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Ocupa ou desocupa – o último suspiro do Cais José Estelita?

por Marília Cireno

Foi principalmente depois de ler algumas críticas ao movimento #ocupeestelita que resolvi emitir uma breve opinião. Esse lance de ser contra o progresso, de querer que o cais continue abandonado e de que os participantes do protesto não podem morar em prédio nem ter iphone, na minha opinião, é a mesma coisa que justificar o embargo norte-americano a Cuba em pleno século 21 dizendo que os cubanos são terroristas e têm mísseis apontados pra Miami. Isso não tem nada a ver com a história do Cais, mas vale pra ilustrar como uma opinião pode ser sustentada em argumentos fracos, contraditórios e cheios de preconceito, isso acontece muitas vezes sem que o próprio interlocutor perceba (isso muitas vezes caracteriza a alienação).

Como é domingo, quase meia-noite, e amanhã jajá chega com seus horários e compromissos de segunda-feira, vou me limitar a focar nos argumentos que citei acima e considero fracos e contraditórios.

1. Contra o progresso – Não sei de onde tiraram esse absurdo. Ser contra um empreendimento particular ou uma determinada postura de intervenção urbana não tem nada a ver com o progresso de uma cidade ou região. A questão é acordar para a realidade de que um progresso responsável, dinâmico e integrador pode ser muito mais benéfico para a cidade, principalmente a médio e longo prazo, do que um progresso baseado em exploração máxima do potencial imobiliário. Quem disse que torres altas são sinônimo de progresso? Torres de edifícios podem existir sim na cidade, mas em determinados locais elas simplesmente não preenchem a vocação do lugar. Ok, Nova Iorque é legal, mas não é de jeito nenhum um exemplo de cidade humanizada e saudável, mas, sim, a babilônia do consumismo e da artificialidade (a cidade nasceu como uma região de parques temáticos em Coney Island, mais fake impossível). Sem contar que Recife nunca será Manhattan, a não ser que passem um trator em cima de tudo e recomecem do zero, seguindo a cartilha de malha urbana ortogonal, com quadras gigantes, vias largas, metrô à vontade pra aproveitar a dimensão subterrânea, um projeto de ampliação do parque da Jaqueira deixando-o com 341 hectares precisamente… Não vou nem continuar, já deu, né? Enfim, tudo isso pra dizer que progresso é legal e a gente gosta, mas não de qualquer jeito, é lógico.

2. Deixa o Cais abandonado – Ninguém é ignorante ao ponto de querer deixar o Cais abandonado e fadado a virar ruína. E foi exatamente daí que surgiu o nome do movimento: #ocupeestelita. Se fosse pra defender o abandono, o movimento seria #deixemestelitaempaz. O fato é que a área em questão já vem sendo discutida há anos. Dentro da universidade, tive a oportunidade de conhecer vários projetos acadêmicos que tratavam do local, mas o poder público nunca deu sinal do que iria acontecer ali. O movimento podia sim ter surgido antes, mas isso não aconteceu, e nem por isso não é legítimo. Foi preciso o anúncio do Projeto Novo Recife pras pessoas sentirem que se não se apropriarem do espaço podem perdê-lo. O Cais José Estelita é uma área que representa a nossa cidade, é um patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, ferroviário… Ninguém quer vê-lo abandonado, mas também não precisa criar nenhum Frankstein Arquitetônico à la Dubai. O discursodos incorporadores é até bonito, romântico… Olha só, vai ter pista de cooper, ciclovia, parque, área verde (só não disseram se o verde vai ser grama sintética como já vi em muito prédio por aí da própria MD). O que incomoda muita gente, como eu, é o simples fato de que não é esta a realidade práticaque eles próprios vêm construindo na nossa cidade, eles simplesmente sabem vender seus projetos, e é o que estão fazendo agora. As famigeradas Torres Gêmeas falam por si. As imponentes e vigiadas torres que vêm crescendo em toda a cidade não têm vida, não têm permeabilidade, não oferecematrativos e dinamicidade que permitam a apropriação pública. É assim em 100% dos casos. Sem contar na sobrecarga que sofrem os sistemas infra-estruturais de mobilidade e esgotamento sanitário, que não previam essa intensidade de utilização quando foram projetados. Por que acreditar que agora eles serão tão bonzinhos? É aquela velha história do arquiteto que projeta um banco na calçada – quem disse que alguém vai sentar ali? Mas, se houver uma demanda de pessoas que passam por ali e vislumbram algum interesse ou atrativo que as façam parar um instante, até no meio-fio elas podem se sentar, ou seja, é aí que o banco deve entrar. Poderia ser uma estátua, um chafariz, um posto de gasolina, mas, neste caso, a vocação do lugar pede um bendito banco, obrigado.

3. Tem que morar em casa e ter um celular sem câmera (de preferência nem ter celular) – Um certo grupo de pessoas que compartilha uma certa opinião resolve se reunir num local emblemático para a causa, com o intuito de mostrar força, formar uma massa crítica, conversar sobre a cidade e experimentar as possibilidades de uso do espaço urbano. Maravilha. Pra isso não precisa pertencer a nenhuma classe social específica. Vi muita gente classe média sim no #ocupeestelita, mas a maioria era consciente, disposta a discutir, interessada no futuro da cidade. Alguns podem até ter ido só pra dar um passeio, jogar conversa fora… E isso é ótimo! Foi um domingo de sol perfeito pra isso também. Quanto à morar em casa… Infelizmente essa é uma realidade cada vez mais rara na nossa cidade. Primeiro porque as casas estão sendo exterminadas(por quem mesmo?) e as poucas que restam custam um dinheiro absurdo (afinal, possuem um potencial econômico altíssimo já que podem virar megalojas, clínicas ou prédio$). Fora a violência urbana, que é fortemente ligada com a falta de apropriação dos espaços públicos, que leva às construções a se isolarem e hostilizarem as ruas, que desestimula a apropriação dos espaços públicos, que aumenta a violência urbana, e por aí vai. Tenho certeza que muita gente moraria em casa, se pudesse pagar e se não tivesse medo da violência.

Pra finalizar, vejo o movimento pelos Direitos Urbanos no Recife e o próprio #ocupeestelita como um momento precioso de conscientização e discussão dos problemas e potenciais da nossa cidade. Isto num momento de comodismo, desmobilização, desinformação e supervalorização do individualismo é algo muito positivo e que deve ser louvado. Vida longa ao #ocupeestelita, tomara que aconteça todo domingo.

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Discussão

4 comentários sobre “Ocupa ou desocupa – o último suspiro do Cais José Estelita?

  1. Excelente texto!

    Esses edifícios que a MD quer construir têm altura incompatível com a escala humana o que causa uma sensação de opressão. Não se pensa mais a cidade do ponto de vista do ser humano, e falo “ponto de vista” no sentido literal mesmo, da perspectiva, do horizonte, do ser humano.

    Além de todos esse carros que irão circular no local, consequência direta da verticalização,gostaria de saber se a área tem saneamento compatível (nem sei se tem saneamento) com o projeto.

    Seria maravilhoso se o #ocupeesteita acontecesse todo domingo! E cada vez mais agregando gente crítica e não apenas festiva (o que tbm acho ótimo!).

    Ocupar! Resistir! Produzir!

    Publicado por sandra camurça | 17 17UTC abril 17UTC 2012, 06:14
  2. Aqui em Porto Alegre também somos chamados de “inimigos do progresso”, “ecoxiitas” ou “ecochatos” por nos posicionarmos contra esses absurdos!
    Parabéns!
    Continuem com a RESISTÊNCIA, divulguem o que está ocorrendo e o que vai acontecer se a população se omitir.
    Por aqui já tivemos duas vitórias importantes nessas lutas da cidadania:
    Preservação da Rua Gonçalo de Carvalho
    http://poavive.wordpress.com/rua-mais-bonita-do-mundo/
    Vitória do NÃO ao projeto imobiliário Pontal do Estaleiro
    http://poavive.wordpress.com/frente-do-nao/

    Abraços de Porto Alegre

    Publicado por poa resiste | 18 18UTC abril 18UTC 2012, 00:37
  3. Os Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho, Porto Alegre/RS, manifestam seu apoio aos cidadãos de Recife contra esse absurdo que está planejado no Cais.
    Como diz a música do Chico Buarque, “Juntos somos Fortes”!
    Estamos acompanhando e divulgando por aqui a luta de vocês aí.

    Abraços

    Publicado por Gonçalo de Carvalho | 18 18UTC abril 18UTC 2012, 01:20
  4. Parabéns Marília! Concordo plenamente com seus argumentos e opinião a respeito dessa construção dita “progresso” pelos que querem mascarar a realidade pensando que estão enganando pessoas esclarecidas como nós. Queremos um bem para a coletividade, para nossa cidade e não para uma minoria que não pensa em preservar o que temos de mais bonito e caro que é a nossa história e o pouco de natureza que nos sobra. O Progresso é maravilhoso, mas de forma consciente, ordenada e com coerência. O projeto tem que ser bom para o Recife e para toda sua população. Progresso com preservação, consciência e sem hipocrisia é o que importa!

    Publicado por Maria Helena Cunha | 18 18UTC abril 18UTC 2012, 11:58

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