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NOVO RECIFE, VELHA MENTALIDADE

Freqüentei o Cais José Estelita na década de 70, quando meu pai me levava para acompanhar as regatas de remo da cidade. Na torcida pelo Sport, andávamos de um canto a outro, debaixo de uma lua solar de rachar. Era, assim como hoje, um lugar ermo, uma passagem de automóveis, do centro para Boa Viagem. Capitão Temudo ainda era o lendário comandante de defesa de 1630, o primeiro a atirar contra os holandeses invasores, nos limites do Rio Doce, antes de devotar sua vida heroicamente no alto da ladeira da Misericórdia.Não quero ser nostálgico, mas nos primeiros anos da década de noventa, já na faculdade de arquitetura e urbanismo, sonhava com a renovação daquela área, contemplando moradia, centros comerciais e culturais, além de espaços públicos de ocupação popular, principalmente para os menos favorecidos que viviam na região, compreendendo principalmente o bairro do Coque (pude vislumbrar projetos nunca executados apresentados pelo Pro-Morar do BNH para o bairro em tela.)

Vejo claramente a oportunidade de consertar algumas coisas no combalido cenário urbano do centro do Recife através do projeto ora apresentado, cuja alcunha Novo Recife deveria, caso ambicioso fosse, mudar os paradigmas da ocupação do solo na cidade. Pelo menos levando em consideração uma contrapartida social que transcenda os parcos quilômetros de ciclovias que serão oferecidos.Resolver os problemas do Coque é essencial, revitalizar a Rua Imperial, a Avenida Sul e suas adjacentes, oferecendo espaços para novos empreendimentos residenciais e comerciais, assim como possibilitar uma nova irrigação do centro da cidade, conformando uma vertente original da Av. Dantas Barreto. Por que construir apenas no cais, na beira rio, no melhor pedaço? Mesmo que o cais seja o mote da revitalização deveria ser parte de um PLANO MAIOR de renovação desta parte sul do Território Central.

O centro do Recife perdeu uma oportunidade de ouro, na década passada, quando houve o “boom” das universidades. Poderíamos ter concentrado todas as instituições que surgiram nos bairros históricos. Teríamos provocado uma revolução urbana. Moradias, vida noturna, renovação da população e do comércio nos bairros de Santo Antônio e São José. Perdemos o bonde…

Outro detalhe importante é o gabarito e o modelo construtivo que se defende com tal projeto. Lembro de ter assistido um debate organizado no Pavilhão do Arsenal, local de exposições e reuniões gerenciado pela Prefeitura de Paris, sobre a verticalização nesta capital. Na ocasião, Jean Nouvel, Dominique Perrault e Christian de Portzamparc, três dos principais nomes da arquitetura francesa, defendiam, cada um a sua maneira, a possibilidade de se construir torres na Velha Lutèce (nome dado a Paris galo-romana). Uns defendiam o adensamento onde já existiam torres, outros torres isoladas como “acupuntura urbana” de revitalização e renovação. Num dado momento, um senhor muito distinto, levantou-se e pediu a palavra. Era o presidente da Associação de Moradores de Paris. Depois de alguns argumentos pertinentes ele disparou: vocês podem sonhar, mas em Paris vocês não vão construir torres… a Lei Malraux que o diga…

Isso evidencia algo que ainda está muito longe de nós. Uma associação de moradores respaldada pela legislação, tranqüila do cumprimento da mesma, ciente de que nada poderá mudar isso. Aliás, se tem uma coisa que funciona em Paris é o patrimônio histórico, com seus arquitetos (os respeitados ABFs), controlando as construções da cidade. Bem diferente de nossa miserável realidade, onde o poder econômico manda e desmanda.

No “ocupeestelita”, vimos uma demonstração clara de mobilização de uma classe que não costumava protestar. Ainda somos sobremaneira pacíficos. Fossemos gregos, atearíamos fogo por aí. Melhor ser pacífico. Mas vale a reflexão momentânea e a esperança de uma posição mais humana e construtiva do poder econômico, mesmo que o prefeito da cidade seja o primeiro a querer passar a página, achando que já está tudo muito bom (se o dinheiro de sua campanha estiver garantido).

Apelo seria a reconsideração do projeto pelos próprios empreendedores, desde que a prefeitura e o governo se unissem para encontrar uma solução que sirva melhor ao coletivo urbano da cidade. Os transtornos serão muito grandes, o sofrimento cotidiano será inevitável. Na intervenção de Hausmann, foram 17 anos de obras, 20.000 imóveis insalubres destruídos para 30.000 novos imóveis construídos, 300 km de vias criadas, 600 km de esgotos criados, dois grandes parques criados (Bois de Boulogne, Bois de Vincennes), além de iluminar toda Paris (com fiação embutida, claro), que até então vivia na escuridão. Voilà a razão pela qual Paris, depois de mais de 150 anos, suporta ainda todo tipo de evolução.

RECIFE, para ser verdadeiramente NOVO, precisa, antes, renovar a mentalidade de todas as suas classes sociais.

Texto publicado no perfil do Facebook de Aluízio Câmara
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