apoio ao projeto de forma a demonstrar o seu desprezo por ele.
    Essa conversa de “capitalismo selvagem”, “projeto de rico”, “Centro é local de mistura”, “abaixo as construtoras”, “Projeto Recife Antigo” etc., é ultrapassada. Quem tem poder para modificar o quadro atual não dá ouvido para tanta baboseira. Os mais esclarecidos são prejudicados pela “liberdade de expressão” dos idiotas.

    Boa intenção não resolve. Esse parque de diversão que estão montando no cais não resolve.
    A pressão deve ser exercida nas portas do poder!
    #OcupePrefeitura, #OcupeEstado, #DesocupePT e #DesocupePSB seriam mais eficazes.

    Sou do Rio de Janeiro, onde os edifícios foram construídos colados uns aos outros. Esse movimento é louvável e mantém a tradição de povo contestador. Parece tardio, mas, ainda há tempo para crescer sem comprometer tanto a qualidade de vida de seus habitantes. Só falta abrir espaço para os esclarecidos expressarem as suas ideias.

    Publicado por Marcelo França | 27 27UTC abril 27UTC 2012, 21:24
    • Marcelo Franca, bom dia! Acho que você está confundindo a falta de uma maior clareza sobre o movimento com a natureza do movimento. Nesse sentido, é melhor ser mais prudente e econômico no uso de adjetivos e trazer um pouco mais de argumentos. O essencial do texto é evitar o julgamento político por meio do apelo moral, ou mais precisamente, moralista. Obrigado pela leitura do texto.

      Publicado por Érico Andrade | 30 30UTC abril 30UTC 2012, 08:59
  14. Parabéns pelo texto.

    Publicado por Marcelo França | 27 27UTC abril 27UTC 2012, 21:29
  15. Oi, Marcelo, pois eu achava que tinha arriscado uma teoria razoavelzinha sobre a função do Estado, exposta nesse texto: https://direitosurbanos.wordpress.com/2012/04/24/ativistas-do-direitos-urbanos-explicam-por-que-sao-contra-o-novo-recife-painelaurora/ e também achava que, em outros textos publicados nesse blog, estava claro que o grupo não adotava uma posição regressista e simplisticamente anti-capitalista. Bem, é evidente que em um grupo com mais de cinco mil pessoas há uma enorme diversidade de opiniões e visões, e, dentre elas, aparecem anarquistas, socialistas e o que mais você quiser. Mas o ponto importante é que, mesmo que não se adote uma visão contrária ao capitalismo (eu não sou anti-capitalista, por exemplo), é possível criticar esse modelo de desenvolvimento. Não estamos falando de nada bonitinho, utópico ou ingênuo, mas de princípios bem elementares que são muito bem aceitos em países capitalistas com grande qualidade de vida e que por aqui são rapidamente rotulados como “baboseira”, tanto pela direita quanto por uma parcela atrasada da esquerda. O grupo está aberto a críticas, a sugestões, mas a sua leitura me pareceu bem equivocada. Por exemplo, a manifestação do prefeito revela mais que o Ocupe fez alguma pressão do que que tenha sido simplesmente ignorado. E toda a crítica às expressões usadas não pode ser feita simplesmente decretando que elas são bobagens. Por quê é errado dizer que o centro de uma cidade deve ser um local de mistura? Tens algum argumento? Por fim, também é equivocado esse foco no partido A ou B. Por acaso partidos historicamente aliados a esse modelo de desenvolvimento que estamos criticando, como o PSDB ou o DEM, seriam melhores em algo? Bem, então só lhe resta expressar melhor o seu “esclarecimento”. O espaço está sempre aberto. Você não precisa publicar aqui para expressar essa sua visão esclarecida. Você pode escrever uma nota no seu facebook, um post longo no grupo Direitos Urbanos lá do FB ou usar uma ferramenta como esta (http://instablogg.com/) e compartilhar o link. Se for uma contribuição interessante, ela poderá ser compartilhada nesse blog aqui e pelas outras ferramentas de comunicação do grupo.

    Abraços

    Publicado por Leonardo Cisneiros | 28 28UTC abril 28UTC 2012, 22:34
  16. TÔ QUERENDO ARMAR UM PICNIC AÍ, QUEM VAI???

    Publicado por Josildo Maia | 21 21UTC dezembro 21UTC 2012, 14:55
  17. Parabéns, Érico, pelo texto e pela denúncia a esse tipo de discurso moralizante que, entretanto, está baseado em premissas equivocadas e, pior ainda, aponta para implicações seríssimas, na medida em que tolhe o verdadeiro exercício de debate democrático em prol da construção de projetos políticos. Quanto a essa última referência, permita-me uma sugestão: Ao invés de por a questão nos termos seguintes: “a atividade política é coletiva e não individual”, eu preferiria dizer que a atividade política é social, posto que tanto o indivíduo quanto o coletivo são daquela ordem. E ainda mais que, abrigadas sob a mesma categoria, “indivíduo” e “coletivo” não cairiam presas fáceis de dicotomias…

    Publicado por Dan Venerius | 14 14UTC novembro 14UTC 2014, 16:04

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