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Ações e mobilização, Artigos

Recife, a nova Bagdami: uma mistura de Bagdá com Miami

 

 

 

 

Nascida de uma manifestação nas redes sociais, centenas de pessoas ocuparam hoje o Cais José Estelita. A idéia é evitar que aquela área se transforme em mais uma dezena de famigerados espigões da Moura Dubeux.

Como todos já sabem, a construtora, famosa por fraudar o leilão do terreno que originou as duas torres no cais de Santa Rita, adquiriu o terreno que era propriedade da Rede Ferroviária Federal, juntamente com outros dois grupos.

A partir daí, fez um projeto ousado de contrução na área, que inclui um hotel, empresariais e residenciais, além de uma área comum, que só acredito vendo, já que da Moura Dubeux só espero o pior.

A área utilizada para a construção está na figura abaixo.

O que vai ser do projeto ainda não sabemos, mas vamos pontuar alguns fatos sobre a mobilização, que estão sendo levantados nas redes sociais.

  1. Para começar, é preciso ressaltar que uma mobilização como essa é de um simbolismo enorme. Depois de muito tempo, a população sai às ruas para exigir que se discuta um projeto para a cidade. É algo especial, principalmente em um momento de enorme desmobilização como o que vivemos atualmente.
    É preciso aproveitar este momento.
  2. A área está abandonada. Isto é um fato. Mas o fato de estar abandonada não dá à iniciativa privada o direito de fazer o que bem entende, porque é preciso atender ao interesse público.
    Quem lê o Acerto de Contas sabe que sou um liberal por princípio, e isso quer dizer exatamente que acredito na regulação estatal e na mobilização das pessoas para que o interesse coletivo seja preservado.
    E no caso específico do setor imobiliário, o setor privado deve vir à reboque das dicussões públicas, e não o contrário. As contrutoras só lideram as discussões porque o Poder Público por aqui é uma piada.
  3. A mobilização está chegando tarde, porque este projeto foi aprovado como rolo compressor. Isso é apenas um retrato de que a gestão do PT vem fazendo o que bem entende da cidade, e que abandonou qualquer ideia de planejamento urbano. Aquelas duas torres no Cais de Santa Rita é o retrato do abandono.
    E mais, se aquela área não fosse murada e de propriedade da REFESA, já teria virado uma grande favela, como virou o Joana Bezerra. Ou alguém esqueceu que em 2000 havia um enorme descampado em frente à estação de metrô. É certo também que
    gestões anteriores não fizeram muita coisa.
    A esculhambação com a ocupação da cidade é culpa exclusiva da leniência do setor público. E planejamento urbano é muito mais do que uma luta de classes. Deve-se saber o que deseja de uma cidade, e não a ocupação desordenada como o que há.
    E falando da mobilização, esta pode ter chegado tarde, mas as decisões não são irreversíveis. Essa é a hora de se rediscutir os projetos, já que não há nada construído.
  4. Todo mundo quer a revitalização da área. Mas esta deve vir de uma discussão liderada pelo Poder Público, e não por uma construtora.
    mas é preciso lembrar também que a iniciativa privada investiu R$ 55 milhões, dentro de um marco regulatório existente. A desapropriação da área para qualquer fim já parte deste investimento, que deverá ser feito pelo Poder Público.
    Mais um motivo para se discutir com calma.
    É preciso lembrar que trata-se de um terreno privado.
  5. O Movimento foi acusado de não saber o que quer.
    E daí?
    Pode não saber o que quer, mas sabe exatamente o que não quer.
    Não quer que a cidade se transforme em uma Bagdami, uma mistura de Bagdá com Miami.
    De um lado prédios imponentes, paraíso da classe média alta que desfila em carrões, e algumas centenas de metros depois, uma desordem urbana parecida com Bagdá, com o Centro abandonado à própria sorte.


Recife será a nova Bagdami, com Periferia e Centro de Bagdá,
e Beira-mar de Miami.

Recentemente Edilson Silva escreveu um artigo para o Acerto de Contas, falando com propriedade sobre o tema. Ele tem razão quando fala que a Prefeitura não sabe onde quer chegar com a cidade. Nosso Poder Público não tem um projeto urbano, muito menos de mobilidade. Dia desses anunciou alguns estacionamentos, como se a solução para o Recife fosse colocar mais carros na rua. A Prefeitura deveria estar liderando um processo de discussão, e não ficando à reboque, como foi no caso da Tamarineira.

Dia desses levantei uma discussão sobre as Zeis na cidade do Recife, e sobre a legislação que acabava prejudicando os pobres. Para se ter uma ideia de como a discussão acaba ficando pobre, muita gente acha que eu estava defendendo a construção de espigões. Talvez tenha me expressado mal no texto, mas o fato está na guerra que se transformou os defensores da expulsão dos pobres contra os contrários à mudanças urbanas.

Na minha opinião, o bairro popular do Recife mais organizado é Brasilia Teimosa, e acredito que deva continuar assim, mas dando aos proprietários das casas a posse do terreno, inclusive para que aumentem seu patrimônio pessoal.

O problema está em achar que a iniciativa privada deva ser tratada como inimiga, e não como parceira. Não podemos tirar o comportamento de todas as construtoras pelo da Moura Dubeux e de meia dúzia de outras empresas que não respeitam legislação e passam por cima de tudo.

Cabe ao Poder Público realizar um planejamento para a cidade, discutindo com a população, e ser firme no cumprimento deste planejamento, até para que empresários sérios se engajem em um novo projeto de cidade.

Esta é a oportunidade de iniciar uma discussão séria sobre o que queremos para a cidade, e com certeza espigões à beira-mar não será solução alguma. Mas com um marco regulatório que atenda ao interesse público, o setor privado se adequa.

E isso tudo justamente para evitar o que chamei aqui da transformação de Recife em Bagdami, com o Centro da Cidade e a periferia se parecendo com Bagdá, e a beira-mar se assemelhando a Miami.

O Movimento Ocupe Estelita é a maior novidade neste cenário de falta de discussão sobre a cidade. Cabe a todos nós aproveitarmos esta mobilização e pensar a cidade que queremos.

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