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Os verdadeiros tubarões e a importância do Ocupe Estelita

Quando há mais de duas décadas os donos do poder em Pernambuco decidiram aterrar e alterar violentamente manguezais e rios de Suape, destruindo o ecossistema em uma faixa litorânea não maior apenas que a cegueira ambiental, eles não poderiam adivinhar que, além das invisíveis colônias de pescadores da região, as praias de Jaboatão e Recife também seriam maculadas, tornando-se faixas de ataques de tubarões e afetando seriamente não apenas o turismo mas, sobretudo, o uso do mar e da praia como um espaço público da população pernambucana. Pudessem prever, fariam tudo de novo melhorando apenas a propaganda.

Talvez quem more no Recife já esteja habituado e nem pense mais nisso, mas a cidade não tem mar. A população do Recife não usa o mar. Vai à praia para ficar na areia, o que é massa, vão dizer, sem dúvida, mas banho só até o umbigo e com medo, mergulho é rápido e se sentir cheiro de melancia corra. Praia é, mesmo com meio mundo de cadeiras e barracas que privatizam o espaço comum e alguns prédios criminosos que possuem muros já na areia, algo público, democrático e, para quem quer, gratuito. E o mar poderia ser. Banhista, nadador, surfista, velha, gordo, magro, liso, rico. Todo mundo agora confinado em cadeiras e cangas numa faixa de areia que diminui cada vez mais com o tempo, sem ter para onde correr, banhado por uma sombra de espigões que chega mal passou o meio dia. E quem destruiu os estuários e manguezais está em Porto de Galinhas tomando sol e água de coco.

São indiscutíveis os ganhos que o Porto de Suape, empresa pública, trouxe e traz para a população pernambucana, sobretudo para políticos que são também donos de laranjais, transportadoras, empresas do setor de logística, ou os que recebem doações generosas para facilitar a implementação de indústrias com concessões de impostos e pressionar autorizações ambientais que assustariam até os maiores vilões de filmes catastróficos. Cidades que movimentam centenas de milhões de reais fazem de políticos e lobistas verdadeiros marajás enquanto suas populações, que continuam sem nenhuma herança verdadeira nas áreas de educação e saúde, passam a conviver dramaticamente com o aumento de atropelamentos, a prostituição infantil, o tráfico e consumo de drogas pesadas, a destruição ambiental irreversível, reféns de indústrias e fábricas que empregam sim, muitos habitantes, mas que também lucram muito com o livre arbítrio em nome dessa “magnífica bondade”. O bolo cresce mas o povo só come o farelo que cai da mesa. E na menor das pressões as empresas fecham as portas e procuram outro canto para explorar. Ciente e participante disso, o governo capricha na propaganda.

Na capital, que já não tem mar e nunca teve muitos parques ou áreas públicas, democráticas e gratuitas, tubarão agora nada no asfalto e concreto armado. Verticaliza alguns bairros até torná-los impraticáveis, pressiona a destruição de outros através da  “remoção de comunidades” para conjuntos habitacionais na casa do chapéu, ignora o saneamento básico e a educação de milhares enquanto constrói vias para shopping centers e distribui apartamentos em torres para políticos de todo tipo, do que faz orgias ao bigodudo zen. Não existe direita ou esquerda quando a corrupção é base de governo. Prefeito compra casa em Apipucos por preço bem abaixo do de mercado a dono de construtora, governador recebe doação pra campanha e pra vida toda de empreiteira de viaduto onde o que se precisa é de ônibus, metrô, honestidade. E as conseqüências disso vão muito além da perda de um importantíssimo espaço que poderia ser coletivo, elas se refletem na construção de uma cidade onde o apartheid social vira política pública e o carro, o apartamento alto, a pista prime e o dinheiro guiam os objetivos de vida de milhares.

Hoje, os políticos e agentes envolvidos nessas maracutaias sabem certamente as conseqüências de seus atos. Sobretudo a própria impunidade e o grande dinheiro que acumularão. O mar avança, o concreto também. Esquerda e direita não existem mais, todos os nobres deputados, excelentíssimos vereadores, prefeito e governador de ontem e hoje estão na mesma quadrilha que rouba até “sob os preceitos da legalidade”. No mais, ou nos organizamos e, de fato, marcamos opiniões e ações apontando com todos os dedos e dentes quem ferra a vida dessa cidade, ou viramos comida desses animais.

De Bruno Maia

 

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